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sábado, 18 de agosto de 2018

Filme do Dia: Além da Vida (2010), Clint Eastwood


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Além da Vida (Hereafter, EUA, 2010). Direção: Clint Eastwood. Rot. Original: Peter Morgan. Fotografia: Tom Stern. Música: Clint Eastwood. Montagem: Joel Cox & Gary Roach. Dir. de arte: James J. Murakami & Patrick M. Sullivan Jr. Cenografia: Gary Fettis. Figurinos: Deborah Hopper. Com: Matt Damon, Cécile De France, Frankie McLaren, George McLaren, Bryce Dallas Howard, Richard Kind, Jay Mohr, Thierry Neuvic.
Marie Lelay (De France) é uma jornalista francesa em férias com o amante e chefe que se torna vítima de uma tsunami e sofrendo uma concussão cerebral. George Lonegan (Damon) é um americano solitário que sonha em vivenciar um amor e é pressionado pelo irmão (Mohr) a voltar a ganhar dinheiro com a mediunidade que conquistou após uma experiência limítrofe com a morte. Os gêmeos britânicos Marcus (Frankie McLaren/George McLaren) e Jason (Frankie McLaren/George McLaren) sofrem o cotidiano de conviverem com uma mãe viciada (Howard). Marie é afastada do emprego e aceita escrever a biografia de Mitterrand, mas se dedica a escrever sobre suas próprias sensações após o acidente. Jason morre  atropelado por um carro e Marcus vê o corpo do irmão morto, guardando-lhe o boné. A mãe não suporta a tragédia e Marcus é adotado por uma família. Lonegan abandona os planos do irmão de retornar para o negócio da mediunidade e parte para a Inglaterra, disposto a conhecer a casa de seu ídolo cultural, Charles Dickens. Em uma feira literária, Marcus, que havia tentado contato com vários tipos de supostos médiuns, reconhece Lonegan, ao mesmo tempo em que esse havia encontrado há pouco Marie, que lança um livro sobre um tema em uma editora especializada. Marcus, após muita insistência, faz contato com o irmão através de Lonegan e lhe passa o contato de Marie. Ele volta a ser acolhido pela mãe, enquanto Lonegan e Marie se encontram.
Os impressionantes efeitos iniciais do filme, utilizados com uma expertise rara em filmes que não são voltados para o gênero até sugerem algo mais auspicioso do que o canhestro melodrama espírita, seguindo uma corrente, sem a duplicidade que sugere a palavra, que parece ser internacional e ao qual o Brasil não passou despercebida. De fato do uso de tragédias reais, como a tsunami do sudeste asiático e o atentado ao metrô de Londres como simples pano de fundo para sua banal trama até a presunçosa homenagem ao gênio moralista de Dickens que, no entanto, situava seus personagens em um chão social bem mais realista do que a abstração quase espiritual que parecem se mover os personagens aqui apresentados, tudo funciona contra o filme. Algo que também fica demarcado nos toscos efeitos especiais que representam os segundos de contato com que o médium possui acesso aos espíritos do além. De France parece traduzir a própria expressão do patético no filme em seu próprio rosto, do início ao final. Derek Jacobi faz uma ponta como si próprio fazendo uma leitura de Dickens. Um título mais apropriado seria “aquém da vida”. Warner Bros./The Kennedy-Marshall Comp./Malpaso Prod./Amblin Ent. Para Warner Bros. Pictures. 129 minutos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Filme do Dia: Corra! (2017), Jordan Peele


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Corra! (Get Out!, EUA, 2017). Direção e Rot. Original: Jordan Peele. Fotografia: Toby Oliver. Música: Michael Abels. Montagem: Gregory Plotkin. Dir. de arte: Rusty Smith &  Chris Craine. Cenografia: Leonard R. Spers. Figurinos: Nadine Haders. Com: Daniel Kaluuya, Alisson Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, LIlhel Howery.
O fotógrafo negro Chris Washington (Kaluuya) aceita o convite de sua namorada branca Rose Armitage (Williams) para conhecer sua família. Seus pais, Missy (Keener) e Dean (Whitford), de tendência progressista e que, aparentemente, pouco se importam com o fato da filha namorar um negro. Porém o que era para ser um final de semana convencional se transforma progressivamente em um terrível pesadelo, com Chris percebendo inicialmente o comportamento estranho dos criados negros da casa, Georgina (Gabriel) e Walter (Henderson), assim como do irmão de Chris, Jeremy (Jones), dos seus convidados e, por fim, de seus próprios pais, tendo sido ele hipnotizado pela mãe dela. Seu amigo, Rod (Howery), encontra-se preocupado com o desaparecimento do amigo, após descobrir que outro negro que também se encontrava entre os convidados do encontro que houve no final de semana, Andrew (Stanfield), encontra-se desaparecido.
Enfrentando de forma ousada o casamento nada comum entre gênero (no caso, horror/suspense) e um comentário sobre a questão racial o filme derrapa forte, no entanto, em sua transição para o universo fantástico, em que não falta sequer momentos de humor involuntário. Os convidados para a festa na casa dos Armitage se aproximam, em sua estranheza, dos de O Bebê de Rosemary, não faltando sequer a personagem de um Roman. E se no filme de vampiros cruz e alho quase sempre são bem vindos, aqui é uma foto ou filmagem no celular que os afeta. As interpretações não mais que medianas, algumas vezes beirando a insuficiência depõe contra o razoável senso atmosférico que o filme constrói, mas que é prejudicado por seus excessos. Partindo de um princípio similar ao de Adivinhe Quem Vem Para Jantar, o da garota que apresenta seu namorado negro aos pais liberais, o filme sofre principalmente com a pouca organicidade que estabelece entre os elementos fantásticos e realistas e, talvez ainda pior que isso, com suas pretensões alegóricas de expressar a dominação pelos brancos dos negros e seus expedientes que misturam horror, sobrenatural – com efeitos especiais algo patéticos para simular o estado de transe e semi-consciência de Chris – e doses de ficção científica, como é o caso da cirurgia envolvendo a retirada da caixa craniana. Se algum desses elementos realistas parecem tingidos fortemente pela senso persecutório que parece tomar conta crescente de seu protagonista – ainda que o filme não consiga elaborar uma ambiguidade entre real ou alucinação como Polanski o fizera ao filtrar tudo pelo ponto de vista de sua protagonista – no caso , por exemplo, do trio de policiais que abertamente riem do que Rod lhes conta, essa estranheza soa demasiado artificiosa quando comparada a de realizadores como David Lynch. Peele, em seu longa de estreia, apela para uma inversão que contradiz os estereótipos presentes desde Griffith, no qual famílias brancas eram ameaçadas muitas vezes por membros de outras etnias ou grupos sociais, fossem índios, negros ou ciganos. Aqui é um negro que é ameaçado por uma família branca, ou seja, essa ao invés de ser a  vítima é a agressora tornada vítima apenas enquanto legítima defesa do herói. E o gozo com que Chris massacra a família, algumas vezes presente na imagem, em um festival de sanguinolência gore, pode ser observado como uma atualização para gênero e época do apressado tapa com o qual Virgil Tibbs retruca a violência sofrida por um rico branco em No Calor da Noite meio século antes e não se encontra distante de outras “reparações” raciais como o contemporâneo O Nascimento de uma Nação. Tudo isso, por mais louvável ou simplesmente oportunista que seja, infelizmente não torna o filme em algo menos medíocre do que é.   Blumhouse Prod./Monkeypaw Prod./Q.C. Ent. para Universal Pictures. 104 minutos.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Filme do Dia: Giornale Luce #346 (1943)





Giornale Luce #346 (Itália, 1943).
Com sua banda sonora – e, em menor escala – visual bastante comprometida, esse cinejornal apresenta em sua primeira metade sobretudo uma exibição, extremamente fálica, dos dispositivos de guerra nacionais, sobretudo canhões em rotação ou se erguendo após um segmento dedicado aos submarinos – alguns dos planos envolvendo canhões são bastante próximos do que é observado em produções que buscavam um novo realismo a partir de situações não muito distante das vivenciadas cotidianamente por seus não-atores como La Nave Bianca, de Rossellini e De Robertis. Sua segunda metade destaca sobretudo ações navais e aéreas italianas na frente russa ou na costa da Sicília. Na exibição do grandiloquente máquinas, os homens adqirem coadjuvância, no máximo polindo ou observados na construção do suporte aos mesmos. LUCE. 8 minutos e 49 segundos.



quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Filme do Dia: Dentro (2014), Bruno Autran




Dentro (Brasil, 2014). Direção e Rot. Original: Bruno Autran. Com: Bruno Autran, Bruno Guida, Antonio Haddad  Aguerre. Fotografia: Kaue Zilli. Dir. de arte: Paulo Maia. Figurinos: Daniel Infantini.
Amigos (Guida e Autran) desde a infância se reencontram e uma tensão que remete a vários ressentimentos do passado busca ser desconstruída por um deles. É o aniversário do que hoje se encontra  casado e com filho.
Poético e belamente estruturado em um único plano-sequencia (com câmera fixa a maior parte do tempo), caso sejam descontados os créditos, mesmo que não sendo igualmente feliz em termos de diálogos, demasiado banais e lugares-comum do que se adivinha, de fato, ser uma relação mais que de amizade, mais de amor sexuado que, no entanto, desconstrói-se quando o filho do aniversariante o chama para o parabéns. O amargor desse também é demasiado pesado não por parecer inverossímil, mas por se tornar involuntariamente ridículo. O plano-sequencia tira partido de um píer amador e uma vista deslumbrante que desse se enxerga, valorizada pela bela fotografia. Labuta Filmes. 15 minutos.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

Filme do Dia: Reci, reci, reci... (1991), Michaela Pavlátová




Reci, reci, reci... (Tchecoslováquia, 1991). Direção: Michaela Pavlátová.

Animação no qual o estilo peculiar de Pavlátová (realizadora de, entre outros, Repete) demonstra um dos pontos altos de sua criatividade: em traços básicos, o filme descreve diferentes modos de comunicação em um café lotado. É aí que entra a criatividade da realizadora, que utiliza de diferentes símbolos para representar o amor, o desejo e os conflitos humanos. Existe um pouco de tudo. De um cão alcoólatra até dois velhos que comentam a respeito de mulheres até serem bruscamente interrompidos pela mulher de um deles, ainda que se torne mais relevante a situação de uma mulher que vivencia todas as etapas do enamoramento até a desilusão final em uma única noite e acaba se completando ao escutar  a declaração de um velho garçom ao final. Como em Repete, tampouco aqui Pavlátová necessita de diálogos para construir sua narrativa. 10 minutos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Filme do Dia: Le Noël de Monsieur le Curé (1906), Alice Guy




Le Noël de  Monsieur Le Curé (França, 1906). Direção: Alice Guy.
Padre descobre se encontrar sem dinheiro para comprar uma pequena imagem de Jesus para a missa de natal.  Oportunisticamente, visita paroquianos mais pobres, sendo muito bem recebido pelo casal. Quando percebe que não conseguirá nenhum dinheiro com eles, resolve partir. Vai então visitar um escultor de posses.  Esse tenta vender uma escultura para o padre, que não possuindo dinheiro suficiente, chama a mulher da casa anterior, que traz uma galinha e ovos, que não são aceitos pelo escultor. Bastante tenso, começa a ministrar a missa de natal, mesmo sem a representação do Jesus bebê. Quando ele e os fiéis começam a orar, no entanto, uma aparição de anjos lhe traz uma pequena imagem, algo que é louvado posteriormente por eles em uma prece de agradecimento.
Embora o filme já almeje apresentar o conteúdo que o cura lê ao início – relativo ao natal que faz menção o título – seu plano de detalhe soa um tanto solto diante do que se convencionou com a continuidade precisa do cinema clássico, já que apenas observamos o livro imóvel em um plano notadamente extraído especificamente para tal, e sem as mãos do cura a segurá-lo. Embora exista uma consecução de cenas que possuem uma diretiva estabelecida – o desejo do padre de ter dinheiro para sua imagem da natal – e um personagem a criar aderência à mesma, no plano da construção espacial, não se tem a mínima ideia de onde isso ocorre, pois o filme passa dos interiores da casa do pároco para os dos seus visitados, sem a montagem associando continuidade a contiguidade que poucos anos depois Griffith somaria. A ausência de entretítulos, ao menos na cópia em questão, torna alguns detalhes mais intuídos que propriamente dados como certos, como é o caso do que comentam a respeito das esculturas.  Nesse sentido, é provável, mas em última instância incerto, que Guy apresentasse inicialmente uma possibilidade de leitura do padre como mero oportunista para depois assegurar sua honestidade e devoção pia. Société des Etablissements L. Gaumont. 5 minutos e 33 segundos.


domingo, 12 de agosto de 2018

Filme do Dia: Onde a Terra Acaba (2001), Sérgio Machado


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Onde a Terra Acaba (Brasil, 2001). Direção e Rot. Original: Sérgio Machado. Fotografia: Antônio Luiz Mendes. Música: Ed Cortês & Antônio Pinto. Montagem: Isabelle Rathery. Dir. de arte: Cássio Amarante & Mônica Costa.
Admirável documentário sobre Mário Peixoto (1908-92), realizador de um dos maiores clássicos do cinema brasileiro, Limite (1930). A força do filme advém de sua união de uma bem documentada incorporação de material fotográfico e de arquivo (inclusive, raras cenas do original Onde a Terra Acaba, que seria o segundo filme de Peixoto, jamais concluído e flagrantes da produção de Limite) a uma sensibilidade que consegue se apropriar de elementos do universo estético do biografado na sua própria forma, no caso em questão a delicadeza e o vagar com que tudo é narrado. Além, é claro, da incorporação na trilha sonora da mesma peça de Satie pensada para Limite e uma evidente pesquisa na utilização da fotografia em p&b. Contando com depoimentos do próprio Peixoto (que relembra, num dos melhores momentos do filme, a maestria técnica do fotógrafo Edgar Brasil) e de pessoas próximas a ele, seja uma das atrizes de Limite, um morador da região que assistiu as filmagens ou um dos caseiros do sítio em que o cineasta viveu boa parte de sua vida, esse perfil intimista nem precisaria contar com depoimentos genéricos sobre o cineasta como os de Cacá Diegues e Nélson Pereira dos Santos, ao contrário dos de Rui Solberg e, principalmente, Walter Salles, que acrescentam algo do contato pessoal travado com Peixoto. Tampouco o recorrente recurso a um narrador para diversas passagens dos diários pessoais do cineasta (na voz de Matheus Nachtergaele) foge ao controle do projeto como um todo, sendo de uma contenção exemplar para os padrões do ator. Curiosamente, a produção de um filme dirigido por Octávio Gabus Mendes encamparia o título da produção não efetivada de Carmen Santos, para uma adaptação de José de Alencar também com a atriz, em 1933. Filme de estréia do cineasta Sérgio Machado. Videofilmes. 75 minutos.