CONTRA O GOLPE CIVIL-MIDIÁTICO-JUDICIÁRIO EM CURSO E PELO RETORNO DA DEMOCRACIA

#ELENÃO

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Filme do Dia: The Farm (1938), Humphrey Jennings


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The Farm (Reino Unido, 1938). Direção: Humphrey Jennings.
Documentário curto filmado no raro processo em cores Dufaycolor, apresentando o cotidiano bucólico de uma fazenda. Logo de início o narrador afirma se tratar de uma propriedade em Wessex na primavera. O filme se apresenta, igualmente, através de outro comentário do narrador, como uma espécie de alternativa aos que não podem seguir a recomendação de um poeta de observar uma fazenda todos os dias para ter paz de espírito. Nos primeiros minutos, após uma imagem do gado, prefere seguir as ovelhas, animais de potencial maior de carisma e movimento. A seguir vem os porcos, com uma imagem de uma ninhada grande de porquinhos mamando nas generosas tetas de uma porca bem nutrida. Quando a imagem da porca movendo a cabeça pode sinalizar algo não muito de acordo ao que o narrador afirma sobre ela estar vivenciando com prazer a operação, a imagem corta para o tópico seguinte, o gado. Após uma breve aproximação dos cavalos de raça, a colheita de trigo é o tema seguinte (e que se tornará chave no documentário  quase gêmeo desse, English Harvest, produzido a partir do mesmo material, mas com imagens algo distintas e uma trilha sonora diferenciada). Os rumores da guerra não possuem abrigo aqui, frisa o narrador, ainda que somente o fato do narrador acentuá-lo demonstra o estado de tensão da época. As imagens iniciais de English Harvest são aqui utilizada como prólogo do segmento que afirma sobre a passagem de seis meses e a chegada do verão. É sobretudo esse segmento que mais compartilha imagens com o outro documentário contemporâneo. A imagem final com uma parelha de cavalos arando o campo e sendo ritmada por seu condutor, seguida por um cavalo solitário em situação similar e guiado por um segundo homem é a mesma do outro documentário, embora o comentário over seja distinto. Posicionando-os em relação a vastidão da planície em profundidade, há um que de melancólico que a música algo triunfante pretende esconder e que remete, igualmente, ao final de um dos curtas mais célebres de Griffith na Biograph, O Monopólio do Trigo. Dufay-Chromex. 13 minutos.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Filme do Dia: Rua São Bento 405 (1976), Ugo Giorgetti






Panorama do Edifício Martinelli em vias da desocupação por conta de um pedido de reapropriação do prédio pela prefeitura. O curta apresenta quase ao início fotos da construção de um prédio que se tornaria o maior arranha-céu da América Latina de sua época, final dos anos 20, mas que curiosamente não havia sido intencionalmente planejado para sê-lo, ocorrendo sua elevação a partir da ideia de seu dono Giuseppe Martinelli. Ao fim da Segunda Guerra, o prédio seria confiscado pelo governo brasileiro sob alegação de que o principal capital dele era italiano, inimigo da guerra do Brasil. Inicia um período em que o prédio passa por um decadência visível, que atingiu seu auge no momento em que esse curta foi realizado, no qual um dos depoentes afirma que sonhado como o maior prédio latino-americano, havia se transformado em seu maior cortiço. Giorgetti passeia por seus corredores, entrevista moradores e trabalhadores de firmas – um desses últimos afirma que apenas deviam sair os moradores, não as firmas e que apesar dos funcionários gostarem, não havia empregadas mulheres, pelo temor da falta de segurança do prédio. Existindo de tudo um pouco, de loja de aprendizes de relojoaria a estúdio cinematográfico, cuja produção se encontra interrompida por falta de verbas . O filme, por vezes, parece acentuar ainda mais a relação de poder imposta por uma câmera diante de vários de seus humildes entrevistados. Algumas vezes no próprio processo de contato direto com seus moradores, como quando é indagado de uma moradora se ela paga aluguel e essa responde cabisbaixa que não ou quando flerta com uma veia voyeurística cômica ao apresentar o sonho do ascensorista de ser um galã de filmes de cowboy, apresentando-o vestido em trajes a rigor, quando a dose de perversão se estende sobretudo ao comentário over, afirmando que ele levará menos que os sonhos quando for, dada a quase inexistência de objetos pessoais do mesmo. O mesmo se pode dizer de um dos dois bares que existe, do qual saíram fregueses e proprietários certamente quando souberam da chegada da produção. E talvez para culminar todas as idiossincrasias observadas, existe o senhor que mora em um amplo espaço e que, acostumado com a vida numa fazenda, resolveu soltar seus pássaros no ambiente de morada, para trazer um pouco da natureza para a cidade, sendo essas últimas palavras duplicadas em tom de ironia pelo narrador. Enquanto ele fala, observamos o vôo frenético dos pássaros sobre as cabeças de todos. Giorgetti voltaria ao tema do edifício ocupado por moradors de baixo poder aquisitivo em seu universo ficcional. Espiral Cinema Educação e Audiovisual/Villa Cinema e Som. 22 minutos.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Filme do Dia: O Ratinho Folgado (1947), William Hanna & Joseph Barbera



ORatinho Folgado (A Mouse in the House, EUA, 1947). Direção: William Hanna & Joseph Barbera. Música: Scott Bradley.
A criada dá um ultimato aos dois gatos folgados da casa para que capturem o rato que anda fazendo estragos por todo o lugar. A partir daí Tom e seu rival disputam palmo a palmo a sobrevivência na casa, que acaba permanecendo com nenhum dos dois – que atacam inadvertidamente a criada pensando ser, como das outras vezes, eles próprios disfarçados – e, tampouco, com Jerry. No auge de seus talentos, Hannah & Barbera apresentam o universo bastante peculiar da dupla de personagens, praticamente inigualável em termos de caracterização com todo o requinte de seus traços, cores e movimento, assim como a habitual violência. A cena final, com Jerry procurando sair vitorioso e tendo o mesmo destino dos dois gatos, por si só já é digna de todo o curta.  MGM. 8 minutos e 4 segundos

domingo, 19 de maio de 2019

The Film Handbook#205: Robert Hamer

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Robert Hamer
Nascimento: 31/03/1911, Kidderminster, Inglaterra
Morte: 04/12/1963, Londres, Inglaterra
Carreira (como diretor): 1945-1960

De forma breve, Robert Hamer introduziu sofisticação psicológica e pessimismo sombrio aos grandemente animados retratos da vida britânica produzidos pelos Estúdios Ealing de Michael Balcon. Infelizmente, no entanto, o crescente alcoolismo teria um efeito deletério  em sua obra posterior.

Veterano montador e roteirista, a estréia na direção de Hamer foi com o impressionante episódio Haunted Mirror no filme coletivo de horror da Ealing Na Solidão da Noite/Dead of Night; de forma interessante, essa perturbadora história de um jovem complacente casal cuja aquisição de um antigo espelho fomenta invejas sexuais assassinas, antecipa os temas de sua melhor obra. Pinky String and Sealing Wax>1, no qual um jovem se rende ao desejo adúltero e se torna envolvido em um assassinato, após entrar em um bar indo contra as ordens estritas do pai, é um retrato vivo dos efeitos traumáticos do patriarcado repressivo e do conformismo obsessivo. Beneficiou-se de uma apresentação elegante e não sentimental de uma Brighton vitoriana e por soberbas interpretações, principalmente de Googie Whiters como a garçonete entediada e voluptuosa que explora o rapaz de quem conseguirá o veneno para assassinar o marido. Ela estrelaria novamente em It Always Rains On Sunday>2 um tenso suspense contemporâneo ambientado em um East End londrino autenticamente evocado, como uma dona de casa em sua vida rotineira e vazia sob a forma de um ex-amante - um condenado fugitivo que a persuade a esconde-lo no quarto enquanto a família dela espera, como sempre, pelo almoço dominical. Uma vez mais a ameaça ao status quo é sexual, mas a simpatia por Whiters em cada filme sugere o ódio de Hamer pela supressão da paixão que a disciplina conformista da vida familiar pode implicar.

A classe social, também, foi  observada como uma força repressora, em nenhum lugar mais que em As Oito Vítimas/Kind Hearts and Coronets>3, uma obra-prima wildeana de engenhoso humor negro. Novamente o tema é subversor: determinado a vingar os insultos sofridos por sua mãe após essa fugir com um humilde italiano, um jovem camiseiro decide reivindicar o ducado que lhe é de direito, assassinando a família D'Ascoyne por completo (todos os oito membros interpretados por Alec Guiness). A visão da Inglaterra enquanto o abrigo do esnobismo e da tradição empodera a sátira, mas o maior dos golpes reside no casamento efetuado por Hamer de diálogos grandemente literários e um estilo pictórico que é tão elegante quanto cômico, em seu uso do tipicamente inglês sang froid para expressar valores morais ultrajantes.

Desde então, a carreira do diretor entrou em progressivo declínio. Mesmo retendo as inspirações visuais e verbais, sua obra apresentou uma falta de energia e disciplina. The Spider and the Fly foi um espasmodicamente intrigante mistério ambientado na França da I Guerra Mundial, The Long Memory um enfadonho drama de vingança, Aventuras do Padre Brown uma sinuosa e estranhamente austera, ainda que soberbamente interpretada, adaptação das histórias detetivescas de G.K. Chesterton e O Estranho Caso do Conde/The Scapegoat um estilizado thriller de assassinatos frequentemente tornado incoerente pela remontagem demandada por Hollywood. Por fim, Hamer sofreu a indignação de ser removido da direção da vacilante sátira episódica Escola de Vigaristas/School for Scoundrels, antes de seu término.

Ao mapear as correntes sombrias da sexualidade, violência e conflitos de classe que corriam por baixo das aparentemente tranquilas águas da sociedade britânica, demonstrou ser um dos mais fascinantes e provocativos diretores do pós-guerra. Sem recorrer às confortáveis comédias provincianas ou ao realismo documental, sua obra foi, durante um curto período de anos, definida por um romantismo invulgarmente sutil, firme e subversivo.

Cronologia
Dos diretores regulares da Ealing (Charles Crichton, Charles Frend, Basil Dearden, Henry Cornelius e outros) Hamer somente é rivalizado por Alexander Mackendrick, enquanto um talento ferozmente individual e pessimista. Pode ser comparado tentativamente com CarnéSiodmak e o primeiro Mankiewicz

Leituras Futuras
Ealing Studios (Londres, 1977), de Charles Barr.

Destaques
1. Pink String and Sealing Wax, Reino Unido, 1945 c/Gordon Jackson, Googie Whiters, Mervyn Johns

2. It Always Rains on Sunday, Reino Unido, 1947 c/Googie Whiters, Edward Chapman, John McCallum

3. As Oito Vítimas, Reino Unido, 1949 c/Dennis Price, Alec Guiness, Joan Greenwood

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 124-5.

Filme do Dia: Barbarella (1968), Roger Vadim


Barbarella (Itália/França/EUA, 1968). Direção: Roger Vadim. Rot. Adaptado:  Vittorio Bonicelli, Claude Brulé, Brian Degas,  Jean-Claude Forest,  Tudor Gates,   Terry Southern,  Roger Vadim &  Clement Biddle Wood. Fotografia: Claude Renoir. Música: Bob Crewe, Charles Fox &  Michel Magne. Montagem: Victoria Mercanton. Dir. de arte: Mario Garbuglia. Figurinos: Jacques Fonteray & Paco Rabanne. Com: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O'Shea, David Hemmings, Ugo Tognazzi, Marcel Marceau, Claude Dauphin, Véronique Vendell.
             Barbarella (Fonda) é designada pelo presidente da Terra (Dauphin) para deter os planos de conquista do planeta pelo gênio do mal Duran Duran (O’Shea). Contando com o auxílio do anjo Pygar (Law), ela tem que se safar de todas as armadilhas que lhe são preparadas por Duran Duran e pela Grande Tirana (Pallenberg), que governa o planeta de SoGo. Conhece um líder rebelde Dildano (Hemmings), que pretende libertar o planeta da Tirana. Barbarella convence Duran Duran, também disposto a depor a Tirana, mas por outros motivos – conquistar a terra – a se aliarem para a invasão da sala onde dorme a tirana, da qual Barbarella possui a chave invisível. Porém Duran Duran trai Barbarella, que fica confinada na mesma sala que a Tirana. Elas conseguem ser salvas, no entanto, por Pygar.
       Essa aventura futurista apenas evidencia o contínuo declínio da carreira de Vadim, sendo o resultado final de suas tendências proto-pornográficas aqui francamente constrangedores e distantes de uma certa sensibilidade exibida pelo cineasta em seu filme de estréia E Deus Criou a Mulher (1956). Em comum com aquele, apenas o seu habitual recurso de despir as mulheres com quem vivia relacionamentos na época da produção dos filmes – lá Bardot, aqui Fonda nos créditos iniciais. Ao unir o universo futurista com a pausterização de modismos da época relativos ao amor livre e psicodelia, o cineasta realizou uma obra-prima do mau gosto tanto em termos de produção visual (os cenários são tão grotescos quanto os figurinos e os efeitos especiais) como de direção de atores canhestramente amadora e inconvincente (sem exceção, com uma Jane Fonda completamente patética gritando por seu Pygar). Completa o quadro diálogos hilários, que apenas comprovam a inexistência de um roteiro (apesar do notável número de roteiristas ou talvez por isso mesmo) e uma narrativa que não se define entre a ficção-científica e a sátira do gênero (não se sabe qual a pior das investidas, no sentido de que não há elementos minimamente convincentes para nenhuma dos dois modelos). Tanto nonsense parece não ter ouro motivo que o de exibir os dotes de Fonda. Seu estilo abertamente trash e kitsch influenciou filmes recentes comoO Quinto Elemento (1998), de Besson e Austin Powers II (1999), que entre muitas outras referências, tem um protagonista excessivamente coberto de pelos no tórax. Outra adaptação do universo dos quadrinhos, com uma protagonista feminina realizada para o cinema na época , Modesty Blaisie (1966) de Joseph Losey, foi mais bem sucedida. Virna Lisa havia sido a escolha inicial para a protagonista, mas acabou decidindo abandonar a produção. A cidade de SoGo, tem seu nome extraído das iniciais de Sodoma e Gomorra. Dino de Laurentiis Cinematografica/Marianne Productions/ Paramount Pictures.  98 minutos.

Postado originalmente em 17/07/2015

sábado, 18 de maio de 2019

Filme do Dia: Camaradas (2003), Steve Kokker


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Camaradas (Komrades, Canadá/Rússia, 2003). Direção: Steve Kokker.
Esse documentário parte das impressões iniciais do realizador sobre o companheirismo do exército russo, de traços homo-eróticos. Nesse sentido, boa parte da primeira metade do filme descreve muitos dos abraços, beijos e carícias entre amigos, assim como testemunhos dos próprios militares, em que a camaradagem e o nacionalismo, aparentemente torna todos membros da mesma família. Porém, o filme cresce mais quando, além do voyeurismo sugerido, consegue revelar que essa interação entre iguais é tão pouco homogênea quanto a própria nação: a violência que mata dezenas de jovens, no convívio exclusivamente masculino e na hierarquia brutal que está enraizada na instituição. Aos poucos, os depoimentos deixam de ser o de euforia e amizades fraternais “por quem se daria a vida”, como muitos afirmam, para relatos de mortes bárbaras cometidas por puro sadismo e o depoimento de um jovem que sofreu traumas psíquicos enormes, tentando inclusive o suicídio. Enfim, um festival de rituais de um mundo exclusivamente masculino. Pallaestra Prod. 64 minutos.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Filme do Dia: A Grande Beleza (2013), Paolo Sorrentino


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A Grande Beleza (La Grande Bellezza, Itália, 2013). Direção: Paolo Sorrentino. Rot.  Original: Paolo Sorrentino & Umberto Contarello, a partir do argumento de Sorrentino . Fotografia: Luca Bigazzi. Música: Lele Marchitelli. Montagem: Cristiano Travaglioli. Dir. de arte: Stefania Cella. Figurinos: Daniela Ciancio. Com: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte, Pamela Villoresi, Galatea Ranzi, Franco Graziosi, Roberto Herlitzka, Serena Grandi.
Jep Gambardella (Servillo) é um jornalista outonal que foi uma das sensações da sociedade romana dita culta. Após uma estreia mais que promissora na literatura, não mais produziu outro livro, vivendo dos créditos passados, enquanto participa das intermináveis festas agitadas por gente que já conhece pelo avesso. É subitamente visitado por um amigo de juventude que lhe revela que a esposa com quem vivera 35 anos fora sempre apaixonada por Jep, com quem namorara brevemente e passa a se envolver com a filha de um amigo do passado, a stripper Ramona (Ferilli). Com a língua afiada, Gambardella nunca deixa nenhuma provocação ser respondida com silêncio, seja uma esnobe amiga de longa data, seja o Cardeal Belucci (Herlitzka), forte candidato a papa, quando recepciona em sua casa uma velha de 104 anos tida como santa.
O débito mais evidente do filme é certamente com A Doce Vida (1960), de Fellini, como se a desencantada e decadente elite que circunda o mundo das artes e das letras, e o vazio correlato dos que dela fazem parte, retornassem, alguns anos (ou décadas) mais velhos. Visualmente opulento, como os filmes de Sorrentino costumam ser, assim como derrisório com relação não somente a Roma, mas igualmente a Itália, paradoxalmente efetivando mais um tributo sobretudo a primeira, o filme é de uma inspirada verve não apenas em termos da espirituosidade de seu roteiro como de soluções visuais que mais parecem atualizações da excentricidade de tipos de Fellini. Como em Oito e Meio, trata-se do velho mote de um artista em crise, só que aqui há já várias décadas. Amargo como seu protagonista, o filme se encontra eivado de um cinismo calculista que parece ser o refúgio para alguém que não conseguiu consumar de fato o grande amor de sua vida. Imperdoável para com os lances sensacionais que se querem fazer passar por arte, ele leva às lágrimas uma atriz performática que não consegue esboçar de forma minimamente coerente o que ela entende por arte e observa com suspeitoso desdém uma garota que incorpora uma alma de artista, pintando grandes telas a partir de uma mistura de cores enquanto chora. Porém, quando busca expressar o outro lado da moeda: o sublime do amor passado, não consegue ir além do trivial, através de imagens, corpos e faces belas. Será que essa lógica poderia ser aplicada ao próprio filme? Aparentemente não. Na sua diatribe entre clássico e moderno-contemporâneo ou cultura erudita x cultura pop, o filme talvez descambe para um amargor típico de um grupo de cineastas que lançou filmes de propostas biográficas sobre uma contemporaneidade vazia e, no caso brasileiro, destituída de um projeto de civilidade, de viés bastante reativo e desencantado tal como O Príncipe (2002), de Giorgetti ou A Suprema Felicidade (2010), de Jabor, mesmo Sorrentino se encontrando longe de fazer parte dessa geração. Destaque para a tocante homenagem a Fanny Ardant, encontrada ao acaso pelo protagonista nas ruas de Roma. Indigo Film/Medusa Film/Babe Film/Pathé/France 2 Cinéma para Janus Film. 142 minutos.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Filme do Dia: Criando uma Víbora (1909), D.W. Griffith




Criando uma Víbora (Nursing a Viper, EUA, 1909). Direção: D.W. Griffith. Rot. Original: D.W. Griffith & Frank E. Woods. Fotografia: G.W. Bitzer. Com: Arthur V. Johnson, Marion Leonard, Frank Powell, Frank Evans, James Kirkwood, Florence Lawrence, Mack Sennet.
Ambientado na Revolução Francesa, um dos motivos históricos que também despertou a atenção do realizador (sendo o primeiro a Guerra Civil Americana), o filme se encontra longe dos mais virtuosos que o realizador efetuou no período como Vida Solitária ou Monopólio do Trigo. Aqui, ao contrário de Vida Solitária, o uso de uma trama mais pretensiosa acaba encontrando seus limites, seja no tempo, seja em uma organização da ação que deixa margens a falta de clareza do que realmente se efetiva, em certos momentos, e isso mesmo fazendo uso de cartelas, ausentes do outro. Aqui um casal de aristocratas defende idéias republicanas. Após acolherem um aristocrata de uma propriedade vizinha que foge do linchamento, fazendo-o passar por criado, esse retribui assediando grosseiramente a esposa do dono da casa. Em resultado, o marido o expulsa, abandonado-o a sua própria sorte. É a dimensão da intimidade familiar o que realmente importa e se torna difícil apontar qualquer simpatia demarcada socialmente – pois se os revolucionários são apresentados da forma mais caricata e mesquinha possível e os aristocratas que formam o casal principal demonstram seu alto grau de dignidade, é igualmente um membro da aristocracia que tenta seduzir à força a esposa. Em termos de construção visual o filme apresenta uma maior liberdade com relação a continuidade e planos excêntricos, em termos de composição, como a dos homens que observam uma pequena multidão de revolucionários saírem  de um castelo. Biograph. 10 minutos.