CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

sábado, 21 de outubro de 2017

Filme do Dia: Suteneko Tora-Chan (1947), Kenzô Masaoka



Suteneko Tora-Chan (Japão, 1947). Direção: Kenzo Masaoka. Rot. Original: Tomio Sasaki.
Um gatinho faminto e desamparado é acolhido por uma família que consiste numa gata e três gatinhas. A chegada do novo “irmão” acaba provocando os ciúmes de uma das gatas, que resolve abandonar a casa na surdina. Sentindo-se culpado pelo evento, o jovem gato irá arriscar sua vida para trazê-la de volta, enfrentando desde um cachorro até as correntezas, sendo finalmente aceito sem restrições pela família.

A primeira vista parecendo decepcionantemente mais convencional que seu clássico Kumo to Chûri (1943), tanto nos traços como no enredo, nem por isso essa animação deixa de trazer alguns dos elementos mais interessantes daquele.  As canções parecem fluir dos personagens com uma naturalidade impressionante, os movimentos dos personagens são um espetáculo à parte, assim como a presença da natureza que, mesmo deslocada aqui para o âmbito do local de fuga da civilização, tampouco deixa de possuir um papel central na trama – tendo como ápice dramático, como na animação anterior, uma cena de tempestade, cuja adversidade ruirá a resistência da gata com relação a seu irmão mais novo; a pressuposição da divisão por gêneros se dá por conta de, na última terça parte do filme, dominada pelos dois personagens, esse apresentar características mais associadas com estereótipos masculinos tais como valentia, proteção e cuidado para com um ser mais delicado. A ternura da mãe e o fato do filme ser predominantemente marcado por uma feminilidade, numa sociedade extremamente machista e mesmo misógina como a japonesa de então é um dado interessante. Infelizmente Masaoka interromperia sua carreira relativamente cedo, em 1950 (levando em conta que ele viveu até 1998).  Nihon Doga/Toho. 20 minutos e 51 segundos.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Filme do Dia: Hey There (1918), Alfred J. Goulding





Hey There (EUA, 1918). Direção: Alfred J. Goulding. Com: Harold Lloyd, “Snub” Pollard, Bebe Daniels, June Havoc, William Gillepsie, Billy Fay, Gus Leonard, Lige Conley, Sammy Brooks.


Rapaz (Lloyd) admirador de estrela de cinema (Daniels) tem que burlar a segurança do estúdio para conseguir entrar e, após aprontar inúmeras confusões, consegue encontra-la e falar das cartas que lhe escreveu por alguns segundos, antes de fugir do estúdio quando da chegada de um de seus perseguidores.

Curta rotineiro produzido por Hal Roach que,como inúmeras comédias de então (The Cinema Director, A Movie Star,  Dia de Estreia) tematiza um ou outro aspecto do universo do cinema (exibição, produção, star system, etc.). Desistindo do personagem de Luke, Lloyd aqui já começa a burilar a sua nova persona, calcada em seu próprio nome; se aqui trata-se de um anônimo “rapaz” nos créditos, visualmente já se encontra bem próximo da personificação através da qual Lloyd ganhará notoriedade, com um visual algo almofadinha, que inclui um boné aparentemente largo demasiado grande para sua cabeça e os óculos de aro e, no comportamento, a sua paixão arrebatadora por alguma jovem e uma timidez crônica. Lugares-comuns associados a esse universo de representação da indústria cinematográfica como o da entrada como penetra, que décadas depois ainda se encontrava em uso com Jerry Lewis ou da entrada nos camarins das estrelas, habituais igualmente no universo da animação, assim como confusões que ocorrem nos próprios sets de filmagens ganham bastante destaque.  Rolin Films para Pathé Exchange. 10 minutos e 18 segundos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Filme do Dia: Mulheres da Beira (1923), Rino Lupo & George Pallu


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Mlheres da Beira (Portugal, 1923). Direção: Rino Lupo & George Pallu.  Rot. Adaptado: Rino Lupo, a partir de conto de Abel Botelho. Fotografia: Artur Costa de Macedo. Montagem: Marie Meunier & George Pallu. Com: Brunilde Júdice, António Pinheiro, Mário Santos, Rafael Marques, Maria Júdice Caruson, Celeste Ruth, Duarte Silva, Marina Santos.

Ana (Júdice) é a bela filha de um homem pobre e viúvo, Pedro (Pinheiro). Certo dia um amigo de Pedro lhe dá o conselho dela ir à cidade mais próxima do povoado em que vivem, em Arouca, trazer pães para vender e ganhar alguns trocados. Ela fica entusiasmada com a experiência e bastante encantada com o mundo que não conhecia de Arouca, de mulheres que se vestem bem e dos homens fidalgos. No caminho para lá, desperta a paixão de André (Santos), um pastor de ovelhas. Em Arouca do Fidalgo da Mó (Marques). Sofrendo eventuais maus tratos do pai rude, Ana confessa a tia que irá fugir com o Fidalgo, que lhe prometeu uma vida de luxo no Porto. De fato, ele cumpre a promessa, mas em pouco tempo se interessa por outra mulher, que se torna sua amante e a expulsa de casa. Ela tenta voltar a casa do pai, mas é renegada igualmente por este ao saber que ela devolvera as joias que havia ganho de presente. Tenta ser aceita pelas freiras do convento, mas quando essas sabem dela se encontrar grávida, afirmam que não podem ficar com ela. Volta ao campo onde reencontra André, obcecado por ela desde então, mas afirma que já não é mais pura para se unir a ele, matando-se.

Produção que, mesmo com todo o previsível enredo marcadamente melodramático e fatalista já prenunciado em sua primeira cartela (“Menina não seja vacia/Recolha seus pensamentos/Que Beijos são impostura/Palavras leva-as o vento”) consegue construir, sobretudo em parte de sua primeira metade, uma tocante e sensível descrição do crescente entusiasmo e abertura de Ana para o mundo. É certo que o filme não constrói exatamente a contento a ambiguidade entre a legítima curiosidade diante de um mundo até então desconhecido – e o filme não se escusa em mostrar uma panorâmica do Porto quando a tia lembra o tempo que lá vivera e o quão infinitamente mais pujante era a cidade em relação a Arouca – e a oportunidade de deixar de ser subjugada pelo pai entrevista na fuga que une o casal com pretensões bem diversas às habitualmente românticas. A singeleza do momento inicial, quando ainda não se encontra posta a tessitura algo banal e engessada de sua trama e a forma delicada com que enquadra Ana em meio às paisagens de Arouca ou do campo chegam a ser evocativas do contemporâneo Nosferatu, de Murnau. O italiano Lupo, é um dos cineastas pioneiros mais profícuos do cinema português. No plano visual destaque para o momento em que Ana se encontra a janela e se observa algo da movimentação cotidiana ao fundo em contra-luz provocando um belo (e raro no período) efeito. É curioso como seu título dá pistas de que a postura de Ana poderia valer para as mulheres da região como um todo, e que sua tia, de certo modo, já prefigura algumas das situações vivenciadas (de outras ela ou o próprio filme se resguardam de apresentar) por ela. Salta aos olhos o quão mais bem resolvida é a narrativa, podendo inclusive imaginá-la como mais próxima do período sonoro, que suas equivalentes brasileiras. Trata-se de uma cópia restaurada e musicada em 2007. Invicta Film. 84 minutos.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Filme do Dia: Space Kid (1966), Seymour Kneitel








Space Kid (EUA, 1966). Direção: Seymour Kneitel. Rot. Original: Irving Dressler. Música: Winston Sharples.

Mesmo sendo um dos últimos exemplares da série Noveltoons (1943-67), procurou se adaptar tanto em termos temáticos – lidando com o universo do espaço, então bastante em voga e não mais com fantasias tradicionais, motivo básico dos desenhos tradicionais da série – quanto de estilo e modo de produção, mais próximo de traços sem grande riqueza de direção de arte que invadiam as televisões então. O filme inteligentemente inverte a usual lógica de uma criança terrestre se aventurando pelo espaço, apresentando um garoto extraterrestre que decide visitar a Terra a partir de um conselho da mãe que, incomodada com sua bagunça dentro de casa, indaga se ele não prefere passear pelo espaço.  Pena que tal criatividade não fique demonstrada no próprio corpo do episódio, que tira de um único e exclusivo motivo: o fato da criança ficar cuidando de um bebê enquanto sua mãe vai ao supermercado e faz de tudo para que nenhum barulho a perturbe. Foi lançado mais de um ano após a morte do veterano realizador Kneitel. 5 minutos e 27 segundos.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Filme do Dia: L'Invitation au Voyage (1927), Germaine Dulac



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L’Invitation du Voyage (França, 1927). Direção: Germaine Dulac. Rot. Adaptado: Germaine Dulac & Irène Hillel-Erganger, a partir de um poema de Baudelaire. Fotografia: Paul Guichard & Lucien Bellavoine. Cenografia: César Silvagni. Com: Emma Gynt, Raymond Dubreuil, Robert Mirfeuil, Paul Lorbert, Tania Daleyme, Djemil Anik, Lucien Bataille.

Mulher (Gynt), cansada do marasmo de seu casamento, resolve sair para a noite e, na boate, sente-se atraída por um marinheiro (Dubreuil) do qual, após certo tempo, aproxima-se. Pouco tempo depois, no entanto, o marinheiro passa a dar atenção a outra mulher, dançando com ela, mesmo enviando flores para a primeira. A mulher decide ir embora. O marinheiro, após afastar a segunda mulher de si, sente-se triste por não ter conseguido concretizar a fantasia de leva-la a conhecer seu barco.

Nessa adaptação de um poema de Baudelaire o que mais se destaca é o forte simbolismo associado ao desejo. E aqui conquistando uma representação apropriada ao imaginário sobre o desejo feminino, bem menos objetivo e visual que o masculino, e repleto de simbologia e evocações que bem poderiam justificar o título – “o convite a uma viagem” – para além desse também ser o nome da boate no qual se encontram e se encontrar gravado no barquinho que ele compra para ela. Trata-se, sem dúvida, do convite a uma viagem pelos devaneios de sua protagonista. Nesse sentido, sua cartela inicial já justifica, talvez à guisa de uma possível rejeição do espectador que se trata de “uma história simples”. Na sua ânsia por um cinema puro, existe uma negação ao máximo das cartelas, associadas ao dramático tradicional, ao literário, ao teatral e o desejo de se aproximar das artes visuais e da música, sendo essa uma importante peça de articulação com as imagens – composta aqui, para a versão de 2002. 36 minutos.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Filme do Dia: O Homem Nu (1968), Roberto Santos

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O Homem Nu (Brasil, 1968). Direção: Roberto Santos. Rot. Adaptado: Roberto Santos & Fernando Sabino, baseado no conto de Sabino. Fotografia: Hélio Silva. Música: Rogério Duprat. Montagem: Silvio Reinoldi. Dir. de arte: Romeu Camargo. Com: Paulo José, Leila Diniz, Esmeralda Barros, Irma Alvarez, Ana Maria Nabuco, Osvaldo Loureiro, Íris Bruzzi, Ruth de Souza, Jofre Soares, Milton Gonçalves.
         Conhecedor do folclore brasileiro, o professor Sílvio Proença (José) decide ir a São Paulo, participar de um congresso sobre o tema, deixando a esposa, Mariana (Diniz), no Rio. Porém, impossibilitado de partir, vai dormir com um grupo de boêmios que casualmente encontra no aeroporto, na residência de Marialva (Barros). No dia seguinte, a porta bate quando vai pegar o pão no corredor e ele fica completamente nu. A partir daí começa uma longa e cansativa tentativa de voltar a se vestir que passa por um armário, uma sauna, moradias improvisadas de miseráveis, oficina mecânica e a praia. Ao retornar para casa, flagra a mulher com um amante, Gibson (Forster) e expulsa-o, igualmente nu, da casa. Gibson, no entanto, consegue tirar proveito do fato junto à mídia.

Tendo como mote uma situação típica de pesadelo – como comédia de erros que gira em torno de um único desejo, pode ser traçado um paralelo  com Depois de Horas, de Scorsese – e tendo como protagonista o mais insuspeito tipo classe média, o filme, mesmo com alguns momentos inspirados, encontra-se distante do episódio dirigido por Santos para As Cariocas, mesmo sendo bem superior a refilmagem de 1997. Ao contrário da versão de Carvana, que apenas se limita a tentar extrair humor do fato em si, o filme consegue traduzir melhor a subliminar dimensão que vai além da mera crônica de costumes (especialidade do produtor Fernando de Barros, enquanto cineasta) e enfatiza a rápida transformação de um ser repleto de cultura em um semi-selvagem ansiando pelas necessidades mais básicas. Repleto de episódios irônicos (um deles, em que o protagonista se encontra no veículo de um taxista aloprado seria revivido em Cronicamente Inviável),   faz uso, a certo momento, de fotos fixas, recurso muito utilizado na produção autoral européia contemporânea. Acaba sendo prejudicado principalmente por sua falta de concisão. Paulinho da Viola e o próprio cineasta aparecem em pontas. Wallfilmes/Pel-Mex. 118 minutos.

domingo, 15 de outubro de 2017

Filme do Dia: Red Hot Riding Hood (1943), Tex Avery


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Red Hot Riding Hood (EUA, 1943). Direção: Tex Avery. Música: Scott Bradley.

Esse que é a primeiro de uma série de animações que, devido ao extremo sucesso dessa, Avery desenvolveria na meia dúzia de anos seguintes parodiando a história de Chapeuzinho Vermelho, já apresenta todos os motivos que voltarão a ser explorados posteriormente: auto-referência ao universo de produção (aqui os personagens em seu prólogo convencional reivindicam que a história seja recontada de forma “sexy e urbana”, cansados que estão de reproduzirem sempre o mesmo estilo convencional, numa evidente alfinetada a Disney); referências um tanto evidentes a sexualidade tanto na histeria do lobo, encarnando uma janota que frequenta clubes noturnos, admirando a  dança de Chapeuzinho, uma bombshell mais provocativa do que suas similares de carne-e-osso contemporâneas; e uma vovó moderna e sexualmente ainda ativa, que corre ardentemente atrás do lobo (na versão original, o final os apresentava com filhos, mas foi censurado por alusão à bestialidade). Todos os filmes da série foram inicialmente banidos da televisão por seu conteúdo considerado sexualmente agressivo. Muitos acharam que foi utilizado rotoscópio para a dança de Chapeuzinho, tal a perfeição dos movimentos, o que Avery negou. Loew´s/MGM. 6 minutos e 17 segundos.