O Dicionário Biográfico de Cinema#299: Joan Crawford

 


Joan Crawford (Lucille Fay Le Sour) (1906-77), n. San Antonio, Texas

Um ano após a morte de Joan Crawford, sua filha adotiva Christina publicou Mommie Dearest [Mamãezinha Querida]; depois de três anos este livro seria levado às telas, sem qualquer esforço, equílibrio ou desafio ao ponto de vista injurioso da filha. No filme, Faye Dunaway ofereceu uma brilhante mas linchadora personificação na qual a sumpreendente semelhança obscureceu testes mais incisivos de credibilidade da personagem. E assim, Joan Crawford passou de mito a uma disciplinadora insana cuja maior necessidade ou crença dizia respeito a cabides almofadados. Mamãezinha Querida é, talvez, a mais influente memória de Hollywood publicada. Modificou o modo como os editores, leitores, estrelas e fantasmas se aproximaram de tais volumes. E empurrou para casa a crescente consciência que "Hollywood" foi somente um mau filme onde vidas foram interpretadas no chiaroescuro do "camp".

Não questiono a essência que Cristina Crawford tenha a dizer - a história do abuso infantil no universo cinematográfico é toda muito exagerada (mesmo que a maior parte dos abusos seja por excesso de mimos) e vale a pena ser contada como um corretivo à publicidade polida com a qual Hollywood tem regularmente promovido os ideais de lar e família. Ainda assim, Mamãezinha Querida ameaça obscurecer a verdadeira história de Joan Crawford; ao transformá-la em nada mais que uma bruxa, perdendo a fascinante provação e tragédia de sua carreira. Lembrando que ao buscar adotar e possuir crianças perfeitas (e ao acreditar em crianças perfeitas) estava fazendo o seu melhor para viver na ideologia maluca pela qual fez tanto para ilustrar.

Se não por outra coisa, Crawford foi o exemplo vivo e cinematográfico de como uma mulher vindo de lugares tão baixos, se não mesmo sombrios, poderia triunfar  nesta versão do sistema de classes americano conhecido como realeza hollywoodiana. Crawford procurava ser uma heroína igualitária, defendendo a si própria entre nobres, esnobes, estrangeiros e alegadas atrizes refinadas e educadas. Foi uma estrela na MGM para rivalizar Garbo, Norma Shearer, Jeanette MacDonald, Katharine Hepburn, Myrna Loy, e Lassie. Crawford proveio do quente e latino Texas; seu nome foi modificado - seus pais eram um tanto misteriosos e um sem fim de histórias desagradáveis sobre as coisas que fez para subir na vida. A mesma Joan Crawford que buscava classe, respeitabilidade, respeito, e seu esforço terrível para chegar lá em uma das maiores carreiras no cinema. Talvez o esforço a desequilibrou, certamente se comportou mal, e claramente seu trabalho deteriorou. Mas sua Hollywood perdeu confiança bem antes dela mesma, e teve de se tornar estridente e exagerada. Nos melhores filmes de Crawford, ela possui o olho para a aspiração e a doce esperança que as roupas, a maquiagem, e posição mascarariam todos os compromissos feitos no caminho: ela era tão texana quanto Lyndon Johnson, tão insegura e tão próxima da caricatura. E em dois filmes chamados Possessed [Possuída e Fogueira de Paixão respectivamente], assim como Grand Hotel [Grande Hotel], Sadie McKee [Três Amores], Mannequin [Manequim], The Women [As Mulheres], Mildred Pierce [Alma em Suplício], Daisy Kenyon [Êxtase de Amor], Harriet Craig [A Dominadora], Johnny Guitar e What Ever Happened to Baby Jane? [O Que Terá Acontecido a Baby Jane?] possui uma carreira tão interessante quanto a política. 

Seus pais se divorciaram antes ou pouco após seu nascimento e a mãe casou outra vez com Henry Cassin, proprietário de um teatro de vaudeville - por um tempo desde então foi conhecida como Billie Cassin. Com seis anos de idade, passou um ano acamada após um acidente com seu pé. Dois anos após sua mãe e padrasto separaram-se. A família viajou e a educação da filha sofreu. Na sua adolescência, desejava ser dançarina e trabalhou como balconista para ingressar em lições e competições de dança. Trabalhou em pequenas boates antes de J.J. Shubert a contratar como corista da Broadway em Innocent Eyes, de 1924. Identificada por Harry Rapf, em 1925 foi posta sobre contrato da MGM e fez sua estreia em Pretty Ladies [A Mosca Negra] (Monta Bell). A MGM organizou um concurso em uma revista para encontrar um novo nome e "Joan Crawford" foi o vencedor. Seus primeiros filmes a envolviam em pequenos trechos de dança, mas recebeu mais atenção em Sally, Irene and Mary [Sally, Irene e Mary] (25, Edmund Goulding), contracenou com Harry Langdon em Tramp, Tramp, Tramp [O Andarilho (26, Harry Edwards), e seu primeiro grande sucesso em Our Dancing Daughters [Garotas Modernas] (28, Harry Beaumont). Ela foi a epítome da melindrosa, mas já marcada pela tristeza. 

Fortemente apoiada por Louis B. Mayer, tornou-se uma das estrelas de ponta da MGM: Paid [A Mulher que Perdeu a Alma] (30, Sam Wood); Dance, Fools, Dance [Quando o Mundo Dança] (31, Beaumont), a primeira das diversas aparições com Clark Gable; Possessed [Possuída] (31, Clarence Brown); Grande Hotel (32, Goulding), onde se antecipa nos créditos a Garbo, uma de suas principais rivais no estúdio; e Dancing Lady [Amor de Dançarina] (33, Robert Z. Leonard). A despeito de seu freacasso como Sadie Thompson em Rain [O Pecado da Carne] (33, Lewis Milestone), realizou a transição para papéis mais sofisticados: Today We Live [Vivamos Hoje] (33), de Howard Hawks; Três Amores (34) e Chained  [Acorrentada] (34), ambos para Clarence Brown; No More Ladies [Adeus Mulheres] (35, Edward H. Griffith); I Live My Life [Só Assim Quero Viver] (35, W.S. Van Dyke); e The Last of Mrs. Cheyney [A Última Conquista] (37, Richard Boleslavski e George Fitzmaurice). Ainda interpretava mulheres marcadas por origens humildes e ruína no amor. 

A semelhança dos papéis levou a uma crise e em 1938 era considerada como veneno de bilheteria. Foi restaurada por dois filmes de Frank Borzage, Manequim (38) e The Shining Hour [A Mulher Proibida] (38) e por As Mulheres (39), de Cukor, filme que enfatizava sua glamorosa aspereza, sua desqualificação social e seu eventual fracasso no amor romântico. Após Strange Cargo [Almas Rebeldes] (40, Borzage), Susan and God [Uma Mulher Original] (41, Cukor) e A Woman's Face [Um Rosto de Mulher] (41, Cukor) sua carreira despencou novamente, e abandonou a MGM. 

A despeito de assinar contrato com os Warners, não fez qualquer filme por quase dois anos e ainda teve lições de canto, tendo a ópera em mente. Jerry Wald pediu que retornasse com Alma em Suplício (45, Michael Curtiz), seu primeiro filme como mãe, construído em torno de sua capacidade para o sofrimento e que a fez ganhar um Oscar. Assegurando sua imagem de mulher de carreira de meia-idade, realizou Humoresque [Acordes do Coração] (47, Jean Negulesco), esteve muito bem tendo um colapso em Possessed [Fogeira de Paixão] (47, Curtis Bernhardt) e Êxtase de Amor (47, Otto Preminger), a última de suas mais controladas e tocantes interpretações. Mas seu sofrimento se tonrou mais bizarro - em Flamingo Road [Caminho da Redenção] (49, Curtiz) e em This Woman Is Dangerous [A Tragédia do Meu Destino] (52, Felix Feist), onde finda presa. Em Harriet Craig [A Dominadora] (50, Vincent Sherman) foi excepcional e visionária como uma perfeccionista doméstica. Sudden Fear [Precípicios d'Alma] (52) de David Miller, envolveu-a em uma ameaça genuína, assediada pelo jovem Jack Palance, mas em Torch Song [Se Eu Soubesse Amar] (53, Charles Walters), possui apenas o pianista-cego Michael Wilding como alimento. 

Enquanto se tornava mais feroz, seus filmes e estrelas masculinas pareciam enfraquecer. Em 1954 realizou Johnny Guitar para Nicholas Ray e Sterling Hayden mal conseguia enfrentá-la em diálogos repletos de recriminações. E em 1957 foi a horrorizada guardiã de uma garota estuprada em The Story of Esther Costello [A Donzela de Ouro] Miller). Somente Robert Aldrich posteriormente a resgatou da ignomínia - em Autumn Leaves [Folhas Mortas] (56) e O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (62), que reflete mais em sua vida no cinema que na de Bette Davis.

Muito de sua agonia ficcional nasceu da realidade. Após uma série de casamentos fracassados - Douglas Fairbanks Jr., Franchot Tone, e Philip Terry - e diversos abortos, adotou quatro crianças e, em 1955, casou-se com Alfred Steele, o presidente da Pepsi-Cola. Após sua morte, em 1959, tornou-se a primeira diretora mulher da companhia e sua anfitriã oficial. Sua carreira é a de uma estrela eminente, digerindo material pobre e imprimindo sua própria imagem em tudo. Sempre correspondendo a bons diretores e boas histórias, é mais autêntica em obras populares, nos encarando com uma boca feroz e olhos melancólicos. Como tal, é um ícone de um universo onírico de revista feminina - como um personagem se refere a ela em Se Eu Soubesse Amar, uma "madona cigana". Scott Fitzgerald capturou sua ferocidade monolítica: "Ela não consegue mudar suas emoções em meio a uma cena sem passar por uma espécie de contorção de face ao estilo de Jekyll e Hyde (...). Você não poderá nunca lhe dar a indicação como a de contar "uma mentira", porque se o fizer, ela praticamente lhe daria uma representação de Benedict Arnold vendendo West Point aos britânicos." Na verdade, ela podia fazer muito mais: foi uma pioneira dos sentimentos duros e cortantes - até que esta causa a deixou amargurada demais. 

Texto: Thomson, David. The New Biographic Dictonary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 574-78.

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