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#ELENÃO

sábado, 17 de agosto de 2019

Filme do Dia: O Homem de Papel (1976), Carlos Coimbra


O Homem de Papel : Poster
O Homem de Papel (Brasil, 1976).  Direção: Carlos Coimbra. Rot. Original: Carlos Coimbra & Ezaclir Aragão. Fotografia: Oswaldo de Oliveira. Música: Ezaclir Aragão & Beto Strada. Montagem: Carlos Coimbra. Dir. de arte: Carlos Coimbra & Flávio Phoebo. Cenografia: Pedro Rossi. Com: Milton Moraes, Vera Gimenez, Zbiegniew Ziembinski, José Lewgoy, Teresa Sodré, Ezaclir Aragão, Jece Valadão, Esdras Guimarães.
Carlos (Moraes) é um repórter policial que se vê enredado em um complô para mata-lo, desde que passou a investigar o perigoso – e poderoso -  traficante de drogas Rivoni (Ziembinski). Ele insiste na investigação e é demitido do jornal em que trabalha, sequestrado por homens a serviço de Rivoni e deixado ao lado de um cadáver. Porém, não desistirá da investigação.
Tosca produção dirigida por Coimbra, profícuo realizador de filmes destinados ao consumo popular imediato. Produção rara a ser filmada no Ceará no momento, utiliza-se de suas locações na cidade de Fortaleza como eventual isca turística, já que provavelmente parcialmente subsidiado por órgãos públicos e empresários locais. As interpretações constrangedoramente canhestras, com destaque nesse quesito para o protagonista vivido por Moraes, assim como o som de qualidade bastante reduzida, e os diálogos indigentes tornam-se um empecilho para uma pretensa ambiguidade disposta em sua sinopse, sobre a fraqueza do herói que se imagina sempre além do que de fato é. Dito isso, talvez não se torne tão dissonante assim da produção contemporânea brasileira mais efetivamente vinculada a uma lógica de cinema de gênero. Apresentando algumas firulas em termos de movimentação com a câmera e uma trilha musical (de co-autoria de Aragão, que parece ser o “autor intelectual” do projeto, tal a quantidade de cargos que acumula) que pretende suscitar o suspense, o mais comum é que desperte o humor involuntário, assim como a quantidade de locações escolhidas sem qualquer função outra que a de divulgar o que seriam pontos atrativos de uma cidade ainda bastante modesta em termos de tecido urbano, e praticamente destituída de veículos automotores – a esmagadora maioria das cenas um tanto frequentes realizadas com carros e perseguições ocorre sem qualquer concorrência efetiva de um trânsito, algo que aparentemente não se deve a interdições vinculadas à produção. Sodré vivencia a contraparte meiga da femme fatale que se pretende erigir de Gimenez. De forma um tanto desarticulada se apresenta alguns momentos de insinuação erótica, que aqui sem dúvida soam mais deslocadas que na pornochanchada, como a cena em que a personagem vivida por Sodré se encontra com Carlos em um carro e o herói se encontra visivelmente excitado.  Cinedistri/ Nortfilmes do Brasil. 98 minutos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Filme do Dia: Eleição (2005), Johnnie To



Acossado
Eleição (Hak Seh Wui, Hong Kong, 2005).Direção: Johnnie To. Rot. Original: Yau Nai-Hoi & Yip Tin-Shing. Fotografia: Cheng Siu-keng. Música: Lo Tayu. Montagem: Patrick Tam. Dir. de arte: Yu Toni. Com: Simon Yan, Tony Leung, Louis Koo, Nick Cheung, Siu-Fai Cheung, Suet Lam, Ka-Tung Lam, Tian-lin Wang, Maggie Siu.
Dois grupos rivais, liderados respectivamente por Lok (Yan) e Big D (Leung) brigam esganiçadamente pelo controle da Tríade, poderosa e centenária organização criminal de Hong Kong. Ainda que Lok, mais cerebral, tenha ganho a eleição, necessita pôr as mãos no ícone que sacraliza o poder do eleito.Big D, mais impetuoso, não se rende a derrota e a briga entre as facções rivais acaba chamando a atenção da polícia que prende todos os seus elementos importantes. Finalmente, num pretenso acerto, Big D parece ter se rendido à submissão de Lok, o que logo se demonstrará enganoso.
To é mais um dos realizadores do muito tradicional filme de ação de Hong Kong que já produziu diversos subgêneros há muitas décadas a se destacar dentro da produção em massa de filmes do gênero, por uma maior sofisticação e senso rítmico e ganhar o mercado internacional. O resultado final, no entanto, é decepcionantemente convencional em sua estrutura baseada numa narrativa ainda mais rocambolesca que a do cinema noir e calcada num infantil voyeurismo com relação às cenas chocantes de violência que apresenta. Seu evidente tributo a O Poderoso Chefão (1972), de Coppola e seus herdeiros, não chega a se concretizar de todo, pois as artimanhas dos grupos rivais para conquistarem o poder são secundarizadas diante de uma sucessão interminável de atos de violência. Talvez uma das seqüências violentas que consiga se safar à média pelo inusitado seja a final. China Star Ent./Milky Way Image Co./One Hundred Years of Film Co. 101 minutos.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Filme do Dia: A (1965), Jan Lenica




A (Al. Ocidental, 1965). Direção e Rot. Original: Jan Lenica. Fotografia: Georges Maillet & Renate Rühr. Música: Georges Delerue & Bernard Parmegiani.
Homem passa a ser constantemente atormentado pela presença constante da letra A em seu apartamento. Após tentar frustradamente se livrar por diversos meios da mesma, quando essa finalmente some e ele acorda de um longo período de inconsciência, festeja o sumiço da letra, mas logo se vê sem saber o que fazer e surge a letra B.
Partindo de uma frase de Ionesco, apresentada ao final, essa animação curta bem poderia sinalizar para as evocações do totalitarismo, como boa parte da produção do Leste Europeu da época, incluindo o próprio Lenica, mas aqui parece primordialmente focar nos próprios medos e temores humanos introjetados e paralisantes. Não saindo do ambiente claustrofóbico do apartamento de seu personagem, bastante detalhado em termos de objetos, mas trabalhado de forma plana sobre a imagem em p&b, o filme conta com apoio na sua banda sonora de um dos mestres do quesito nos filmes de ação ao vivo, Delerue. Film Boris von Borrisholm. 10 minutos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Filme do Dia: O Homem de Mármore (1977), Andrzej Wajda


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O Homem de Mármore (Czlowiek z Marmuru, Polônia, 1977). Direção: Andrzej Wajda. Rot. Original: Aleksander Scibor-Rylski. Fotografia: Edward Klosinski. Música: Andrzej Korzynski. Montagem: Halina Prugar-Ketling. Dir. de arte: Wojciech Majda & Allan Starski. Cenografia: Maira Osiecka-Kuminek. Figurinos: Lidia Rzeszewska. Com: Jerzy Radziwilowicz, Krystyna Janda, Tadeusz Lomnicki, Jacek Lomnicki, Michal Tarkowski, Piotr Cieslak, Wieslaw Wójcik, Krystyna Zachwatowicz.
A documentarista Agnieszka (Janda) se encontra disposta a realizar um filme sobre um tema nada amistoso no momento em questão: investigar a trajetória e o misterioso desaparecimento do ex-líder e figura emblemática do operariado Mateusz Birkut (Radziwilowicz), protagonista de um desafio sobre a produtividade na quantidade de tijolos e que participa de uma tentativa de recorde de assentar 28 mil tijolos em um único dia. Após a súbita fama, Mateusz passa a se desentender com as autoridades, depois do desaparecimento repentino de seu parceiro profissional. Agnieszka vai coletando essas informações a partir de gente que conviveu com Mateusz na intimidade, assim como realizadores que o filmaram e material de arquivo. Avançando em suas pesquisas, ela consegue encontrar a ex-mulher dele, mas seu produtor confisca sua câmera e o material que filmou até então.
Tal como um dos grandes sucessos da carreira do realizador (Cinzas e Diamantes, de 1958), o filme tem como matriz fundamental Cidadão Kane. Se no filme anterior essa influência se traduzia visualmente, aqui  - numa investida muito mais próxima do realismo – desloca-se para a própria estrutura narrativa, de caráter investigativo, sendo que o cinema, naquele evocado sobretudo a partir de um curta-metragem observado ao início, torna-se um eixo indispensável sobre vários aspectos. Além da protagonista ser realizadora e boa parte da história-moldura transcorrer em cenas na qual assiste ao material de arquivo, em que engenhosamente se faz um cruzamento criativo desse a partir da inflexão dada pelas imagens ficcionais (num deles, observamos o nome de Wajda como assistente de direção), o cineasta recém-premiado em Veneza que ela aborda é um evidente alter-ego auto-irônico de Wajda, que inclusive utiliza o próprio troféu e o estilo de filmagem tende a variar de uma nervosa câmera na mão que simula improvisação em relação à sede investigativa de sua protagonista, seguindo a tradição liberal também bastante demarcada pelo cinema clássico americano. E, para além do filme em si, os espelhamentos persistem, com o cancelamento de sua produção anunciado próximo ao final se refletindo na proibição do próprio filme de Wajda quando de seu lançamento. Tal proibição evidentemente se encontra vinculada ao fato que sua aproximação do universo do cinema não se dá somente enquanto celebratório do mesmo – tal como Noite Americana de Truffaut - mas observando sua imersão igualmente no universo do establishment de então, sobretudo no momento em que percebemos o direcionamento e toda a “maquiagem” envolvida na filmagem do evento que tornará Mateusz uma celebridade nacional. Ou seja, o cinema não apenas compactuou com as mentiras do regime como erigiu muitas delas, ainda que por vezes tenha colhido o reverso do esperado, como é o caso de Mateusz. Mesmo que a utilização do material de arquivo não tenha o pique da criatividade de um Inocência Desprotegida (1968), de Makavejev, também revisando os anos de chumbo do comunismo, e o filme não poupe em metragem na extensão do desenrolar de sua história, tem-se de longe um retrato mais vívido e menos empolado que filmes da fase inicial do realizador, tais como o próprio Cinzas e Diamantes e uma complexidade na interação entre sua reflexividade e a política digna de algumas das obras mais engenhosas da década, tais como O Caso Mattei (1972), de Rosi. O título se refere a estátua que é feita a partir de Mateusz, numa clara alusão a estética realista socialista e seu horror à arte moderna, observados numa interessante sequencia em um museu ao início. A referência ao filme de Welles se encontra não apenas em sua estrutura narrativa, mas mesmo em motivos comuns como a visita ao espaço institucional (aqui o museu, lá a biblioteca) ou a figura decadente da ex-mulher. Teria como continuidade O Homem de Ferro, de dois anos após. Prêmio FIPRESCI em Cannes. Film Polski Film Agency/Zespól Filmowy X. 165 minutos.


terça-feira, 13 de agosto de 2019

Filme do Dia: The Voice of the Violin (1915), Ben Turbett




The Voice of the Violin (EUA, 1915). Direção: Ben Turbett. Com: Helen Fulton, Pat O’Mailey, Robert Brower, Carlton S. King.
Violinista, Jack (O’Mailey) se encontra apaixonado pela moça a quem ensina violino, Marjorie (Fulton),  mas percebe que o irmão, Herbert (King), favrorito do pai (Brower), pediu-a em noivado. O irmão, no entanto, é um boêmio e mulherengo incorrigível. Um vendedor oferece um violino stradivarius por 7 mil dólares como oferta, pois terá que empreender uma viagem. Jack não possui o dinheiro. Logo, no entanto, ambos os irmãos são beneficiados por uma herança. Jack imediatamente compra o violino, enquanto o irmão perde o dinheiro no jogo e, quando está assaltando furtivamente o cofre da família, é flagrado por Jack, pondo a culpa neste, no que o pai prontamente acredita. Jack vai morar em Nova York. Quando a promissória de Herbert chega as mãos do pai, esse se atormenta por ter sido injusto com Jack e contrata um detetive para procura-lo sem sucesso. Marjorie convence o pai a partirem para Nova York.
O que mais chama a atenção de imediato nessa produção, além da incompreensão inicial do que de fato está acontecendo, somente estabilizada após uns dois minutos de ação, é a proximidade  dos personagens (e de suas reações!), como na tocante cena em que o violinista flagra sua aluna com o pedido de noivado do irmão. E também as facilidades com que os obstáculos do herói rapidamente se arranjam, de forma próximo da caricata -a herança que os irmãos recebem é o plano seguinte ao do violino oferecido por uma quantia alta para ele – quando a ordem soaria menos inverossímil se fosse o oposto da apresentada. Apesar do título idêntico, a produção de 1909 dirigida por Griffith, que também conta com um amor de um violinista por sua aluna, possui enredo distinto. Destaque para o momento, hoje quase risível, em que a convenção do conhecimento da injustiça praticada contra Jack assoma nas faces do pai e de Marjorie. E também para o duplo merchandising, em causa própria, da “loja musical Edison”, sem que a cartela deixe de antecipar que “embora desconhecidos”, o pai e Marjorie são convidados para uma degustação musical em Nova York que o reunirá com o filho, via um disco, produzido novamente pela firma Edison. Que pai e futura nora se comportam como se estivessem em uma mera viagem turística é curioso. E a maior surpresa de todas é que, diante do anêmico reencontro,  entre pai, filho e amada,  em termos de drama, esse último vem a ser completamente solapado ao final pela enfática apologia ao que Jack observa como sendo laboratórios, mais que uma mera fábrica, onde em  experimentações com os registros musicais já foram gastos cerca de 2 milhões de dólares, e observamos uma panorâmica do enorme complexo com vário edifícios, com direito a um breve plano do próprio Edison, que remonta aos tempos em que imagens de orientação ficcional e documental se mesclavam de forma tão pouco orgânica quanto, tais como Execution of Czolgosz with Panorama of Auburn Prison (1901), de Porter. Edison Co. para General Film Co. 20 minutos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Filme do Dia: O Herói (1966), Satyajit Ray

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O Herói (Nayak, Índia, 1966). Direção e Rot. Original: Satyajit Ray, a partir de argumento dele próprio. Fotografia: Subrata Mitra. Música: Satyajit Ray. Montagem: Dulal Dutta & Satyajit Ray. Dir. de arte: Bansi Chandragrupta. Com: Uttam Kumar, Sharmila Tagore, Bireswar Sen, Somen Bose, Nirmal Gosh, Premangshu Bose, Sumita Sanyal, Bharati Devi.
Arindam Mukherjee (Kumar) é um famoso ator de matinês que viaja para Nova Delhi para receber um prêmio. Os jornais haviam estampado seu envolvimento em uma briga e sua presença no comboio desperta a atenção de muitos. Aditi (Tagore), jornalista da província, inicia uma longa conversa com ele, com pretensões de publica-la. Arindam afirma que ela não pode revelar tudo o que ele lhe disse, pois ele teme o mercado e a reação de seus fãs. Suas reminiscências vão desdo o primeiro dia em que entrou em um set, e foi hostilizado pelo então ídolo que parece ter percebido a ameaça que ele representava, até o momento em que não concorda com seu amigo, de longa data, preso e desaparecido a meia década, em fazer um pronunciamento de solidariedade à greve que estão engajados. Quando o trem chega a seu destino, Arindam é saudado por seus entusiastas, enquanto Aditi, que havia rasgado tudo o que havia escrito a respeito de suas longas conversações, segue o seu caminho.
Distante do estilo mais lírico que o celebrizou com a Trilogia de Apu, Ray, no entanto, parece conservar o mesmo interesse pelas condições materiais de vida, voltando-se aqui para observar um universo que deve ter conhecido de perto, dos astros de cinema. Já de início se observa sua postura a não poupar nem a mesquinhez da tradição, representada pela rabugice do velho que o ator encontra no trem nem uma mendacidade generalizada, em que o dinheiro se torna a preocupação central de todos, interferindo visceralmente, inclusive, em suas relações afetivas mais próximas – Arindam transforma o próprio irmão em seu assistente. Ou surge na fala franca de Arindam de que não poderá responder honestamente as questões que lhe faz Aditi,  senão perderá o seu mercado. Derrapa ocasionalmente na ausência de sutileza, como no caso do pesadelo vivenciado pelo herói no qual dinheiro, oportunidades de trabalho e morte se confundem, ou ainda quando apresenta a polaridade entre o amigo obstinadamente engajado em sua luta social e um Arindam preocupado em manter sua carreira. Embora, por sua vez, ganhe quando abdica de fazer qualquer julgamento moral sobre qualquer uma das personagem. Também consegue se sair bem em termos da compressão temporal de sua narrativa – sendo o segundo filme a ser roteirizado pelo realizador – algo que trabalhara de forma ainda mais radicalizada em Kanchenjungha (1962). E, como é comum em narrativas temporalmente comprimidas, usa e abusa dos flashbacks, e representações oníricas, que proporcionam uma mudança de ambiente e temporalidade sem, em última instância, evadir-se do trem onde ocorre a história.  As interpretações do elenco, no geral não mais que medianas quando muito, talvez com a exceção de Kumar como protagonista, se não chegam a comprometer o filme tampouco o auxiliam, em padrões próximos do cinema brasileiro da década anterior. O cinema norte-americano surge como “a referência”,  seja no diálogo em que é contraposto positivamente ao cinema indiano, seja quando é o limite para se pensar se todos os atores são como marionetes, inclusive Brando, Bogart ou Paul Muni. Seu final, distante de qualquer sentimentalismo, consegue reproduzir de forma muito aproximada, viagens em que houve uma intimidade intensa e profunda com pessoas estranhas, sendo que posteriormente cada um segue com sua vida, algo intocado por esse momento vivido. O papel de Arindam foi escrito particularmente para Kumar, sendo que Ray desistiria do projeto caso ele não o aceitasse e, evidentemente, não deixou de tirar partido da persona cinematográfica do próprio ator, já bastante popular então no país, assim como de seu envolvimento com o álcool.   R.D.Banshal & Co. 115 minutos.

domingo, 11 de agosto de 2019

The Film Handbook#212: David Lynch

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David Lynch
Nascimento: 20/01/1946, Missoula, Montana, EUA
Carreira (como diretor): 1967-

Talvez o mais original e criativo diretor a emergir da América em anos recentes, David Lynch revela uma estranha habilidade para fazer uso de suas fantasias interiores e criar universos estranhos e sinistros, ao mesmo tempo irreais e incomumente familiares. Se o sentido preciso de seus filmes é algo menos claro, seu poder e invenção permanecem virtualmente sem equivalentes no cinema comercial norte-americano contemporâneo.

Lynch trabalhou com cinema enquanto estudava pintura em uma escola de arte, realizando loops animados de um minuto antes de filmar dois curtas nos quais animação pintada, modelagem e ação ao vivo se mesclavam com efeito original: tanto The Alphabet (uma parábola sobre os horrores da educação) quanto A Avó/The Grandmother (um retrato bizarro da infância) apresentam um senso visual grotesco e sombria engenhosidade. Porém foi com seu longa de estreia que pela primeira vez atraiu as plateias sofisticadas: Eraserhead>1, fantasia experimental de baixo orçamento filmada em um preto & branco taciturno e lúgubre, foi tanto um cinepoema autenticamente torturante, repleto de símbolos de castração, quanto uma resoluta paródia da vida familiar com um inocente infeliz abandonado pela esposa para cuidar de um bebê  mutante chorão. O mais notável de tudo foi a evocação da ameaçadora decadência urbana através de cenários (fábricas desmoronadas, salas de modelagem), sons (assobiados, gotejados, rugidos) e personagens misteriosos.

Em seu mais convencional O Homem Elefante/The Elephant Man>2, baseado na história verídica da celebrada "aberração" vitoriana John Merrick, Lynch aplicou sua visão e estilo idiossincráticos ao melodrama, concebendo sua profundamente comovente história de sofrimento e dignidade em um retrato autenticamente dickensiano de Londres onde, sob uma superfície elegante e civilizada, residia uma efervescente cidade subterrânea de arquitetura enegrecida e grotescos fanfarrões; ainda mais impressionante, a abordagem não sensacionalista de Lynch de seu fisicamente deformado mas, por outro lado, refinado herói, investigava o voyeurismo, sem nunca se tornar vítima dele. Uma versão de um romance de ficção científica cult, Duna/Dune, no entanto, foi grandemente incoerente (em parte graças à interferência do produtor); somente a extravagantemente bizarra imagética sugeria a identidade de seu realizador.

Veludo Azul/Blue Velvet>3 foi um triunfante retorno à forma, misturando o simbolismo privado de Eraserhead com um enredo que não se decidia entre um romance provinciano, cinema noir e conto de fadas. Um adolescente tímido descobre uma orelha cortada na grama do jardim e, determinado a encontrar o seu proprietário - vem a se deparar com uma relação aterrorizante e sado-masoquista entre um fora da lei psicótico e uma cantora angustiada cuja criança é dele refém. Novamente, Lynch explora um violento submundo de horror indizível, numa obscena e absurda reflexão da sociedade de moradias suburbanas que forja a inocência perdida do herói; novamente, também, símbolos freudianos (o enredo é claramente edipiano) se mesclam com um senso de "realidade" cotidiana artificial e hiper-dimensionada nessa visão de mundo tanto surpreendentemente bela quanto inefavelmente cruel. Imagens, sons, interpretações e diálogos deliberadamente ingênuos criam uma atmosfera ao mesmo tempo naturalística e unicamente cinemática; raramente, em anos recentes, alguém desenvolveu o pleno potencial das técnicas cinematográficas com tal segurança, engenho e desenfreada invenção.
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Isabella Rossellini - filha de Roberto e Ingrid Bergman - enquanto a donzela-femme fatale em perigo no extraordinário Veludo Azul, de Lynch

Ao se mover de suas origens vanguardistas para o cinema comercial, Lynch tem afortunadamente permanecido fiel a sua visão distintamente pessoal e de humor corrosivo de um mundo fraturado do que aparenta ser. Seu estilo, crucialmente, em parte surreal, em parte expressionista, não é questão de afetação, mas parecendo brotar de um modo inato de observar as coisas. O cinema, sobretudo, depende parcialmente da criação de texturas coerentes, hipnóticas e significativas - visuais como aurais - para seu efeito: uma condição que Lynch preenche com aparente facilidade.

Cronologia
Ainda que o débito de Lynch tanto com o Expressionismo alemão quanto com o surrealismo seja evidente, a sombra de diversos diretores americanos como Griffith, Browning e Corman podem ser discernidas. De seus contemporâneos, o animador tcheco Jan Svankmajer talvez se aproxime da mistura de fantasias, visuais grotescos e agudo humor negro de Lynch.

Destaques
1. Eraserhead, EUA, 1976 c/Jack Nance, Charlotte Stweart, Jeanne Bates

2. O Homem Elefante, Reino Unido, 1980 c/John Hurt, Anthony Hopkins, Freddie Jones

3. Veludo Azul, EUA, 1987 c/Kyle MachLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 180-1.


Filme do Dia: The Little Pest (1927), Jay Belasco & Scott Darling



The Little Pest (EUA, 1927). Direção: Jay Belasco & Scott Darling. Fotografia: Milton Bridenbecker. Com: Neely Edwards, Consuelo Dawn, Billy Kent Schaefer, Bud Jamison.
Casal recém-casado (Edwards e Dawn) visita sua desagradável família e convida o pequeno garoto (Schaefer) a ficar um momento com eles, mal sabendo as consequências de levar o pestinha consigo. Essa comédia curta soa menos interessante que qualquer outra produção cômica contemporânea de outras companhias rivais (Reelcraft, Educational Film, Hal Roach, etc.), mesmo deixando de lado mestres como Keaton, Lloyd ou Chaplin. E, curiosamente, quem faz a maior parte do estrago é menos o garoto que o estúpido protagonista vivido por Edwards. Universal Pictures. 9 minutos e 48 segundos.

Postado originalmente em 24/09/2014