CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Filme do Dia: Filhas do Vento (2003), Joel Zito Araújo

Resultado de imagem para filhas do vento joel zito araújo poster

Filhas do Vento (Brasil, 2004). Direção: Joel Zito Araújo. Rot. Original: Joel Zito Araújo & Di Moretti. Fotografia: Jacob Solitrenick. Música: Marcus Viana. Montagem: Isabel Monteiro de Castro. Dir. de arte: Andréa Velloso.  Com: Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Léa Garcia, Thaís Araújo, Maria Ceiça, Danielle Ornelas, Rocco Pitanga, Jonas Bloch, Mônica Freitas, Zózimo Bobul.
Num pequeno vilarejo de Minas Gerais, Cida (Araújo) e Ju (Freitas) não mais se falam depois que uma delas foi falsamente acusada pelo pai (Gonçalves) de se encontrar furtivamente com o noivo da irmã, Marquinhos (Pitanga). Trata-se do empurrão final para que Cida tente e consiga ser vitoriosa na sua carreira de atriz, retornando a cidade com a morte do pai somente para se deparar com alguns conflitos e fantasmas do passado, entre eles a sua inimizada com a irmã (Garcia), assim como a revolta da filha (Ceiça).

O que poderia se prestar como um belo tributo a duas veteranas e pioneiras atrizes negras brasileiras, Garcia (lembrada, sobretudo por sua simpática participação em Orfeu do Carnaval) e Souza (lembrada antes de tudo pela versão cinematográfica de Sinha Moça), provoca um efeito quase oposto. Amparado pelas memórias de Ruth de Souza, colhidas a partir do interessante documentário que realizou para a TV no qual enfocava atrizes negras brasileiras, A Negação do Brasil (2000), Araújo realiza um filme constrangedor em sua imperícia em elementos básicos como o desenvolvimento da narrativa, que se torna crescentemente confusa e descentrada, sobretudo a partir de sua segunda metade. Porém, as qualidades negativas vão além, espraiando-se para interpretações deslocadas e inconvincentes, uma trilha musical equivocada e em vários momentos contra-producente em termos dramáticos, além de personagens francamente desnecessários. Ao se deslocar do registro documental para o ficcional talvez seu realizador tenha pensado que automaticamente se enquadraria com relativo conforto no universo dramático como se dera no documental. Ledo engano. O único tema que de fato pode selar uma continuidade com a produção anterior, a questão da exclusão do negro no universo do audiovisual brasileiro é aqui tratado como comentário de passagem. O pior é quando o tom equivocado e superficial de comentários de passagem toma conta do que pretensamente seria o clímax dramático do filme, o momento em que a filha de Cida se revolta contra tudo que a mãe representa num almoço que sucede a morte do avô, resvalando para o humor involuntário. Aqui, como em todo o restante do filme, a péssima direção de atores nada consegue extrair, tampouco de atores veteranos e talentosos como o caso de Gonçalves  ou da própria Ruth de Souza. Falta sutileza e essa falta de sutileza se espraia das interpretações para o já comentado uso da música e também para os canhestros e óbvios diálogos e situações, como o momento em que apenas se espera que Gonçalves caia morto, numa evidente alusão a O Poderoso Chefão. Talvez um dos piores defeitos do filme seja, certamente visando o mercado, não assumir e elaborar de fato o drama de suas duas personagens maduras e levá-lo a fundo, fazendo-o ser vivido inclusive pelas duas atrizes veteranas ao invés de apostar na  facilidade com que desnuda os corpos das jovens atrizes do elenco. O estilo de melodrama televisivo almejado visual e dramaticamente pelo filme fica aquém de seu próprio modelo. Riofilme. 85 minutos. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Filme do Dia: Para Sempre Alice (2014), Richard Glatzer & Wash Westmoreland




Resultado de imagem para still alice 2014 poster
Para Sempre Alice (Still Alice, EUA, 2014). Direção: Richard Glatzer & Wash Westmoreland. Rot. Adaptado: Richard Glatzer & Wash Westmoreland, a partir do romance de Lisa Genova. Fotografia: Denis Lenoir. Música: Ilan Eshkeri. Montagem: Nicolas Chaudeurge. Dir. de arte: Tommaso Ortino. Cenografia: Susan Perlman. Com: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Shena McRae, Hunter Parrish, Seth Gilliam, Stephen Kunken.

A Dra. Alice Howland (Moore), brilhante professora e pesquisadora na área de neurolinguística na Universidade de Columbia subitamente passa a se sentir estranha e é diagnosticada com Alzheimer. Como ela tem pouco mais de 50 anos, ela e o esposo John (Baldwin) decide  contar tudo aos filhos, pois sabem da enorme possibilidade, em termos de transmissão genética. Tom (Parrish) não possui o gene, já Anna (Bosworth) o possui e Lydia (Stewart), a caçula, prefere não fazê-lo. A situação se deteriora em pouco tempo. Alice é afastada da universidade, mas participa de  uma apresentação  pública sobre seu sofrimento. Tal apresentação representa muito para ela. Com John tendo que se afastar e ir morar em outro estado, quem fica morando com a mãe passa a ser Lydia.

Embora relativamente exangue em termos de peripécias, o filme não deixa de ser emocionalmente manipulativo em diversos momentos, notadamente naquele em que Alice irá proferir sua palestra diante de uma emocionada plateia e de sua família e médico. Ou ainda na tentativa de elaboração dramática mais próxima entre as personagens de Alice e sua filha Lydia que, indo na contracorrente dos outros irmãos, decide seguir carreira como atriz e, ironia do destino, será quem pouco tempo depois cuidará da mãe, que lhe alertava a respeito das dificuldades da vida e sobre a necessidade de possuir um “plano B” caso  sua carreira em profissão tão instável não vingasse a ponto de sustentá-la. Por mais que a trilha sonora igualmente insista em fazer aflorar emoções, parece algo como tirar leite de pedra em um filme já demasiado disposto a seguir protocolos rotineiros de pretensa identificação com as situações dispostas. Lutzus-Brown para Sony Pictures Classics. 101 minutos.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Filme do Dia: New Black Diamond Express (1900), James H.White




New Black Diamond Express (EUA, 1900).Direção: James H.White.

Provavelmente essa produção já seguia motivos muito similares da primeira, com título similar, produzida quatro anos antes, pelo que se confere das informações de catálogo. Chama a atenção, no entanto, o quanto os trabalhadores que aparentemente fixam as dormentes e tão próximos da câmera se encontram são secundados muito ao longe pelo referido trem fazendo a curva ao fundo. A rapidez com que se aproxima do grupo em primeiro plano era provavelmente o motivo a ser destacado. Dois homens, vestidos em trajes mais formais acenam seus lenços brancos quando a proximidade se torna ainda maior e os operários saem dos trilhos para a passagem do trem, com vários passageiros acenando com seus lenços igualmente de dentro. Mesmo não tendo o charme  pioneiro do seu mais famoso contraparte francês L´Arrivée d´un Train à La Ciotat, de alguns anos antes existe aqui uma dimensão épica, de desbravamento de fronteiras e pioneirismo completamente ausente do filme produzido pelos Lumière, representação de uma Europa urbana e com um sistema social já bastante definido. Edison Manufacturing Co. 30 segundos.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Filme do Dia: Grilhões do Passado (1955), Orson Welles


Resultado de imagem para mr. arkadin poster


Grilhões do Passado (Mr. Arkadin, Espanha/EUA, 1955). Direção: Orson Welles. Rot. Original: Orson Welles, baseado em seu próprio romance. Fotografia: Jean Bourgoin. Música: Paul Misraki. Montagem: Renzo Lucidi, William Morton & Orson Welles. Com: Robert Arden, Patricia Medina, Orson Welles, Paola Mori, Katina Paxinou, Michael Redgrave, Akim Tamiroff, Grégoire Aslan, Mischa Auer, Peter van Eyck, Suzanne Flon, Frédéric O'Brady, Terence Longdon, Manuel Requena.
               Guy Van Stratten (Arden) e sua garota Mily (Medina) presenciam o assassinato de Bracco (Aslan). Quando este se encontra próximo da morte ele afirma para Stratten que ganhará muito dinheiro com a informação que lhe dará. Porém, com a chegada da polícia ao local, Mily é quem ouve os dois nomes que pronuncia, lembrando-se apenas de um: Arkadin. Na pista do misterioso Arkadin, milionário que vive dando festas em um castelo espanhol, e vigia todos os passos da filha Raina (Mori), afastando-a dos aventureiros, Van Stratten se aproxima de Raina, enquanto Mily de Arkadin. Arkadin fica perplexo quando Stratten lhe afirma saber algo sobre seu passado. No entanto, o escorraça do castelo. Posteriormente é convidado para ter uma conversa íntima com Arkadin, que afirma de amnésia e a última coisa que se recorda é de se encontrar com uma fortuna em uma valise, em 1927, em Zurique. Van Stratten recebe então o propósito de ser pago para desvendar o passado de Arkadin. Inicia através de uma revelação de Mily, que recorda o nome da mulher que Bracco pronunciara quando de sua morte: Sophie. Para chegar até o paradeiro de Sophie, no entanto, ele tem - juntamente com Mily - que passar pelas informações de uma excêntrico amestrador de moscas (Auer), Thaddeus (Van Eyck), do antiquário Trebisch (Redgrave), da Baronesa Nagel (Flon) - e descobre que, para surpresa sua, Arkadin segue seus passos, e do viciado em heroína Oscar (O’Brady), que finalmente lhe revela o paradeiro de Sophie. Enquanto isso, Mily tenta descobrir algo mais sobre Arkadin em seu iate. Van Stratten vai ao encontro de Sophie (Paxinou), que vive na Cidade do México e que lhe revela a verdadeira história de Arkadin, que fazia parte de uma gangue de 9 homens que trabalhavam para ela e que lhe roubou tudo o que possuía. Dos 9 homens, 6 se encontram mortos e 2 presos e o terceiro é Oscar. Em uma festa de Arkadin, Van Stratten descobre que Mily fora assassinada pelo mesmo, e quando procura alertar Sophie, fica sabendo que ela e seu companheiro (Martinez), também foram mortos, assim como Oscar. Resta apenas um dos 2 presos, que agora se encontra em liberdade, o moribundo Jacob Zuok (Tamiroff), que Van Stratten encontra em um prédio semiabandonado, que logo também recebe a visita de Arkadin e seus comparsas. Van Stratten esconde Zuok no quarto de uma mulher, e apesar de Arkadin entrar no quarto e encontrar Jacob, nada faz a esse, o que desperta a suspeita de que não o reconhecera. Quando ambos mudam de lugar, Van Stratten percebe que, na verdade, Arkadin já se encontrava por trás da morte de Bracco. Quando vai comprar fígado de ganso para um ansioso Jacob comer na ceia de Natal, encontra Arkadin no caminho. Esse lhe leva a um restaurante, onde Arkadin se recusa a entrar com ele, já que Van Stratten foi visto em todos os locais onde ocorreram os crimes, sendo seu perfeito bode expiatório. Quando retorna ao hotel, Van Stratten encontra Jacob esfaqueado. A última esperança que resta a Van Stratten é ir à Espanha e encontrar-se com Raina, antes do próprio Arkadin, que se encontra apaixonada por ele, e lhe confiar toda a verdadeira história. Arkadin pretende partir no mesmo vôo e oferece fortunas a quem se dispor a ceder seu lugar para ele, mas é ridicularizado diante de todos por Stratten, que consegue chegar primeiro e falar com Raina. Arkadin, de seu jato particular, consegue falar com Raina na torre de controle que, orientada por Van Stratten, afirma que “é tarde demais”. Arkadin suicida-se, jogando o avião contra a terra, enquanto Van Stratten aceita l milhão de dólares para se manter afastado de Reina, que parte com um secretário (Longdon) de Arkadin.

Filme que une o cinismo habitual que caracteriza os personagens do gênero noir com as obsessões de Welles, em termos de estilo visual e narrativo. No primeiro caso há um rompimento com qualquer expectativa sobre quem seja o herói e quem seja o vilão, quando o suposto herói admite ser apenas uma cópia mal sucedida do vilão, movendo-se ambiguamente entre duas mulheres, ao sabor dos interesses. A própria Mily, se encontra longe do protótipo feminino da época, já que muitas vezes parte para investigações por sua própria conta e, pouco antes de ser assassinada, ainda tenta seduzir Arkadin. No segundo caso a exuberância visual da utilização da câmera alta e baixa (principalmente a última) e da profundidade de campo – sobretudo na cena em que Arkadin leva Van Stratten ao quarto de Milly, e percebemos uma pasta que contém um relatório sobre o último bem próximo da câmera, como o copo sobre o criado mudo no quarto onde a mulher de Kane tenta o suicídio em Cidadão Kane e no momento em que Van Stratten percebe que Arkadin também se encontra no mesmo hotel que ele na Cidade do México. Do mesmo modo o caráter fake, que já pode ser pressentido no início da narrativa, na voz over do protagonista em tom francamente documental e a estrutura em quebra-cabeça que evocam mais uma vez Kane, assim como no fato de ambos serem uma investigação sobre a vida de ambos os personagens-título – ainda que no primeiro caso, este já se encontre morto, e no segundo tal investigação, aparentemente ainda seja mais perturbadora, já que encomendada pelo próprio objeto de investigação. Porém, nessa narrativa de muitas reviravoltas,  o caráter fake acaba se sobrepondo ao drama existencial,  sendo que a frase-chave de Arkadin – “sabe o que é ter vergonha de algo que não lembra?” – acaba perdendo seu peso quando descobrimos que ele se encontra por trás de tudo. Porém, não ao ponto da superação do conflito com uma filha que pode saber de seu passado – e agora também de seu presente – e que lhe levará ao fim trágico. Aliás uma outra semelhança com Kane, onde muito do caráter trágico do personagem advém do desligamento dessa da mãe quando criança, sendo aqui a relação invertida para filha e pai. Talvez mais compreensível para a moral da história seja a fábula que Arkadin conta sobre a travessia do rio do escorpião e do sapo, em que esse torna-se vítima de sua própria natureza, que se volta contra a própria lógica (tal fábula seria recontada pelos personagens de Traídos pelo Desejo, de Neil Jordan). Em certo momento, como o de Mily e Arkadin no iate, a dinâmica montagem parece antecipar, com seu corte brusco, as jump cuts que se tornariam célebres nos filmes da Nouvelle Vague alguns anos depois, podendo ser associada tanto ao desequilíbrio da personagem provocado pelo álcool unido a instabilidade do iate. Também deve ser destacado o rebuscado uso do flashback, que se subdivide em um flashback interno. Seu caráter barroco que, entre outros elementos, conta com a associação do personagem-título a nomes e lugares diversos e uma identidade imprecisa, seria extrapolada e retrabalhada com originalidade, por Sganzerla em O Bandido da Luz Vermelha (1968). Por outro lado, a apresentação de uma sequência ambientada em uma procissão espanhola, entre outros costumes nativos, demonstra tanto a caricata falta de sensibilidade de Mily e Van Stratten para com o diferente, como a apropriação superficial do cineasta de um pano de fundo “exótico” para a cultura anglo-saxã. O final, em tom profundamente cool e anti-sentimental  pode novamente ser associado com a estética que a  Nouvelle Vague trabalhará anos depois. Filmado na Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra. Sevilla Films/Cervantes Films/ Mercury Productions/ Filmorsa. 95 minutos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

The Film Handbook#115: Peter Bogdanovich

Resultado de imagem para peter bogdanovich pics


Peter Bogdanovich
Nascimento: 30/07/1939, Kingston, Nova York
Carreira (como diretor): 1967-

Em seu entusiasmo pelo cinema clássico americano, Peter Bogdanovich foi um dos primeiros jovens diretores cinéfilos a tomarem Hollywood de forma visceral nos anos 70. Ele difere de seus sucessores, no entanto, tanto em sua falta de interesse em técnicas extravagantes, assim como na sua crescente inabilidade em conquistar um grande público.

Filho de um pintor iuguslavo, o interesse inicial de Bogdanovich pelo cinema e pelo teatro o levou a carreira de ator, diretor de teatro off-Broadway e crítico de cinema. Tendo escrito livros sobre Welles, Hawks, Hitchcock, Lang, Ford e Dwan, passou então a trabalhar para Corman na American International Pictures. Uma chance para dirigir surgiu quando Corman ofereceu  Boris Karloff, um cronograma de filmagem de duas semanas e película proveniente de seu filme Sombras do Terror/The Terror. O resultado, Na Mira da Morte/Targets>1 foi um filme de ação tenso e inventivo no qual um jovem tipicamente asséptico de classe média se transforma em um atirador psicopata; o contraste entre o horror real e sua contrapartida cinematográfica claramente encarnada quando Karloff, virtualmente representando a si mesmo, confronta o rapaz em seu clímax, um massacre realizado em um cinema drive-in que exibe seus filmes.

Filmado em cores melancolicamente monocromáticas, o primeiro grande sucesso de Bogdanovich, A Última Sessão de Cinema/The Last Picture Show>2 também usou o cinema em termos simbólicos, com o fechamento de uma sala de cinema elegíacamente significando a transição final da inocência de. uma claustrofóbica cidadezinha texana nos anos 50. Além de permitir que Bogdanovich extraísse performances vibrantes tanto de veteranos quanto de jovens desconhecidos. O filme foi um comovente tributo aos admiradores de Hawks e Ford, como foi a sua travessa comédia maluca Essa Pequena é uma Parada/What's Up, Doc? e o ambiente da Grande Depressão de Lua de Papel/Paper Moon>3 (o vendedor de bíblias vigarista de Ryan O'Neal encontrando sua luz na esperta órfã vivida por sua filha Tatum. Futuros tributos, no entanto,como em Amor, Eterno Amor/At Long Last Love, um musical de Cole Porter no qual nenhum dos atores sabia cantar ou dançar, e No Mundo do Cinema/Nickelodeon uma apaixonada mas irregular saudação cômica aos pioneiros de Hollywood, demonstraram ser de uma auto-indulgência extravagante.

O fracasso de crítica e de público desses filmes garantiu uma substancial reavaliação e redução no orçamento. Infelizmente, apesar das excelentes interpretações de Ben Gazarra nem Saint Jack - baseado em um romance de Paul Theroux sobre intrigas sórdidas e mortais em Cingapura - nem a comédia romântica no estilo de Lubitsch Muito Riso e Muita Alegria/They All Laughed foram bem sucedidos nas bilheterias. Máscaras do Destino/Mask, entretanto, foi um sucesso, em grande parte por conta de sua história da luta de um adolescente contra uma doença degenerativa e deformante, transbordante de fácil e asfixiante sentimentalismo.

O declínio de Bogdanovich em meados dos anos 70 derivou, talvez, de sua incapacidade de evitar as armadilhas do sucesso repentino; certamente um romance com Cybill Shepherd o levou a escala-la equivocadamente em dois de seus piores filmes. No seu melhor, com orçamento reduzido e um roteiro forte, ele faria bem em se lembrar das lições dos anos iniciais.

Cronologia
Os exemplos das homenagens iniciais de Bogdanovich a mestres como Hawks, Ford e Hitchcock assegurou o caminho para os "fedelhos do cinema" posteriores, tais como Spielberg, De Palma, Scorsese e Carpenter. 

Leituras Futuras
Nada a comentar, mas algo de sua obra ainda continua disponível. 

Destaques
1. Na Mira da Morte, EUA, 1967 c/Boris Karloff, Tim O'Kelly, Bogdanovich

2. A Última Sessão de Cinema, EUA, 1971 c/Jeff Bridges, Timothy Bottons, Ben Johnson

3. Lua de Papel, EUA, 1973 c/Ryan O'Neal, Tatum O'Neal, Madeleine Kahn

4. Marcas do Destino, EUA, 1985 c/Cher, Eric Stoltz, Sam Elliott

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 29-30.

Filme do Dia: Permanent Residence (2009), Scud






Resultado de imagem para permanent residence scud poster
Permanent Residence (Yong Jiu Ji Liu, Hong Kong, 2009). Direção e Rot. Original: Scud. Fotografia: Herman Yau. Música: Teddy Robin Kwan. Montagem: Kwok-Wing Leung. Dir. de arte: Ron Heung. Com: Sean Li, Osman Hung, Jackie Chow, Yu Hong Lau, Zi Li Wei, Woon Ling Hau, Yui Yu Chung, Hoi Kai Luk.

Após um passado pobre, em que foi criado e amado mais pela avó que propriamente por sua mãe, Ivan (Li) parte da província para Hong Kong, tornando-se um bem sucedido no ramo da tecnologia em jogos. Um dia, em um programa de entrevistas é indagado de supetão pelo outro entrevistado, Josh (Chow) se ele é gay. Confuso com a pergunta inesperada, ele tergiversa. Pouco depois conhece numa sauna, Windson (Hung), jovem por quem se sente atraído mas que, ao perceber seu encanto por ele, afirma ser hétero. Ivan reencontra Josh em um bar gay e eles fazem sexo e mantém uma proximidade, porém ele continua obcecado por Windson, que não resiste aos encontros e a proximidade de Ivan, sempre deixando claro que o amor que possui por ele não se estende para o campo do sexo. Ivan perde sua avó. Ainda abalado, três dias após sua morte, Windson diz que quer se afastar dele. Quando Ivan pensa em pular do alto de seu apartamento, recebe uma ligação de Josh, afirmando que estará indo visitá-lo. Ivan propõe então que ele vá visitar Josh, em Israel. É o que faz, mas sua viagem é interrompida com a notícia que a mãe de Windson, a quem fez tratar por um dos melhaores oncologistas do país, encontra-se em estado terminal. Windson fica grandemente grato a ele. Tempos depois, com Ivan morando na Austrália e agora na carreira de cineasta, visita-o para lhe pagar o jantar que sua mãe afirmara que ele devia a Ivan. Quando deixa Ivan, suicida-se dirigindo sua moto contra o mar.

Inicialmente, o que apontava ser uma singela narrativa voltada para o passado, algo próxima da cinebiografia de Pasolini Un Mondo d’Amore,  resvala para o kitsch e o sentimental de forma quase grotesca, explorando de forma praticamente inédita no cinema de Hong Kong a nudez frontal masculina com a mesma obsessão de seu personagem, aliás, alter-ego do cineasta. Porém, essa ousadia não apenas se conforma ao voyeurismo habitual de corpos masculinos jovens e atraentes presentes na produção de filmes com a temática gay universalmente (a exemplo do cinema queer francês), como a “relação” gay não chega de fato a sê-lo, sendo antes uma fantasia do protagonista vinculada à ambiguidade do amigo. Se ao início da aproximação entre os dois havia muitos elementos que sugeriam uma imaturidade emocional de ambos, ressaltada na banda sonora por melosas canções, afastando-se de vez da singeleza inicial, essa persistência ao longo de parte da trajetória de vida de ambos aponta para a ênfase numa solidão de dimensão narcisista-masoquista em que afeto e sexo não chegam a se conjugar de fato. Que o personagem que fora o grande amor de sua vida – ao menos até onde se acompanha a história e o epilogo que ocorre no futuro, ainda o observa solitário como sempre, não desmentindo a hipótese – se autodestrua, sem nunca se vincular afetivamente as mulheres com as quais se envolveu, e das quais não se tem acesso pela narrativa, que parte evidentemente do ponto de vista do alter-ego do cineasta, chegando esse, a determinado momento a comentar sobre os dois outros títulos que conformam uma trilogia e que se seguirão a esse, mas tampouco consiga assumir nada em relação a Ivan também é bastante sintomático. Não se trata, como em O Segredo de Brokeback Mountain, de um amor concretizado e mútuo, mas impedido pelas convenções sociais de sua época. Antes de uma fantasia em que as distinções de classe e cultura – Windson a todo momento se diminui diante do amigo – também são elementos a reforçarem ainda mais certa vacuidade que nunca será  completada por tolas canções sentimentais ou banhos abraçados em constante e perverso senso de “coito interrompido” ou, melhor dizendo, nem mesmo iniciado. Destaque para a dispensável apresentação futura dos personagens, incluindo a morte do próprio Ivan. Artwalker para Golden Scene. 115 minutos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Filme do Dia: O Grande Momento (1958), Roberto Santos


Resultado de imagem para o grande momento 1958 poster

O Grande Momento (Brasil, 1958). Direção: Roberto Santos. Rot. Original: Roberto Santos sobre o argumento de Norberto Nath. Fotografia: Hélio Silva. Música: Alexandre Gnatalli sobre tema de Zé Ketti. Montagem: João de Alencar. Dir. de arte: Norberto Nath. Com: Gianfrancesco Guarnieri, Myriam Pérsia, Vera Gertel, Jaime Barcellos, Paulo Goulart, Turíbio Ruiz, Norah Fontes, Angelito Mello.

              Zeca (Guarnieri) é um jovem que sofre com as dificuldades financeiras da família para que sua festa de casamento com Ângela (Pérsia) seja bem sucedida. Para tanto, ele surrupia umas economias do pai, vai atrás do dinheiro de um trabalho que havia realizado para um circo e chega mesmo a vender sua bicicleta, um dos objetos que mais aprecia. Só assim consegue comprar todos os comensais para a festa e pagar o aluguel do terno. A festa, inicialmente bem sucedida, transforma-se numa imensa baderna quando Zeca sai a procura do amigo Vitório (Goulart), que havia ficado de pagar o restante do dinheiro da bicicleta na festa e a família da noiva acredita que ele abandonou Ângela, ocorrendo uma grande briga entre a família da noiva e a família e amigos de Zeca. Ao final, quando partem em lua-de-mel para Santos, Ângela desiste da viagem quando o recém marido lhe conta sobre todas as dificuldades financeiras que vivencia.

      Juntamente com os filmes de Nélson Pereira dos Santos - que foi o produtor desse filme – Rio 40 Graus e Rio Zona Norte, também da segunda metade dos anos 1950, é considerado como um marco rumo a um cinema brasileiro de preocupações com a temática social que desencadearia na produção do Cinema Novo da década seguinte. O resultado irregular, consegue ser mais bem sucedido na sua primeira metade, em que há uma presença maior de um certo tom dramático e desesperançado que na metade final, focada sobretudo no ambiente da festa, em que envereda pelo estilo comédia de costumes a partir de sua visão dos valores provincianos da classe média baixa (um tipo de humor a partir de ambientes fechados e temporalidades reduzidas que parece ter influenciado boa parte da obra do cineasta Ugo Giorgetti) e que soa mais datado. Entre os seus melhores momentos, o toque de poesia associada a uma espécie de heroísmo resignado das classes populares, típico da produção neorrealista, que visivelmente influenciou o filme, presente na viagem em que o protagonista se despede de sua bicicleta. A influência da estética  da escola italiana também pode ser percebida na sua opção por uma trama que valoriza pequenas ações em detrimento dos elementos espetaculares associados aos filmes de gênero convencionais.  Realizado com o apoio do grupo teatral Arena. Nélson Pereira dos Santos Prod. Cinematográficas. 80 minutos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Filme do Dia: Passaic Falls, New Jersey (1896), James H.White






Passaic Falls, New Jersey (EUA, 1896). Direção: James H. White.

Plano fixo que destaca a monumentalidade das cachoeiras e com uma ponte que cruza próximo das mesmas em primeiro plano. Se por um lado as maravilhas do mundo moderno atraíam as lentes dos cinegrafistas e as maravilhas da natureza por outro, aqui a proeminência dada a ponte na imagem possui seu que de ambíguo, pois o cinegrafista poderia ter escolhido outro ângulo que não a destacasse, mas sim as próprias quedas d’água. Esse marco da presença humana em meio à natureza, no entanto, é incorporado de forma algo discreta, quase como um detalha a mais a realçar a beleza do “quadro”, e para que isso aconteça sem maiores impedimentos, a ponte se encontra deserta de transeunte ou qualquer veículo (provavelmente ferroviário) que fizesse uso dela, acentuando o tom bucólico como um todo. Sensação que só veio a ser perturbada pela inconstância da imagem, agravada com o tempo, provocando uma sensação semelhante a de um tremor de terra. As mesmas quedas voltaram a ser filmadas no ano seguinte, pela International Film Co. 20 segundos.