CONTRA O GOLPE CIVIL-MIDIÁTICO-JUDICIÁRIO EM CURSO E PELO RETORNO DA DEMOCRACIA

#ELENÃO

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Filme do Dia: L'Italia con Togliatti (1964), Gianni Amico, Libero Bizzari, Giorgio Arlorio, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Lino Micchichè, Glauco Pellegrini, Elio Petri, Sergio Tau, Paolo Taviani, Vittorio Taviani, Marco Zavattini, Valerio Zurlini

Resultado de imagem para l'italia com togliatti 1964L’Italia con Togliatti (Itália, 1964). Direção: Gianni Amico, Giorgio Arlorio, Libero Bizzarri, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Lino Micchichè, Glauco Pellegrini, Elio Petri, Sergio Tau, Paolo Taviani, Vittorio Taviani, Marco Zavattini, Valerio Zurlini. Comentário: Maurizio Ferrara. Fotografia:  Mario Bernardo, Vittorio Bernini, Mario Carbone, Tonino Delli Colli, , Carlo Di Palma, Umberto Galeassi, Americo Gengarelli, Aldo Giordani, Blasco Giurato, Giovanni Mercuri, Claudio Racca, Giovanni Raffaldi, Luiz Carlos Saldanha, Franco Vitrotti, Fausto Zuccoli. Montagem: Mario Serandrei. Música: Anton Giuglio Perugini
Mesmo sendo um documentário grandemente anódino, em termos de projeção autoral, mais preocupado em registrar a chegada do corpo e  o velório e o enterro do líder comunista Palmiro Togliatti quando se aproxima de sua metade, a câmera desliza pelo gabinete do político observando seu mobiliário, uma foto de Lênin na parede, delocando-se posteriormente, de forma elegante, até a janela, de onde se emoldura os preparativos iniciais para o cortejo fúnebre. Se não chega exatamente a apresentar a postura gradativa de recusa do realismo presente na obra dos realizadores, até mesmo por se tratar de um documentário, essa sequencia mostra um vislumbre de autoria em meio ao excesso de protocolo que parece fazer do próprio filme um elemento a mais na paisagem fúnebre que inclui desde as dezenas de anônimos flagrados beijando o caixão até a rigidez férrea das delegações diplomáticas, invariavelmente de países do eixo comunista como União Soviética, Cuba, Iugoslávia, Hungria, etc., mas também do Partido Comunista francês.  É também nesse momento que na banda sonora ouvimos um discurso de Togliatti endereçado ao povo italiano pouco após ter sofrido um atentado em 1948. Trata-se, portanto, da primeira vez que somos dispensados da grave narração over (típica do documentário clássico) e também da cobertura do momento presente para se referir a um outro, fundamental na trajetória do recém-falecido líder.  Das personalidades do mundo do cinema apenas se flagra a presença circunspecta de Luchino Visconti. Comovente é a imagem das pessoas com punhos erguidos enquanto passa o cortejo. Um homem não consegue manter o gesto e usa as mãos para tapar a face em pranto. Muitos homens choram tanto no velório quanto à passagem do cortejo.  Tal como numa missa de corpo presente, aqui, ao final do cortejo, existe um ato igualmente, só que um comício reunindo boa parte das  lideranças de esquerda da Itália e do mundo (Brejnev, por exemplo), rapidamente entrevistas. Outra intervenção autoral se dá próximo ao final, quando se escuta o áudio de um discurso de Togliatti diante de um auditório vazio, logo seguido por imagens do mesmo auditório repleto. No centro, atrás da tribuna dos oradores, um quadro emoldurado com uma foto de Togliatti ao lado de Gramsci.  Ao final, imagens de arquivo apresentam Togliatti em uma homenagem feita a ele no exílio, tendo como fundo sonoro a Internacional Comunista. Quem assiste a esse média metragem jamais adivinhará a ironia e complexidade que acompanha as abordagens sobre a esquerda por parte de realizadores como, por exemplo, os Taviani. São imagens deprimentes de crianças com o mesmo uniforme aplaudindo como pequenos autômatos ao líder, figura emblematicamente embalada ao modelo do culto peculiarmente entranhado nos regimes comunistas de então.  Destaques para os poucos planos de imagens em cores que não chegam a totalizar vinte segundos. Unitelfilm. 38 minutos e 26 segundos.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Filme do Dia: Bem Perto de Buenos Aires (2014), Benjamin Naishtat


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Bem Perto de Buenos Aires (Historia del Miedo, Argentina/França/Alemanha/Uruguai/Catar, 2014). Direção e Rot. Original: Benjamin Naishtat. Fotografia: Soledad Rodríguez.  Montagem: Fernando Epstein & Andrés Quaranta. Dir. de arte: Marina Raggio. Figurinos: Jam Monti. Com: Jonathan Da Rosa, Tatiana Giménez, Mirella Pascual, Claudia Cantero, Francisco Lumerman, César Bordón, Valeria Lois, Elsa Bois. 
     Num distrito privado próximo de Buenos Aires, um grupo de pessoas se sente incomodada pelo calor excessivo e as queimadas na região. 
   Se o título entrevisto ao início pode ser tomado inadvertidamente como um segmento dentre outros, como é comum em tal tipo de cinema fragmentado, o filme se arrasta aborrecidamente, aos poucos apresentando os vínculos entre os personagens e patinando numa estética que por vezes remete ao naturalismo de Altman, por vezes a uma tentativa – ainda mais forçosa – de se aproximar talvez de um senso de estranhamento tal como os filmes de Lucrecia Martel. O resultado é um cansativo e auto-complacente exercício de fomentar possíveis expectativas para ações que esperadamente, com o tempo, o espectador já pressupõe que não se sucederão. Existe talvez a possibilidade de se compará-lo com uma corrente do cinema nacional (como em O Som ao Redor) que mescla realidade local, comentário social e elementos de cinema de gênero, embora o filme pareça demasiado armado para fluir de forma menos pretensiosa e pseudo-formalista. Rei Cine/Ecce Films/Vitakuben/Mutante Cine. 79 minutos.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Filme do Dia: Loading Sugar Cane (1901), Robert K. Bonine



Loading Sugar Cane (EUA, 1901). Fotografia:  Robert K. Bonine.
Apesar da descrição de aspectos do trabalho em uma amplitude de variações ser uma das obsessões dos cinegrafistas norte-americanos, aqui se encontrar uma rara descrição de um trabalho que não envolve uma disposição tecnológica atraente em sua modernidade como são em maior parte as retratadas na época, mesmo quando envolvem operários não especializados, como é o caso da indústria do gelo (Circular Panorama of Housing the Ice). Nesse, pelo contrário, retrata-se uma realidade de bóias-frias carregando manualmente cana, sem a presença de qualquer engenhoca mecânica que lhes facilite ao mínimo a vida. American Mutoscope & Biograph. 32 segundos.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Filme do Dia: Vôo 193 (2006), Paul Greengrass


Vôo United 93

Vôo 193 (United 193, EUA/Reino Unido/França, 2006). Direção e Rot. Original: Paul Greengrass. Fotografia: Barry Ackroyd. Música: John Powell. Montagem: Clare Douglas, Richard Pearson & Christopher Rouse. Dir. de arte: Dominic Watkins, Romek Delmata & Joanna Foley. Figurinos: Dinah Collin. Com: Christian Clemenson, Trish Gates, Polly Adams, Cheyenne Jackson, David Alan Basche, Gary Commock, Kate Jennings Grant, Lewis Alsamari, Omar Berdouni, Jamie Harding.
        Um vôo parte de Nova York com destino a San Francisco. Entre os passageiros se encontram um grupo de terroristas. Os controladores de vôo começam a perceber que ocorrem desaparecimentos seguidos de aviões. A situação fica mais aterrorizante quando se descobre que um dos aviões se chocou contra uma das torres do World Trade Center. Depois do choque do segundo avião contra a outra torre, e da queda de um avião sobre o Pentágono ocorre a tomada de poder do avião pelos terroristas. Quando os passageiros se tornam conscientes da situação e que provavelmente eles irão também serem utilizados como projétil contra mais um alvo se rebelam contra os terroristas, precipitando a queda do avião antes do alvo pretendido.
       Filme que atualiza alguns gêneros bem tradicionais do cinema tais como o filme de reconstituição de tragédias reais, pródigo nos primórdios do cinema e ainda presente na produção contemporânea (sendo o exemplo mais célebre Titanic) e de um cinema-catástrofe bastante presente na década de 1970, em produções como Inferno na Torre e todo um ciclo iniciado com Aeroporto (1970). Enquanto atualização, afasta-se do processo de identificação rasteiro criado pelo psicologismo, pela utilização de um super-elenco e dos efeitos especiais dessas produções do cinema-catástrofe. Porém, engana-se quem pensar que ao abraçar um tom menos espetacular de modo, guardadas as devidas proporções, que Clooney efetivou em seu Boa Noite,  e Boa Sorte., afasta-se do sensacionalismo. Mesmo que tenha boa parte de sua narrativa centrada no tom semi-impessoal e mesmo pseudo-documental que descreve o desenrolar dos acontecimentos pelas torres de controle, não faltam elementos que apontem no sentido oposto. Notadamente, os inúmeros planos de passageiros se despedindo de seus entes amados e a trilha sonora, além da própria tensão crescente nas torres de controle. Não existe, no entanto, qualquer catarse que se contraponha a morte anunciada e vivenciada como brusca interrupção do narrado. Porém, de que adianta, ao final de contas, a relativa sobriedade e seu realismo de forte influência documental e televisiva, presentes tanto na câmera de calculado “improviso” em seus movimentos bruscos e a construção do foco em cena, assim como uma narrativa construída próxima do tempo real, se tais elementos não servem para nada mais que a reconstrução dramática de um evento? Aqui, o filme se distancia bastante do de Clooney, pois não avança sobre qualquer recorte que transcenda ao mero evento e apresente facetas de sua inesgotável dimensão política. A seu realismo minucioso que foi buscar detalhes dos trajes utilizados por certos passageiros e fez uso de controladores reais, enfim, nada mais interessa que uma aproximação mimética dos eventos ocorridos, residindo aí, mas que na utilização de cenários e cenas de destruição grandiosas, seu apelo sensacional. Ou seja, abdica-se do modo padrão com que os filmes do início do século retratavam suas tragédias mas não da pretensão de fidelidade, que fazia com que boa parte dessa produção fosse exibida com pretensões documentais. Sidney Kimmel Ent./Studio Canal/Universal Pictures/Working Title. 111 minutos.


segunda-feira, 15 de julho de 2019

Filme do Dia: Ugokie Kori no Tatehiki (1933), Ikuo Oishi



Ugokie Kori no Tatehiki (Japão, 1933). Direção: Ikuo Oishi.
Animação japonesa visivelmente inspirada nas do Gato Félix apresenta uma raposa que se transforma em samurai enquanto pai e filho gatos travam uma disputa com a raposa/samurai. Toda a lógica da animação está centrada nas transformações que os personagens fazem de si próprios, apropriação de recurso bastante utilizado nos desenhos produzidos por Pat Sullivan. O diferencial aqui, além do contexto japonês tradicional e de música igualmente tradicional, é a morte ao final, recurso que quando utilizado na animação ocidental geralmente  possui uma conotação humorística correlata.  As exceções a confirmar a regra são as trágicas mortes de inspiração fabular tradicional dos longas da Disney posteriores. P.C.L Manga-bu. 11 minutos.

domingo, 14 de julho de 2019

Filme do Dia: Febbre di Vivere (1953), Claudio Gora

Febbre di Vivere (Itália, 1953). Direção: Claudio Gora. Rot. Original: Susu Cecchi D’Amico, Luigi Filippo D’Amico, Claudio Gora, Lamberto Santilli & Leopoldo Trieste. Fotografia: Enzo Serafin & Oberdan Troiani. Música: Valentino Bucchi. Montagem: Mariano Arditi. Dir. de arte: Saverio D’Eugenio & Saverio D’Ameglio. Cenografia: Saverio D’Ameglio. Figurinos: Maria Di Bari. Com: Massimo Serato, Marina Berti, Anna-Maria Ferrero, Marcello Mastroianni, Sandro Milani, Nyta Dover, Rubi D’Alma, Vittorio Caprioli.

      
     Massimo (Serato) é a figura central de um grupo de jovens ricos e amorais. Elena (Ferrero), sua garota, o ama apaixonadamente, mas ele não sente nenhum escrúpulo em traí-la. Daniele (Mastroianni), que foi preso após uma traição de Massimo, procura ajustar suas contas com ele, mas é manipulado por esse. Ele convence um jovem amigo, Sandro (Milani) a se fazer passar por amante de Elena. Massimo pretende que ela faça aborto. Quando todos sabem que foram enganados por ele, ocorre um ajuste de contas, porém em meio a briga, Massimo acidentalmente mata Sandro. Desesperado com a situação ele derrama bebida alcoólica sobre a boca do cadáver e o joga de cima da janela, simulando suicídio. No enterro do mesmo, Lucia o denuncia a polícia, enquanto Elena se aproxima de Daniele.
      Segundo filme do cineasta bissexto Gora, mais conhecido como intérprete de mais de 150 filmes. Mesmo que aparentemente malquisto pela crítica, o filme de Gora apresenta uma série de reflexões sobre uma burguesia inescrupulosa na mesma medida que hedonista, antecipando abordagens semelhantes, ainda que mais elaboradas realizadas posteriormente por cineastas como Fellini ou Dino Risi, nos idos da década seguinte. Seu início, tanto em termos de estética visual, ambiente dos personagens e clamor existencial parece ao mesmo tempo corroborar com os que acreditam que se trata de um período que sinaliza para o final da estética neorrealista (que chega a ser mencionada, de forma derrisiva, logo ao início) quanto uma antecipação igualmente da obra de Antonioni. Dito isso, o filme tampouco escapa de suas limitações, que se tornam crescentes com o desenvolvimento e desenlace de sua história, sendo a principal delas a forma bastante limitada como acaba, em última instância, fazendo um julgamento moral em que todos os malefícios que possam existir acabam se centralizando na figura de um personagem só, mais do que sendo expressão da classe ou grupo social de seu pertencimento. Essa versão é bem mais reduzida que uma versão alemã que possui mais de 2 horas de duração, o que talvez em parte explique a presença frequente de planos de menos de um segundo. BAC Films para Atlantis Film. 84 minutos.

Postado originalmente em 24/07/2014

sábado, 13 de julho de 2019

Filme do Dia: Ni Olvido, Ni Perdon: 1972, la Masacre de Trelew (1972), Raymundo Gleyzer




Ni Olvido Ni Perdón: 1972, la Masacre de Trelew (Argentina, 1972). Direção: Raymundo Gleyzer.
Esse corajoso, senão mesmo suicida (o próprio realizador seria posteriormente morto pela ditadura, sendo sua história narrada no documentário longo Raymundo, de 2003) documentário, apresenta imagens de televisão da rendição de um grupo de 16 membros de organizações de esquerda, incluindo peronistas, das Farc e dos Motoneros. Após suas extensas declarações à imprensa e rendição incondicional, comenta-se sobre a covarde execução de todos. Dos planos televisivos e das imagens enviesadas das ondas magnéticas da televisão se passa então para uma montagem bem dinâmica, característica de outros curtas do mesmo realizador (desde o seu Nuestras Islas Malvinas). Aqui, no entanto, faz-se intenso uso de recursos bastante simples, como fotos fixas e ruídos de fundo, para representar o processo de captura e execução do grupo. Gleyzer, a partir dos relatos dos poucos sobreviventes da chacina, ocorrida em uma penitenciária da Patagônia, não se excusa em apresentar, através igualmente de fotos fixas, seus perpetradores. Produzido no calor do momento, trata-se de um testemunho histórico que demonstra o quanto os oito anos que o separam de seu filme de estreia foram de galopante radicalização. 30 minutos.