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#ELENÃO

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Filme do Dia: Espíritos Indômitos (1950), Fred Zinnemann


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Espíritos Indômitos (The Men, EUA,1950). Direção: Fred Zinnemann. Rot. Original: Carl Foreman. Fotografia: Robert De Grasse. Música: Dimitri Tiomkin. Montagem: Harry W. Gerstad. Dir. de arte: Rudolph Sternad. Com: Marlon Brando, Teresa Wright, Everett Sloane, Jack Webb, Richard Erdman, Virginia Farmer, Marshall Ball, Patricia Joiner, DeForest Kelley.
             Ken Wilozek (Brando) é o paciente rebelde do Dr. Brock (Sloane), que é mantido isolado dos outros pacientes. Posto na enfermaria, ele deve aguentar as pilhérias de Leo (Erdman) e Norm (Webb) e recusa qualquer contato com a ex-noiva, Ellen (Wright). Aos poucos, no entanto, recupera a vontade de viver, quando percebe o real interesse de Ellen e passa a fazer treinamentos físicos com o hábil Romano (Ball). Porém o ânimo do grupo é abalado quando Romano repentinamente falece, em decorrência de meningite. Após um período de crise também no relacionamento com Ellen, o casamento ocorre, ainda que contra à vontade dos pais da garota. Porém logo na primeira noite a tensão torna-se insuportável para Ellen que afirma ter se arrependido da decisão. Ken volta para o hospital mais encrenqueiro que nunca, quebrando as vidraças de uma porta, arranjando briga em um bar e sofrendo um acidente alcoolizado. Por decisão autonôma do conselho formado por seus próprios companheiros é decidido que ele deve abandonar à instituição. O Dr. Brock também reforça a decisão, afirmando que ele deveria aceitar com mais humildade as fraquezas da esposa. Ken retorna ao lar e é recepcionado carinhosamente por Ellen.
Típico produção de Kramer, com sua simpatia pelos filmes de mensagem de teor liberal, que o título em português soube traduzir melhor que o original. Quanto a última característica, essa também não é estranha ao cineasta, que realizaria seu maior sucesso apenas 3 anos depois, com A Um Passo da Eternidade, também tendo a guerra como elemento dramático indireto – aqui presente apenas na seqüência inicial, que apresenta o momento em que Ken foi ferido. Com um prólogo aparentemente interminável, em que o médico visita a cama de cada um dos pacientes e uma estrutura por demais semelhante a verdadeira tradição de filmes que retratam pessoas com deficiência física, esse certamente é mais lembrado como o primeiro papel de Brando no cinema – e já como protagonista, o que era uma raridade na época. À previsibilidade do roteiro se soma a irritante bonomia e subserviência de Wright (melhor explorada em A Sombra de uma Dúvida) e o resultado final é bem menos interessante que o do filme de 53, que apresentava as mulheres com um senso de emancipação raro para a época. O drama da reintegração de soldados tem sido uma constante na produção americana, sendo um exemplo bem superior, tanto em termos de forma como de conteúdo, Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1945), de Wyler, enquanto Amargo Regresso (1976) de Ashby, é um dos exemplos do que há de pior no gênero. Stanley Kramer Productions. 85 mintuos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Filme do Dia: Bexiga, Ano Zero (1971), Regina Jehá





Dentro dessa intensidade com que o curta documental descobriu a cidade de São Paulo nos anos 1970, nunca dantes observada e provavelmente tampouco depois, o curta de Jehá é mais um a ressaltar o ocaso e decadência de um perfil de bairro que já não mais existe. Tal como carpideiras da modernidade e da tradição reduzida a ruínas e – como acentua a voz over sobre uma fotografia excepcionalmente em p&b, aos marginais que ocupam as mesmas, antes de serem definitivamente deitadas abaixo – a última imagem desse curta é de um grupo de senhoras italianas, vestidas de preto a andarem por uma paisagem completamente rodeada de concreto bruto, em contraste com os arremedos de recantos italianos que transformaram o bairro tradicional em algo até então quase inexpugnável para o automóvel. E ao som de acordes de uma tarantella.  Da locução pouco antes se escutara o vaticínio: “O Bexiga não se transformou, simplesmente desapareceu.” Essa tônica funesta também se encontra presente em outros curtas, como Campos Eliseos que, como esse, termina sua locução com um atestado de óbito da Boca do Lixo, que já seria a segunda morte da região a qual o filme foca.   Das senhoras italianas não se escuta qualquer comentário – o curta é exclusivamente direcionado pela voz over, mesmo que essa se veja multifacetada, a depender do discurso, transformando-se em feminina, mudando de flexão quando passa a incorporar textos literários (como os de Drummond e Manuel Bandeira lidos), mas em seu padrão masculino grave e assertivo quando se trata justamente dos momentos de maior “objetividade”; aliás a disposição dessa coralidade de vozes já renderia bons fundamentos para se traçar os poderes simbólicos aos quais cada um cabe nessa trama. Se das mammas nada se ouve o que se dirá então dos marginais aos quais o narrador se refere, adentrando seus espaços de intimidade sem o menor pudor, deixando-os na maior parte das vezes em estado de certa rigidez por conta desse olhar, característica também presente em várias dessas produções – até mesmo as que possuem uma perspectiva distinta, como é o caso de Fim de Semana (1976), de Renato Tapajós, que lida com bairros periféricos bastante distantes do miolo da cidade e uma visão eminentemente simpática de seus retratados. Fotos fixas apresentam o momento em que os italianos chegaram ao bairro.  Alguns nomes que se destacariam no cinema brasileiro como Bodanzky e Sérgio Bianchi fazem parte da equipe técnica. O título e as ruínas observadas em grande detalhe – como em outros documentários do gênero, tais como Rua São Bento, 405, os vasos sanitários ganhando certa proeminência em meio a essas – certamente são uma referência ao Alemanha, Ano Zero (1947), de Rossellini. Suas cores hoje embotadas se devem por ter sido fotrografado em Eastmancolor.  Lauper Filmes. 10 minutos e 35 segundos.

domingo, 18 de novembro de 2018

The Film Handbook#177: Mitchell Leisen

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Mitchell Leisen
Nascimento: 06/10/1898, Menominee, Michigan, EUA
Morte: 28/10/1972, Los Angeles, Califórnia, EUA

Frequentemente considerado enquanto um diretor sub-Lubitsch contratado pela Paramount para materiais os mais diversos, James Mitchell Leisen tem sido ostensivamente, de fato vergonhosamente, negligenciado. O lendário "toque de Lubitsch" pode parecer pesado quando comparado ao modestamente estilizado e intrincado tratamento da comédia e do melodrama, que tratava repetidamente de temas com delicada ironia e profundidade emocional.

Formado em arte e arquitetura, Leisen entrou para Hollywood como figurinista, posteriormente diretor de arte para DeMille e outros: seus primeiros créditos incluem Macho e Fêmea/Male and Female, Rei dos Reis/The King of Kings e os épicos de Fairbanks Robin Hood e O Ladrão de Bagdad/The Thief of Bagdad. Sua estreia na direção se deu em 1933 com Filha de Maria/Cradle Song; no ano seguinte, Uma Sombra que Passa/Death Takes a Holiday e Segue o Espetáculo/Murder at the Vanities (um bizarro musical de bastidores-comédia-thriller, que chamava a atenção pelas rotinas exóticas de suas coristas e pela canção Sweet Marijuana) estabeleceram-no como um talento digno de observação. Uma série de comédias glamorosas e sofisticadas se sucederam, revelando seu uso fino de atores (MacMurray, Milland, Lombard, Goddard, dentre outros, demonstrariam ser particularmente suscetíveis) e seu amor por cenários extravagantes e elegantes: na verdade, após o charmoso Corações Unidos/Hands Across the Table (uma comédia romântica intensificada por cenas de real dor emocional) Leisen se encontrou capacitado a trabalhar com os mais promissores roteiristas de Hollywood. Wilder e Charles Brackett escreveram o brilhante Meia-Noite/Midnight>1, no qual uma oportunista americana em busca de fortuna se encontra atolada até o pescoço em um lamaçal de decepção e ciúmes, quando posa de esposa de um aristocrata francês empenhado em conquistar de volta as atenções de uma esposa infiel. Eles também foram responsáveis por dois melodramas de alta qualidade: Levanta-te, Meu Amor/Arise, My Love, sua propaganda fermentada com engenho, enquanto acompanha o problemático amor de um casal de americanos numa Espanha dilacerada pela guerra, e A Porta de Ouro/Hold Back the Dawn, uma história tocantemente dolorosa de uma união sem amor de um refugiados apátrida e da mulher com a qual casa para obter cidadania estadunidense.

Durante o mesmo fértil período, Leisen também se beneficiou do talento para a escrita de Preston Sturges. Garota de Sorte/Easy Living foi uma mordaz sátira de Wall Street, enquanto Lembra-se Daquela Noite?/Remember the Night>2 mesclava comédia suave, romance pungente e uma alusão de comentário social: história de um bem sucedido advogado cuja carreira hesita quando se apaixona por uma ladra de lojas a qual está processando, mas que solta por fiança no Natal. Leisen, no entanto, não foi um simples intérprete sensível dos roteiros alheios - ritmo, vivacidade e um compromisso com os fundo emocionais de seus ocasionalmente controversos roteiros emprestam-lhes graça e poder a sua obra consistentemente comercial.

A despeito de seu interesse recorrente nos problemas e absurdos criados por sociedades obcecadas por sexo, status e classe, o estilo de direção de Leisen foi essencialmente "invisível", evitando efeitos visuais virtuosos para focar em personagens críveis e narrativas sem sobressaltos. A Mulher que não Sabia Amar/Lady in the Dark>3, no entanto, baseado em um musical de Kurt Weill-Moses Hart, apresentou o gosto do diretor por cenários e figurinos mirabolantes levado ao extremo. Sobre uma editora de moda que se submete à psicanálise para desemaranhar os sentimentos sobre os três homens de sua vida, fez lúgubre uso de seus cenários e figurinos ridiculamente extravagantes para criar uma fantasia freudiana que é inadvertidamente uma obra-prima de Technicolor kitsch. Um desenho de produção luxuoso também inspirou Gaivota Negra/Frenchman's Creek (um espadachim de alto nível) e no estilo de Pigmalião, Flor do Lodo/Kitty>4, uma recriação engenhosa, elegante e raramente autêntica do período regencial inglês, com Paulette Goddard em plena forma como a jovem de rua cuja vida é radicalmente transformada quando é pintada em trajes aristocráticos por Sir Joshua Reynolds. Desde então, no entanto, a sofisticação exuberante de Leisen se encontrava em desacordo com a propensão dominante no pós-guerra por obstinado realismo, e sua carreira foi constantemente declinando, apesar dos filmes originais e divertidos que ainda emergiram em intervalos regulares. Só Resta Uma Lágrima/To Each his Own>5 foi um thriller impressionantemente atmosférico com Barbara Stanwyck chantageada por uma antiga paixão quando assume a identidade da viúva de um soldado para herdar a fortuna da família. O Quarto Mandamento/The Mating Season fazia uso do talento loquaz de Thelma Ritter com fino efeito cômico e Uma Aventura em Balboa/The Girl Most Likely foi um alegre musical, notável pelas cores brilhantes e expressivas de seus cenários e figurinos. Por volta de então, no entanto, a carreira cinematográfica de Leisen estava virtualmente acabada: após dirigir um documentário sobre Las Vegas e diversas atribuições televisivas, ele se retirou para se concentrar em seus negócios como alfaiate e decoração de interiores em Beverly Hills.

Frequentemente no seu melhor, Leisen foi o diretor arquetípico de leves, mas infalivelmente inteligentes, entretenimentos, com interpretações, enredos e organização visual afiados em brilhante perfeição. Embora raramente tenha lidado com temas "importantes", um seguro senso de tom e gosto, uma habilidade ao mesclar comédia e drama sem criar solavancos humorísticos e uma vontade de confrontar as emoções humanas com honestidade mais que indulgência, marcam-no como um realizador merecedor de maior atenção crítica que até agora tem recebido.

Cronologia
Talvez ainda mais que Lubitsch, o melhor diretor da Paramount, Leisen possa ser visto como uma contrapartida menos teatral de Cukor e como precursor tanto de Wilder quanto de Sirk; seu senso de desenho, ele próprio possivelmente derivado de figuras como DeMille, Von Stroheim e Von Sternberg, antecipa a obra de Minnelli

Destaques
1. Meia-Noite, EUA, 1939 c/Claudette Colbert, John Barrymore, Don Ameche

2. Lembra-se Daquela Noite?, EUA, 1940 c/Barbara Stanwyck, Fred MacMurray, Beulah Bondi

3. A Mulher que não Sabia Amar, EUA, 1944 c/Ginger Rogers, Ray Milland, Warner Baxter

4. Flor do Lodo, EUA, 1945 c/Claudette Colbert, Ray Milland, Constance Collier

5. Só Resta Uma Lágrima, EUA, 1950 c/Barbara Stanwyck, John Lund, Jane Cowl

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 164-5.


Filme do Dia: Entre o Traço e a Luz (2016), Zeca Ferreira





Entre o Traço e a Luz (Brasil,  2016). Direção, Rot. Original e Montagem: Zeca Ferreira. Texto e Fotografias: Marco Aurélio Olímpio.
Tentativa de imersão na obra do fotógrafo Marco Aurélio Olímpio realizado basicamente a partir de fotos fixas e voz over e texto do próprio.  Tecnicamente bem produzido, busca fugir da ortodoxia da biografia didática a trocando pela apresentação da obra com comentários pessoais que não dizem respeito necessariamente a fotografia, e sobretudo as fotos específicas apresentadas, de artistas os mais diversos. Moral da história: sai de uma ortodoxia e cai em outra. Afinal Filmes. 13 minutos e 43 segundos.

sábado, 17 de novembro de 2018

Filme do Dia: Rastros de Ódio (1956), John Ford


Rastros de Ódio

Rastros de Ódio (The Searchers, EUA, 1956). Direção: John Ford. Rot. Adaptado: Frank S. Nugent, baseado no romance de Alan Le May. Fotografia: Winton C. Hoch. Música: Stan Jones & Max Steiner. Montagem: Jack Murray. Dir. de arte: James Basevi & Frank Hotaling. Cenografia: Victor A. Gangelin. Com: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Natalie Wood, John Qualen, Olive Carey, Henry Brandon, Hank Worden, Beulah Archuletta, Lana Wood, Pippa Scott.
         Texas, 1868. Ethan Edwards (Wayne) volta para a sua família após anos afastado, tendo participado da Guerra da Secessão. Percebe indícios de que um ataque dos Comanches se fará iminente. Porém, quando retorna a casa da irmã, encontra todos massacrados, saindo a procura das crianças Debbie (Lana Wood) e Lucy (Scott), com um grupo grande de homens, comandados pelo reverendo e capitão Samuel Johston (Bond). Acreditando que se trata de uma estratégia ineficaz sair com um grupo tão grande, após um combate vigoroso com os índios que resulta em várias mortes desses. Parte então com Martin Pawley (Hunter), adotado pela família massacrada e o rapaz que era namorado de Lucy. Edwards descobre que Lucy está morta, mas somente relata aos rapazes muito tempo depois. Desesperado, o rapaz é vítima de sua fúria, por sua reação intempestiva, morrendo igualmente nas mãos dos índios. Sobram apenas Ethan e Martin. Em uma longa carta endereçada ao seu amor, a jovem Laurie Jorgensen (Miles), Martin se refere inclusive ao seu “casamento” involuntário com uma índia comanche, Look (Archuletta), que foge  ao saber que eles buscam o chefe índio Scar (Brandon). Após cinco anos de procura, Ethan e Martin encontram Scar e Debbie (Natalie Wood). Ethan chega a pensar em matá-la quando a vê convertida em uma típica comanche, mas Martin reage à idéia, acreditando que poderá trazê-la de volta ao convívio dos brancos. Indo isoladamente até a aldeia comanche, Martin é flagrado por Scar com Debbie e mata-o. Seu tiro funciona como um sinal para o ataque surpresa, com a ajuda da cavalaria do exército. Ethan persegue Debbie, para o desespero de Martin, mas logo cede aos seus encantos e a leva de volta ao convívio dos brancos, partindo novamente sem destino.
         Esse que é um dos maiores filmes de Ford e do gênero western, faz uso das grandiosas paisagens do Monument Valley, onde o cineasta habitualmente filmava suas sagas, de uma forma nunca antes ou depois presente no cinema, com uso de tela panorâmica (sistema VistaVision, rival do CinemaScope) e fortes cores em tons alaranjados, assim como seus poéticos enquadramentos que vislumbram a imensidão da paisagem, a partir de molduras como uma porta de cabana ou uma caverna. O personagem de Wayne, talvez o mais famoso de sua carreira, embora resolutamente inimigo dos índios, já demonstra um maior teor de ambiguidade, como que pressentindo que o extermínio completo dos indígenas significará sua própria desnecessidade nesse novo contexto social (angústia que se encontrará no personagem do matador de Cangaceiros de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Gláuber Rocha, explicitamente influenciado pelo personagem de Wayne). Nesse sentido, sua pedagogia ao jovem iniciante Martin, tem como contrapartida a necessidade de aprender a ser mais tolerante – ainda que o próprio Martin, cansado de ser perseguido pela índia que acredita ser ele seu marido, provoca uma das cenas mais anti-politicamente corretas de toda a história do cinema, chutando-a para longe de suas cobertas. Cumpre ressaltar a magnífica coreografia das cenas de batalha, particularmente o ataque final a aldeia indígena e a sua cena mais clássica, quando a resolução do conflito dramático se dá, após a perseguição de Debbie à cavalo até uma boca de caverna (curiosamente filmada em dois estados diferentes). National Film Registry em 1989. C.V. Whitney Pictures/Warner Bros. 120 minutos.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Filme do Dia: Opening of New East River bridge, New York (1903), James Blair Smith




Opening of New East River Bridge, New York (EUA, 1903). Fotografia: James Blair Smith.
Se apresenta imagens mais detalhadas do evento histórico para a cidade de Nova York que foi a inauguração de uma de suas pontes mais majestosas, a de Williamsburg, que Opening the Williamsburg Bridge, da rival Biograph, uma celebração centrada nos rituais de poder parece aqui ainda mais aparente.  Ao menos nesse sentido pode-se afirmar que o cinegrafista dessa produção teve mais sucesso que na sua versão concorrente ao já iniciar bem mais próxima do momento em que as autoridades cruzam com o campo focal da câmera, que aliás efetua um movimento de câmera muito próximo da outra produção, deixando que se perceba, talvez aqui ainda mais próximo (por conta igualmente aqui de um certo “engarrafamento” de autoridades) os dignitários do evento, com seus fraques e cartolas ou chapéus coco. Por alguns segundos se poderia pensar que se trata da mesma produção. Aqui também se acrescenta outros dois planos. Um que apresenta as autoridades se aproximando do palco onde serão observados – ou ao menos se pretende que seja observado – um dos oradores do evento (provavelmente o prefeito Seth Low, também presente nas imagens da outra produção), que será tema do último plano. Nesse segundo plano, observa-se parte da estrutura da monumental ponte ao fundo. Os olhares oblíquos dos cavalheiros para a lente da câmera demonstra um misto de naturalidade e perfeita consciência de se estar sendo filmado que a contradiz. Edison Manufacturing Co. 3 minutos e 25 segundos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Filme do Dia: Hoffmaniada (2018), Stanislav Sokolov




Hoffmaniada (Gofmaniada, Rússia, 2018). Direção: Stanislav Sokolov. Rot. Adaptado: Viktor Slavkin, a partir de contos de E.T.A. Hoffman. Música: Shandor Kalosh. Montagem: Stanislav Sokolov.
A exímia habilidade no trato com animação em stop motion e os cenários virtuosos não são exatamente um passaporte para uma narrativa digerível ou sequer atrativa em boa parte de seu desenrolar. Movendo-se de forma complexa para narrar episódios autobiográficos de seu autor, alguns deles aparentemente triviais, e também mesclando-os com contos ficcionais do mesmo se tem um delirante festival de mutações e transformações, inclusive de seu próprio protagonista e uns poucos momentos de humor, como o que Hoffman se encanta por uma modelo mecânica ao ponto de fraquejar em sua fidelidade eterna a sua musa platônica, que se transforma em real após a descoberta que ele fora tentado (várias vezes) por ninguém menos que o demônio. Outro episódio diz respeito a sua posse como administrador de um teatro.  Projeto que levou quase duas décadas para ser completado.  Jingle.ru/Soyouzmultfilm para Soyouzmultfilm. 70 minutos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Filme do Dia: Rua Madeleine 13 (1946), Henry Hathaway


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Bob Sharkey (Cagney) é o veterano da I Guerra Mundial que assume a própria missão de tentar conquistar o objetivo de explodir a residência do alto comando nazista em uma pequena cidade do interior da França, após o agente treinado e enviado por ele, Jeff (Latimore), ter sido assassinado pelo ardiloso espião nazista O’Connell (Conte), que os americanos já sabiam de sua identidade desde o início.
O que salta aos olhos, mesmo antes que se veja qualquer imagem do universo ficcional proposto por essa produção, é o quanto ela é devedora do mais brutal conflito bélico mundial do século XX, não apenas por sua trama derivar dele, como pelo próprio filme ser uma resposta do cinema a necessidade de se aproximar de uma estética realista ao qual parecia voltar suas costas antes, como já informa os créditos iniciais, que ressalta serem os cenários tanto internos quanto externos terem sido efetuados em locações, em uma explicitação não muito distinta daquelas apresentadas pelo cinema italiano já há alguns anos antes, como é o caso de Rossellini (La Nave Bianca). Algo que provavelmente não afeta seu status ficcional final, servindo antes como carta de propósitos, talvez  não sendo exatamente o caso de sua contraparte italiana, cujas articulações estéticas iam muito além desse recurso.  Embora a voz over tipicamente documental masculina e assertiva inicie comentando o que se encontra inscrito nos arquivos públicos norte-americanos, que o “passado é o prólogo”, esse prólogo de filme, acompanhado de imagens documentais, mais parece um prefácio à paranoia anti-comunista em curso. Ao menos em seu primeiro quarto.  A presença constante dessa voz ao longo do filme é algo incomum na filmografia contemporânea, que inclusive a utilizou bem mais frequentemente como voz de um narrador em “primeira pessoa”, como é o caso do noir, traindo talvez a incapacidade de compartilhar informações importantes através do meio dramático convencional e facilitando igualmente as mudanças de fases da operação.  Desnecessário dizer o quanto tramas de espionagem suscitam suspense, por mais que algumas antecipações também possam ser previstas, como a de O’Connel ser o agente infiltrado à serviço da Alemanha. Embora pese contra si, em termos profissionais, Jeff não consegue disfarçar minimamente sua antipatia por O’Connell após saber que se trata de um nazista. Ainda que, em termos de valores melodramáticos, sua inaptidão possa ser encarada como positiva e o redima, em termo de uma orientação de mundo melodramática, representando aquele que não sabe simular seus verdadeiros sentimentos por ser demasiado íntegro. E paga com a própria morte por isso.  Seu final, patético e contraditório – a missão aérea que destruirá o QG alemão na cidade também provocará a morte do agente americano que, mesmo sob tortura, jamais confessará seus segredos, como garante alguém que conhece bem esse durão de Minnessota – é sobretudo demasiado abrupto, com o sorriso de vitória sobre seu adversário logo sendo tragado pela poeira da destruição e morte. E não deixa de ser curiosa a ênfase de se observar a morte chegando sobre o herói e não sobre os adversários, como habitual. Se a vitória aparente da ação aliada é tida como certa, a morte de todos os personagens a quem o filme mais se aproxima – os três aliados e o nazista – mais parecem advertir involuntariamente para a falta de sentido da guerra. Breve ponta de Karl Malden, como o instrutor que orienta sobre o salto de paraquedas. Twentieth Century-Fox. 95 minutos.