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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Filme do Dia: Red Riding Hood (1931), Harry Bailey & John Foster




Red Riding Hood (EUA, 1931). Direção: Harry Bailey & John Foster.
Essa versão um tanto alucinada de Chapéuzinho Vermelho, no qual a garota, próxima da representação do primeiro Mickey Mouse, vai a casa da Avó e a encontra completamente revigorada por um tônico a base de jazz e saindo da sua situação de moribunda para uma lépida e fagueira dançarina e apaixonada por um priápico Lobo Mau é bastante representativa desse momento pré-Código Hays e domínio do padrão Disney de animação. O próprio estúdio que o produziu, não muito tempo após estaria realizando insípidas animações coloridas. Aqui, os traços mais primários e um senso anárquico mais próximo da primeira série do Gato Félix é que ditam o tom.  E não faltam cenas hilárias como a que a Avó se transforma de velha moribunda em jovem coquete em questão de segundos, que ela procura se desembaraçar da neta e fugir com o Lobo já vestida como noiva e a interrupção do casamento provocado pela esposa do Lobo e um enorme cortejo de filhos do mesmo, para não falar da fálica torre da Igreja. Talvez tenha sido fonte de inspiração para um realizador como Tex Avery efetivar suas incursões por igual tema também repletas de malícia na animação da década seguinte. Van Beuren Studios para RKO-Pathé Corp. 7 minutos e 9 segundos.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Filme do Dia: Quando Eu Era Vivo (2014), Marco Dutra


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Quando Eu Era Vivo (Brasil, 2014). Direção: Marco Dutra. Rot. Adaptado: Gabriel Amaral Almeida & Marco Dutra, a partir do romance A Arte de Produzir Efeito Sem Causa. Fotografia: Ivo Lopes Araújo. Música: Marco Dutra, Guilherme Garbato & Gustavo Garbato. Montagem: Bernardo Barcellos & Juliana Rojas. Dir. de arte: Luana Demange. Figurinos: Diogo Costa & Tarsila Furtado. Com: Antônio Fagundes, Marat Descartes, Sandy Leah, Gilda Nomacce, Helena Albergaria, Tuna Dwek, Rony Koren, Carlos Albergaria, Kiko Bertholini.
Desempregado e recém-separado da mulher, Júnior (Descartes) volta a morar no apartamento do pai (Fagundes), de onde tem lembranças intensas de sua infância e dos rituais que fazia com o irmão, Pedro (Libeskind), comandados pela mãe (Albergaria).  Júnior tem que dormir no sofá da sala, já que existe uma inquilina, Bruna (Leah), que ocupa seu quarto. Ele decide morar no pequeno quarto onde reencontra velhas quinquilharias dos tempos da infância e passa a mobiliar o apartamento com objetos da época e se tornar obcecado com uma partitura deixada pela mãe, que acredita se comunicar com ele através da música – interpretada por Bruna, estudante de música. O pai o leva ao reencontro com o irmão (Bertholini), internado em uma instituição psiquiátrica, que afirma sobre a necessidade desse ser morto. Ele e Bruna, sua única aliada em sua estranha missão,  participam conjuntamente de um ritual ao qual o pai também participará, mesmo que involuntariamente.
Construído com relativo domínio no reino do suspense e do estranhamento do início até pouco antes do final de sua primeira metade, o filme derrapa de forma vertiginosa quando embarca no que aparenta ser o mundo alucinado de Júnior, porém nunca se resolvendo entre uma representação realista da aparente esquizofrenia de seu protagonista ou a expressão de uma paranormalidade. O que poderia ser uma opção interessante em mãos mais talentosas, como é o caso da inescapável referência ao clássico O Bebê de Rosemary, aqui efetua um tiro no próprio pé, levando a um humor involuntário tal a aparente falta de controle sobre uma narrativa que acena, ao final, para um efetivo olhar do pai em relação ao filho – é sabido que a esquizofrenia se desenvolve sobretudo a partir de uma efetiva não comunicação e ausência de  afeto dos pais em sua relação com os filhos. Em boa parte, isso se deve aos esgares efetuados por Marat Descartes, num misto entre endemoninhado e psicótico infantilizado e como tal tratado pelo pai. Falta maior sutileza e soçobram clichês que o aproximam de um demonismo “banal”, da inversão da música cantada por Elizângela, Pertinho de Você à referências ao boneco do Fofão, personagem de um programa infantil que se chegou a criar boatos do tipo na sua época, assim como a alusão ao personagem vivido por Jack Nicholson em O Iluminado (1980), de Kubrick, por Marat. Sem esquecer a já por demais utilizada em filmes do gênero, Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach.  Dutra já havia empreendido uma incursão anterior no terror psicológico em Trabalhar Cansa (2011), com um elenco próximo. O passado é evocado visualmente seja através de imagens de vídeo da época, seja através de uma fotografia distinta, mais artificiosa e que parece traçar um paralelo com fotografias ou filmes em cores envelhecidas. E a banda sonora é bem elaborada, traduzindo um pouco da extrema sensibilidade acústica do universo psicótico. Infelizmente, no entanto,  o resultado final é  grandemente comprometido pelas pretensões que separam as intenções do pífio efeito conseguido. Camisa Treze/RT Feautures.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Filme do Dia: Pateta no Trânsito (1950), Jack Kinney







Pateta no Trânsito (Motor Mania, EUA, 1950). Direção: Jack Kinney. Rot. Original: Dick Kinney & Milt Schaffer. Música: Paul J. Smith.
Um dos mais populares curtas do estúdio com o passar dos anos, mesmo que longe de ser dos mais bem sucedidos, em grande parte deriva sua continuada atração ao fato de lidar, de forma “documental”, com o tema da violência no trânsito, servindo até hoje, sete décadas após, como peça de apoio para educação no transito e, em termos cinematográficos, pela inesquecível transformação do pacífico Sr. Andante, incapaz literalmente de pisar numa formiga, no Sr. Volante, evidentemente evocativa de O Médico e o Monstro; tal como no célebre romance, a figura burguesa assexuada e cortês se transforma numa besta-fera capaz de vociferar impropérios, atravessar por cima de poças somente para molhar pedestres e abalroar os carros quando sai do local onde se encontrava estacionado. Ainda que a transformação tenha seu apelo, pois igualmente tal como no romance de Stevenson, também se torna demarcada na própria aparência física do personagem, a situação mais hilariante é a do motorista que possui um carimbo para registrar cada uma de suas “vítimas”. Ou seja, com toda sua grossura, existe outros indivíduos tão ou mais  desprovidos de civilidade. Também digna de nota é a criativa metáfora visual que transforma o anseio de conquistar uma vaga no estacionamento por dois motoristas em um pote de ouro. Walt Disney Prod. para RKO Radio Pictures. 6 minutos e 38 segundos.

domingo, 15 de julho de 2018

Filme do Dia: O Último Mergulho (1992), João César Monteiro


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O Último Mergulho (Portugal/França, 1992). Direção e Rot. Original: João César Monteiro. Fotografia: Dominique Chapuis. Montagem: Stéphanie Mahet. Figurinos: Isabel Branco. Com: Fabienne Babe, Canto e Castro, Francesca Prandi, Rita Blanco, Dinis Neto Jorge, Catarina Lourenço, Fabienne Monteiro, Teresa Roby.
Samuel (Jorge), jovem rapaz,  desiste da ideia do suicídio quando um homem já velho, Eloi (Canto e Castro), convida-o para beber. Com uma mulher inválida, Elói leva Samuel para a noite e para o sexo com sua filha, Esperança (Babe), porém  posteriormente pratica o suicídio.
Embora aparentemente seja um filme bem mais convencional que a média do cineasta, da metade para o final tal impressão se desfaz por completo. Até por volta de sua primeira metade a narrativa segue uma decupagem relativamente convencional, em termos do encadeamento das ações, que representam a aventura dos personagens pela noite lisboeta, ao mesmo tempo que o filme oferece uma comovente generosidade do personagem mais velho para com o mais novo, longe de cair no trivial sentimentalismo. A partir de certo momento, no entanto, o cineasta volta a fazer uso de seus habituais planos-seqüência, com intermináveis momentos de dança e acaba, ao final, desinteressando-se de vez pela narrativa iniciada e adentrando na história grega de Hyperion. Tal interesse tardio – que provavelmente possui paralelos com o que a diegese esboçara anteriormente – culmina na seqüência final em tela negra (recurso que trabalharia em toda a extensão de seu filme posterior, Branca de Neve), onde Luís Miguel Cintra recita uma carta de Hyperion ao som das Variações de Goldberg, de Bach. Não há como negar que o filme é mais interessante na sua pequena crônica da vida noturna lisboeta que no desenrolar cada vez mais obscuro e próximo das narrativas godardianas, embora não faltem belos trechos também nesse segundo momento. Compõe uma tetralogia dos “quatro elementos” juntamente com O Fim do Mundo,de João Mário Grilo, No Dia dos Meus Anos, de João Botelho e Das Tripas Coração, de Joaquim Pinto, igualmente produzidos no mesmo ano. Monteiro surge numa ponta, observando Esperança, enquanto espera sua vez de usar o banheiro. Le Sépt Cinema/Madragoa Films/RTP. 85 minutos.

sábado, 14 de julho de 2018

Filme do Dia: City Hall to Harlem in 15 seconds, Via the Subway Route (1904), Edwin S. Porter



City Hall to Harlem in 15 Seconds, Via the Subway Route (EUA, 1904). Fotografia: Edwin S. Porter. 
Chama imediatamente atenção pelo título, evidente alusão às vistas que muitas vezes faziam uso dos meios de transporte para apresentar aspectos da modernidade das grandes cidades do mundo e que muitas vezes também compartilhavam longos títulos descritivos. Porém aqui se trata de uma evidente brincadeira com o gênero – do qual o próprio Porter muitas vezes contribuiu (tal como em Cannoeing  on the Charles River, Boston, Mass., do mesmo ano). Um homem entra na linha metroviária e provoca uma explosão que o leva via aérea durante os 15 segundos que faz menção o título pela linha do metrô até cair na casa de uma moradora do Harlem. Edison Manufacturing Co. 2 minutos e 31 segundos. 


sexta-feira, 13 de julho de 2018

Filme do Dia: Ryan (2004), Chris Landreth




Ryan (Canadá, 2004). Direção: Chris Landreth. Música: Fergus Marsh & Michael White. Montagem: Alan Code.
Engenhoso e tocante tributo a um dos grandes nomes da animação canadense dos anos 60 Ryan Larkin, hoje vivendo de esmolas em Montreal. Landreth conseguiu fundir nesse seu tributo não apenas a dimensão biográfica – com a presença de depoimentos de pessoas ligadas a Larkin, além do próprio – como trechos da própria obra e do auge da carreira do realizador, quando chegou a ser indicado ao Oscar de animação. Tudo isso realizado através de uma forma de animação em 2D grandemente tributária da originalidade do artista a quem retrata. Enquanto a arte de Larkin dizia respeito a sua brilhante utilização e domínio da técnica do movimento, um dos destaques da animação de Landreth é seu inventivo uso de imagens de ação ao vivo para compor seus personagens animados. Oscar de animação. Cooper Heart Ent./National Film Board of Canadá. 14 minutos.


quinta-feira, 12 de julho de 2018

Filme do Dia: Paraíso Remoto (2004), Frédéric Tremblay

Un jour ordinaire pas comme les autres Poster


Paraíso Remoto (Un Jour Ordinaire pas comme les Autres, Canadá, 2004). Direção: Frédéric Tremblay. Rot. Original: Alexis Martin & Frédéric Tremblay. Música: Dennis Larochelle. Montagem: Natacha Dufaux.
Duas crianças fazem uma viagem para uma ilha remota após o tédio mortal que segue a explosão da televisão do apartamento onde vivem. Criativa e inteligente animação em tinta sobre papel colorida por computador, no qual a aventura extraordinária vivida pelas crianças pode ser representativa da imaginação reprimida por uma programação televisiva repetitiva e inexpressiva. Ao mesmo tempo, ironicamente finalizam afirmando que não foi mais que uma tarde como as outras que dá nome ao título original. ONF. 7 minutos.