Filme do Dia: Fragmentos da Vida (1929), José Medina
Fragmentos da Vida (Brasil, 1929).
Direção: José Medina. Rot. Adaptado: José Medina, a partir de O. Henry.
Fotografia: Gilberto Rossi. Com: Carlos Ferreira, Alfredo Roussy, Áurea de
Aremar, Medina Filho.
Após testemunhar os últimos momentos
do pai (Ferreira), que tombou de um andaime, garoto (Medina Filho) é
aconselhado pelo mesmo a seguir uma vida de retidão e honestidade. Não é
exatamente o que ocorre, já que tempos depois o vemos (Ferreira) com um
comparsa (Roussy), praticando da arte dos pequenos furtos e da mendicância. Sua
ideia é ser preso, pois na prisão terá comida de graça. Após dar um trato na
aparência, resolve ir almoçar em um restaurante, mesmo sem ter o que pagar. Por
ironia do destino, seu plano de ir preso não se concretiza, pois um homem
resolve pagar sua conta. O mesmo se sucede quando resolve roubar o guarda-chuva
de um sujeito, que não esboça qualquer reação maior pois o havia comprado sem
saber a procedência. Quando quebra a vidraça de um estabelecimento comercial, seu
proprietário acha que ele pretende gracejar quando afirma ter sido ele o autor
da peripécia e aponta outro como o criminoso. E tenta sem sucesso ser preso ao
simplesmente abordar como se conhecesse uma garota que passa pela rua. Ela, no
entanto, agradece-o pelo que fez, pois estava sendo seguida por homens mal
encarados. Quando decide dar um golpe na igreja, lá tem seu momento de epifania
e de lembrança dos conselhos paternos. Disposto a mudar de vida, finalmente ele
e o amigo são reconhecidos por uma vítima de furto. Na prisão, no dia seguinte,
suicida-se.
Medina parecia bastante afeito a
narrativas que lidassem com questões morais – a exemplo de seu outro filme
sobrevivente, cujo próprio título já diz bastante, Exemplo Regenerador (1919).
Porém, não parece ser exatamente o caso em questão já que, a partir da
fonte literária que adapta, tende a subverter tal moralismo para fins cômicos
que não deixam de parcialmente lançarem um olhar que questiona, a seu modo, o
que é tido como lugar-comum social. Curiosamente
a passagem para a segunda parte do filme se dá em meio a uma ação em movimento
– a do protagonisa no restaurante. A partir desse momento se adivinha que o que
ocorreu se tornará recorrente a contradizer as intenções do herói, o que talvez
funcionasse ainda melhor no formato curta-metragem. Bem decupado,
principalmente quando corta de planos
mais abertos para mais fechados da dupla principal, o filme faz uso extenso de
filmagens em locações. Também é muito bem interpretado, com nomes, como Ferreira,
que já tinham contato com Medina há pelo menos uma década (Exemplo Regenerador) e que faz o papel do próprio pai do personagem
principal no prólogo. Involuntariamente
ou não sua história parece atestar que é justamente a boa aparência do herói
que se torna inimiga maior de seus propósitos. E, consequentemente, que ser
homem, branco e bem cuidado é passaporte potencial para todo tipo de
malfazejos, pois nada resultará de suas ações. Infelizmente seu arremate final
irá unir pontas com o início, tão piegas quanto, arrefecendo o quão anárquica
havia em sua proposta assim como, tal como no moralismo de realizadores como
DeMille, deixando evidente que a prédica moral mal encobria o prazer vicário
dos momentos que, como aqui, não acidentalmente compunham a maior parte do
filme. Seu final, torna-se abruptamente tosco nesse sentido. embora, ainda aqui uma réstia de ironia se faz, pois ele vem a ser preso por uma ação não cometida ao contrário de todas as antecedentes e justo no momento em que havia desistido de seu propósito de ir para a prisão. Funcionaria melhor, e mais atrevidadmente bem humorado, se o protagonista fosse de fato o autor do crime e pusesse o produto do roubo no bolso do amigo, "apesar de sua regeneração". Rossi
Film/Medifer. 40 minutos.

Comentários
Postar um comentário