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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Filme do Dia: Histórias de Futebol (1997), Andrés Wood


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Histórias de Futebol (Historias de Futbol, Chile, 1997). Direção: Andrés Wood. Rot. Adaptado: René Arcos & Andrés Wood, a partir dos contos de Mario de Benedetti (Puntero Izquerdo) & Raul Pérez Torres (Cuando me Gustava el Futbal). Rot. Original: René Arcos & Andrés Wood (Pasión de Multitudes). Fotografia: Igor Jadue-Lillo. Música: Miguel Miranda & José Miguel Tobar. Montagem: Andrea Chignoli. Dir. de arte: Yanko Rosenman. Com: Fernando Gallardo, Pablo Striano, Nora Escobar, Daniel Muñoz, Manuel Aravena, Hugo Tramón, Héctor Avendaño, Luis Alberto Vitte, Luis Alejandro Alvial, Fernando Antonio Bertoglio, Néstor Cantillana, María Izquierdo, Elsa Poblete, Boris Quercia.
No Le Crea. Promissor craque de futebol, Carlito (Muñoz), desobedece um cartola que lhe havia adiantado dinheiro para não fazer gol em sua próxima partida e sofre as consequências do ato. Ultimo Gol Gana. Grupo de garotos tenta entrar em estádio de futebol para assistir a partida sem ingresso, mas são rechaçados pela segurança. Nos arredores, ficam com uma das bolas que é arremessada para fora do estádio. A bola se torna um troféu e quem consegue o maior arroto ficará dono dela. O garoto que se torna dono dela, no entanto, vive numa família em dificuldades, que penhora o último objeto de valor. O garoto que penhorou o quadro, perde o dinheiro jogando bola e tem que sacrificar a bola, vendendo-a. Pasión de Multitudes. Jovem de Santiago se vê preso em uma ilha na qual a única casa com receptor de tv é a de duas filhas solteironas que disputam para ficar com ele, enquanto o jovem – e alguns homens conhecidos das duas – se encontram vidrados no jogo Chile x Alemanha durante a Copa.
Sofrível em sua banalidade, é  o longa de estreia de Wood que já possui alguma pretensão de reflexão sobre a nação – como seu posterior e mais bem sucedido Machuca. Aqui as histórias se desenvolvem em três regiões distintas do país. A primeira em Santiago, no centro, a segunda em Calama ao norte e a última na ilha de Chiloé. Mesmo que individualmente não sejam curtas destituídos de algum valor, sua reunião aparentemente foi menos encorajadora que o oposto, fazendo ressaltar seus deméritos, associados a um fraco ritmo, interpretações medianas e abundância de clichês e saídas fáceis (ou mesmo piegas como é o caso do segundo episódio). Pouco reflexivo com relação ao naturalismo dramático que aborda, termina por igualmente reforçar estigmas sociais, seja em momentos dramáticos ou através de um pretenso humor, que não funciona. Como em uma partida de futebol ou mesa de bar soçobram tiradas ou situações misóginas, sendo a mulher mero objeto sexual no primeiro curta, objeto que impõe status dentro do grupo de meninos – ainda que involuntário, pois a garota que acreditam ser de um personagens, continua sendo mesmo que não exista nada de efetivo entre eles – e desesperada por um homem, como se somente após a partida da figura masculina representada pelo pai, houvesse possibilidade de vivenciar plenamente sua sexualidade no terceiro. Paraiso Prod./Roos Films. 97 minutos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Filme do Dia: O Silêncio do Mar (1949), Jean-Pierre Melville




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O Silêncio do Mar (Le Silence de la Mer, França, 1949). Direção: Jean-Pierre Melville. Rot. Adaptado: Jean-Pierre Melville, a partir do conte de Vercors. Fotografia: Henri Decaë. Música: Edgar Bischoff. Montagem: Henri Decaë & Jean-Pierre Melville. Com: Howard Vernon, Nicole Stéphane, Jean-Marie Robain, Ami Aaröe, Georges Patrix, Denis Sadier, Rudelle, Max Fromm.
1941. Numa pequena vila francesa, à época da dominação alemã, um oficial desse país, o Tenente Werner (Vernon), recusa o castelo que lhe foi oferecido, e prefere ocupar um cômodo na casa de um senhor de meia-idade (Robain), que divide a morada com sua jovem e bela sobrinha (Stéphane). Tio e sobrinha decidem ignorar Werner, que desfia longos monólogos sem que nenhum dos dois reaja verbalmente. Amante da cultura francesa, Werner se sente em desvantagem quando o grupo de oficiais alemães afirma que a dominação sobre a França se dará igualmente pela cultura, não mais permitindo obras literárias de autores franceses. Quando chega sua hora de partir, Werner se despede à véspera. Na manhã de sua partida, há um trecho de Anatole France selecionado pelo dono da casa que faz referência a necessária desobediência de ordens criminosas. Werner reflete por um momento, mas segue adiante.
Esse longa de estreia de Melville se trata de uma adaptação primorosamente pouco ortodoxa em termos de um enfrentamento com o texto escrito talvez mais próximo do universo de Bresson (Diário de um Pároco de Aldeia lhe é praticamente contemporâneo) que das banais ilustrações cinematográficas da literatura que eram a tônica dominante do cinema francês do período. Sua recusa do drama convencional se dá pelo voltar-se contra o uso do recurso fácil dos diálogos. Os três maiores dínamos expressivos do filme são os monólogos de Werner, a narração over do tio e, em menor intensidade, a própria decupagem, com os raros primeiros planos da sobrinha traduzindo sua inquietação com a partida de Werner. A voz over, aliás, traz uma tônica mais de crônica do cotidiano que possibilita respiros para os monólogos desabusadamente literários. Se o tratamento do oficial alemão nazista, numa época em que relativamente poucas ficções sequer ousavam se deter sobre traumas tão recentes é grandemente incomum em sua complexidade, o filme tampouco se dobra a concessões sentimentais, ao contrastar o discurso de Werner com sua decisão final, desfazendo qualquer idealismo apressado tão a gosto de um cinema que abordou temas similares por um viés de longe mais convencional (Um Canto de Esperança, A Lista de Schindler para se citar apenas dois exemplos). Ou seja, há uma alma de apreciador do humanismo, que é apaixonado pela literatura e pelo pensamento francês, assim como da música alemã, executando inclusive uma tocata de Bach, mas essa não obnubila motivações práticas e o seu lugar dentro de uma instituição, a militar, em um momento histórico muito preciso. Cultura e barbárie andam juntas com Werner, numa quase exemplificação de que não são necessariamente contraditórias – o oficial alemão chega a comentar sobre o quão etérea, desumana e impessoal é a música de Bach, em uma das melhores ocasiões para se perceber que estamos longe do lugar-comum e até mesmo da apropriação predominante que grandes nomes do cinema fizeram de temas do compositor (a exemplo de Tarkovski). Se a ausência de diálogos e quase inexistência de situações dramáticas ressaltam e agudizam o pequeno movimento nessa direção ao final, a modéstia de sua produção faz o uso de uma iluminação limitada, comandada pela estreia igualmente do longevo fotógrafo Decaë, e uso de locações que, juntamente com a recusa dos apelos dramáticos convencionais, fascinaria os futuros realizadores da Nouvelle Vague (Godard, por exemplo, em seu filme de estreia, Acossado, chama Melville para uma ponta). Se o silêncio pode ser observado numa dimensão tanto literal quanto alegórica, a ausência de nomes aos personagens de tio e sobrinha talvez sejam um reforço desnecessário ao alegórico. Melville Prod. para Pierre Braumberger. 87 minutos.

domingo, 16 de setembro de 2018

The Film Handbook#175: Albert Lewin

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Albert Lewin
Nascimento: 23/09/1894, Nova York, EUA
Morte: 05/04/1968, Nova York, EUA
Carreira (como diretor): 1942-1956

Na época em que foram realizados, os filmes de Albert Lewin foram amplamente desconsiderados enquanto produtos de um pretensioso diletante cultural dado a adaptações literárias verborrágicas e vulgares. Com o passar dos anos, no entanto, passou a ser considerado (ao menos em uns poucos círculos críticos) como um notável realizador moderno, cujo amor pelas palavras de modo algum impedia o potencial cinematográfico de sua obra.

Ex-estudante e professor de inglês, Lewin se tornou pela primeira vez destacado em Hollywood ao final dos anos 20 e anos 30 enquanto chefe do departamento de roteiros e, posteriormente, produtor na MGM de Irving Thalberg; dentre as mais notáveis de suas produções se encontram O Beijo/The Kiss, de Jacques Feyder (com Garbo), O Grande Motim/Mutiny on the Bounty e (para a Paramount) Zazá/Zaza de Cukor. Em 1942 dirigiria seu primeiro filme, uma sensível, verbalmente engenhosa e imaculada interpretação de Um Gosto e Seis Vinténs/The Moon and Sixpence, de Somerset Maugham. George Sanders, admiravelmente destituído de sentimentalismo, interpreta um artista como Gaughin, cuja obsessão egóica com a pintura o leva a abandonar a família e seu emprego de clérigo para trabalhar em Paris e nos Mares do Sul. Do cinismo articulado e amoral de Sanders foi feito ainda melhor uso no conto de admoestação faustiana de Wilde, O Retrato de Dorian Gray/The Picture of Dorian Gray>1. Enquanto o profuso proferidor de provérbios Lorde Henry Wotton, servindo para despistar e se tornar o mentor do meigo Hurd Hatfield e do maleável Dorian, cuja alma é pervertida e corrompida por um desejo de eterna juventude e beleza. Os sofisticados e densamente alusivos diálogos de Lewin são saboreados do início ao final, ainda que as qualidades visuais do filme nunca sejam negligenciadas: tanto a desordenada elegância fin-de-siècle de Mayfair quanto o mundo mortiço e decadente de Blue Gate Fields, visitados por Dorian em busca de depravação, são descritos em detalhes autênticos e atmosféricos, enquanto as inserções em Technicolor da pintura que reflete a degradação de seu eu interior são apropriadamente hediondas.

Igualmente inteligente, uma versão de The Private Affairs of Bel-Ami>2 de Maupassant, ofuscou a fonte original na sua compreensão sutil e generosa das emoções de um ambicioso e jovem jornalista, cujo alpinismo social é facilitado por um desprezo pelas amantes e amigos. Pandora/Pandora and the Flying Dutchman>3 foi semelhantemente literário e alusivo, apesar de numa veia mais auto-conscientemente mítica: numa vila costeira espanhola nos anos 30, uma cantora expatriada americana - como seu homônimo grego, para o efeito letal que aparenta exercer sobre seus admiradores - se apaixona por um misterioso proprietário de um iate, que vem a ser um fantasma condenado a eterna miséria até encontrar uma mulher que sacrifique sua vida por ele. De lógica absurda, o filme se beneficia de uma teia de referências literárias e de lendas, interpretações vigorosas e imagens virtualmente surreais em Technicolor, que emprestam a sua narrativa de amour fou tanto pungência emocional quanto um tempestuoso e exuberante romantismo. Porém o enredo pouco comum e os diálogos elevados se provaram pouco atraentes para o público e pelos próximos sete anos, o diretor-roteirista realizaria somente mais dois filmes - Saadia, no qual um jovem médico europeu no Saara cai presa da superstição local e O Ídolo Vivo/The Living Idol, sobre uma garota mexicana que se acredita possuída pelo espírito de um jaguar milenar. Desde então, seguindo recomendações médicas, Lewin se aposentou da direção.

Em retrospecto, a amplamente depreciada pretensão artística de Lewin parece ser uma marca de um diretor  sempre audacioso, incomumente literário e independente. Não foi sua personalidade totalmente subserviente aos autores cujas obras se voltou: as adaptações de Maugham, Wilde e Maupassant também revelam seu próprio interesse em personagens obcecados e destruídos por um sonho idealista de conquistar uma vida melhor para si próprios. Os elaborados padrões visual e verbal e as alusões das melhores obras de Lewin podem ser apreciados como suas tentativas idealistas de proporcionar uma alternativa complexa e sutil à diversão primária ou mediana oferecida por Hollywood.

Cronologia

O próprio Lewin citou O Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene como tendo lhe inspirado a entrar no cinema; Thalberg, também, foi claramente uma influência. Em alguma medida, ele pode ser comparado com Cukor, ainda que seu gosto pelo refinamento verbal talvez o coloque mais próximo dos gostos de Mankiewicz, Rohmer ou mesmo Greenaway.

Leituras Futuras

The Unaltered Cat (Nova York, 1967) de Lewin é um romance. Existe pouca coisa substancial escrita sobre sua obra.

Destaques
1. O Retrato de Dorian Gray, EUA, 1945 c/ Hurd Hatfield, George Sanders, Angela Lansbury

2. The Private Affairs of Bel Ami, EUA, 1947 c/George Sanders, Angela Lansbury, Ann Dvorak

3. Pandora, Reino Unido, 1951 c/ Ava Gardner, James Mason, Nigel Patrick

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 169-70.

Filme do Dia: Cidade Baixa (2005), Sérgio Machado


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Cidade Baixa (Brasil, 2005). Direção: Sérgio Machado. Rot. Original: Sérgio Machado & Karim Ainouz. Fotografia: Toca Seabra. Música: Carlinhos Brown & Beto Villares. Montagem: Isabella Monteiro. Dir. de arte: Marcos Pedroso. Com: Wagner Moura, Alice Braga, Lázaro Ramos, José Dumont, Harildo Deda, João Miguel, Débora Santiago, Maria Menezes.
Amigos fraternais desde a infância quando praticavam pequenos furtos na zona portuária de prostituição em Salvador, Deco (Ramos) e Naldinho (Moura) vêem a mesma ameaçada com o surgimento da prostituta Karinna (Braga), por quem ambos se apaixonam.
Instigante representação sobre o lumpém-proletariado, atualizando o naturalismo com que produções do início da década de 1960 já o haviam retratado igualmente em Salvador como em A Grande Feira (1961), em sua pujante direção de atores e representação da atmosfera em que os personagens trafegam. Porém aqui distante de uma tentativa de crítica social e mais próximo de um adensamento psicológico dos personagens retratados, que procuram ser construídos evitando o caricato ou a tipificação (adensamento que certamente muito se deve a co-roteirização de Ainouz e Machado, que haviam demonstrado um processo parecido e ainda mais bem sucedido numa realidade semelhantemente marginal em seu Madame Satã). O resultado final é uma tentativa relativamente bem sucedida de democratização de um certa uma certa construção dramática eminentemente burguesa – o triângulo amoroso, densidade psicológica, a leitura  sério-dramática – para um ambiente bem menos favorecido, algo poucas vezes bem trabalhado pelo cinema brasileiro, afastando-se por essa perspectiva de uma visão dramatúrgica somente crua e que se posiciona acima de seus personagens, como em Amarelo Manga. Seu naturalismo se beneficia do corte rápido e de um trabalho de câmera nervoso certamente influenciados em algum nível por Cidade de Deus. E soa ao mesmo tempo mais convencional e menos pretensioso que o de seu contemporâneo Cinema, Aspirinas e Urubus. VideoFilmes/Videofilmes Prod. Artísticas. 93 minutos

sábado, 15 de setembro de 2018

Filme do Dia: Historia Naturae, Suita (1967), Jan Svankmajer




Historia Naturae, Suita (Tchecoslováquia, 1967). Direção e Rot. Original: Jan Svankmajer.
Curta experimental em stop motion, no qual o cultuado realizador Svankmajer apresenta uma espécie de história natural em linha evolutiva, a partir de desenhos, fotografias, animais empalhados e esqueletos das espécies. Dividido em 8 segmentos, cada uma deles apresentando uma espécie e também uma peça musical de gênero igualmente diferenciado intercaladas pelo nome do segmento (o do gênero animal/musical) e uma imagem de um homem mastigando e engolindo algo (aparentemente o mesmo plano). Parece ser a realização radical daquilo que Greenaway operará em termos mais “convencionais”, a exploração de sistemas classificatórios. Mesmo sendo provavelmente exaustivo para quem é acostumado com formas mais convencionais de animação, ganha maior possibilidade de conquistar o espectador a medida que avança, ao contrário do que se poderia imaginar. Os gêneros musicais são o foxtrote, o bolero, o blues, a tarantela, o tango, o minueto, a valsa e a polca. 8 minutos e 37 segundos.


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Filme do Dia: Bebel, Garota Propaganda (1968), Maurice Capovila


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Bebel, Garota Propaganda (Brasil, 1968). Direção: Maurice Capovilla. Rot. Adaptado: Maurice Capovilla, Afonso Carlos Coaracy & Roberto Santos, baseado no romance Bebel, Que a Cidade Comeu, de Ignácio de Loyola Brandão. Fotografia: Waldemar Lima. Música: Carlos Imperial. Montagem: Sylvio Reinoldi. Cenografia: Juarez Magno. Com: Rossana Ghessa, John Herbert, Paulo José, Geraldo Del Rey, Joana Fomm, Fernando Peixoto, Maurício do Valle, Washigton Fernandes, Adonis de Barros, Fernando de Barros.
             Bebel (Ghessa) é uma aspirante a modelo suburbuna que subitamente é guindada ao estrelato com uma campanha nacional do sabonete Love realizada por um ambicioso publicitário, Marcos (Herbert). Porém, logo a empresa, saturada com o rosto de Bebel, deixa-a de lado e não a chama para outros projetos. Inicia-se, então, para Bebel, uma longa via crucis em que inevitavelmente se envolve com tipos inescrupolosos (José, do Valle), que apenas pretendem, de uma forma ou de outra, explorá-la sexualmente. O único que parece demonstrar algum interesse sincero por Bebel, Marcelo (Del Rey), estudante de arquitetura e clandestino foragido do regime militar, abandona-a por não conseguir convencê-la a deixar uma vida que ele acredita ser alienada. Em um período de crescente aperto financeiro, Bebel volta para encontrar com sua mãe e irmã (Fomm), mas é praticamente escorraçada da casa pela irmã. Para ganhar algum dinheiro, torna-se o objeto da rifa promovida por Valle.
           Embora prejudicado por um esquematismo um tanto quanto óbvio da utilização cruel e descartável das pessoas pelo sistema capitalista, explicitado no campo da publicidade, o filme consegue transcender muitas vezes tais limitações e se impor como um tocante retrato de uma jovem e sua busca pela sobrevivência. Dispensável e não de todo bem resolvido é a inserção de um pretenso documentário que está sendo realizado com a personagem-título, motivo para que o cineasta reforçe sua visão de mundo sobre o caso, por si só já explicitado além da conta pela narrativa, tornando-se redundante. Trabalhando com semelhante material, Roberto Santos, que provavelmente teve papel influente nessa produção sendo, inclusive, co-roteirista, realizou algo ainda melhor, com seu episódio de As Cariocas. Alpha Filmes/ C.P.S Produções Cinematográficas/Saga Filmes. 103 minutos.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Filme do Dia: Encarnação do Demônio (2008), José Mojica Marins


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Encarnação do Demônio (Brasil, 2008). Direção: José Mojica Marins. Rot.Original: José Mojica Marins & Dennison Ramalho. Fotografia: José Roberto Eliezer. Música: André Abujamra & Márcio Nigro. Dir. de arte: Cássio Amarante. Com: José Mojica Marins, Rui Resende, Jece Valadão,  Helena Ignez, Cristina Aché, Cleo de Paris, José Celso Martinez Correia, Eduardo Chagas, Rubens Mello, Nara Sakarê.
Zé do Caixão (Marins) após 30 anos preso sai e começa a praticar uma série de crimes contra mulheres, a busca de encontrar a mulher ideal que lhe gerará o filho perfeito. Passa então a ser perseguido por um fanático religioso, que teve o pai morto por ele, pelo Coronel Claudiomiro (Valadão) e por um policial (Stuart) que acaba por matá-lo. Porém, mesmo morto, sua descendência prossegue nas inúmeras mulheres que emprenhou.
Já tendo dirigido filme de idêntico título em 1981, Marins volta ao  personagem que o celebrizou agora apoiado em um esquema de produção mais apurado e com direito a distribuição por parte de uma grande companhia. Soçobram cenas escatológicas, muitas delas bastante bem produzidas, assim como um roteiro confuso que mescla um herói-vilão protagonista que abraça um eugenismo idealizado que nunca alcança – e enquanto isso vai destroçando todas as mulheres em busca desse ideal – e ao mesmo tempo possui laivos de humanismo progressista, salvando crianças de serem massacradas ou defendendo uma comunidade ameaçada entre a cruz e a espada, ou seja, traficantes e a polícia. O fato das cenas ganharem um padrão de produção bem mais acentuado que as mais artesenais não significa que esteticamente são dignas das obras referenciais do realizador, que aqui voltam em cenas que evocam o passado do mesmo (não por acaso os dois filmes que possuem mais material utilizado são justamente os mais reconhecidos da carreira do realizador, À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver (1967). Pretende adicionar referências filosóficas e literárias – como passagens de Dante – que soam um tanto deslocadamente pretensiosas, mesmo que em uns poucos momentos o filme realmente encontre algum achado visual digno de nota e além do habitual coquetel de viscosidades e carnes e peles repuxadas, acrescentando a receita a inclusão de elementos de cinematografias mais recentes tais como os olhos sombrios, evocativos de certa produção japonesa tal como O Grito e sua versão americanizada. Os raros momentos de verdadeira inspiração, em termos de imagem, ficam menos por conta de qualquer trucagem mais elaborada, do que pelo simples efeito visual que provoca uma breve ilusão de que os olhos ou a pele se movem por sobreposição de imagens. Ou ainda o ambiente do inferno que o protagonista se vê enredado em uma de suas alucinações. Na referida sequencia,   José Celso reencarna mais uma vez o papel de guru místico, no caso aqui o Anti-Cristo, que já havia vivido em  Árido Movie, e nada além da sua própria persona artística. Dedicado a Rogério Sganzerla e Jairo Ferreira, o filme possui várias deferências ao primeiro que incluem desde a incorporação no elenco de sua diva, Helena Ignez, como a referência aos trinta anos de prisão seguidos de morte trágica, semelhantes ao do assassino que inspirou Sganzerla em seu O Bandido da Luz Vermelha. Gullane Filmes/Olhos de Cão Prod. Cinematográficas para 20th Century Fox Brasil. 94 minutos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Filme do Dia: Os Inocentes (1961), Jack Clayton


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Os Inocentes (The Innocents, Reino Unido, 1961). Direção: Jack Clayton. Rot. Adaptado: John Mortimer, William Archibald & Truman Capote. Fotografia: Freddie Francis. Música: Georges Auric. Montagem: Jim Clark. Dir. de arte: Wilfred Shingleton. Figurinos: Motley. Com: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Meg Jenkins, Michael Redgrave, Martin Stephens, Pámela Franklin, Clytie Jessop, Isla Cameron.
A Srta. Giddens (Kerr) é contratada por um tio (Redgrave) para ser governanta em uma mansão onde vivem duas crianças órfãs, com a promessa de não mais procurá-lo sob qualquer hipótese. Ela se encanta inicialmente com as crianças, Miles (Stephens) e Flora (Franklin), porém logo acredita que o lugar é assombrado pelas almas de um casal de amantes já morto, Peter Quint (Wyngarde) e a Srta. Jessel (Jessop), que acredita dominar os espíritos das crianças.
Essa produção se tornou célebre por sua atmosférica e sombria adaptação de James, já pressentida no canto infantil que se escuta antes mesmos dos créditos, antecipando a união entre o universo do horror e o mundo infantil através igualmente de uma canção semelhante em O Bebê de Rosemary (1968), de Polanski. O efeito assustador que o filme pretende provocar diz respeito, antes de mais nada, a essa associação entre infância e perversidade – ainda que aqui uma perversidade provocada pelo além, mais do que pertencente às próprias crianças. A relativa parcimônia com que todos os eventos misteriosos se sucedem, balizada pelo belo trabalho de câmera e límpida fotografia em preto&branco são um dos trunfos do filme, ainda que muitos de seus efeitos (tais como as risadas que se escutam em vários momentos) tenham se tornado por demais clichês para soarem interessantes. A interpretação de Kerr vem se somar a tudo isso. Seu tom fabular e uma certa aderência ao universo infantil, ainda que aqui tudo seja mais observado pelo ponto de vista do olhar adulto, sugerem uma comparação com o igualmente atmosférico O Mensageiro do Diabo (1955), de Laughton. Aqui, deve-se destacar uma tensão grandemente erótica entre Giddens e o pequeno Miles – ele a beija na boca a certo momento, ficando seu rosto manchado de batom num dos episódios mais expressivos do filme, mas ela é que o beija ao final. Achilles/20th Century-Fox Film. Co. 100 minutos.