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#ELENÃO

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Filme do Dia: Ding Dog Daddy (1942), Friz Freleng




O clima é propício a paixão. Um cachorro observa dois pássaros se amando até ser invocado a respeitar a privacidade do casal. Logo depois ele fica vidrado em uma cadela de porte aristocrático que o esnoba e, por fim, cai de paixão pela esguia estátua de uma cadela que adorna o jardim de uma mansão. Porém, em meio aos seus festejos delirantes, não percebe que a casa possui um cão de guarda feroz. E, após vários enfrentamentos com o mesmo, observa seu objeto de amor ser levado pelo caminhão para uma fábrica em que será reciclada em material de guerra, no caso bombas. O cão consegue em meio a milhares de bombas encontrar a sua Daisy
O jovem tolo e enamorado não apenas remete satiricamente aos excessos românticos como ainda, a seu modo, replica, na figura de um cão que é o suprassumo do amor não correspondido, ao eleger para objeto de seu amor mais ardorosamente fiel um ser inanimado, como se deixasse evidente sua impossibilidade de se relacionar afetivamente de forma normal com qualquer outro da sua espécie. A figura do abilolado que foge dos padrões convencionais de comportamento, sendo tratado habitualmente (não aqui) com paternalismo ou pouco caso, apresenta-se também acrescida de um caráter sentimental e algo melancólico wertheriano. Esse curta apresenta uma das poucas tiradas originais para o esforço de guerra, no momento em que esse é referenciado em várias outras animações do período. Com sua miríade de referências intertextuais, esse título é extraído de uma canção de sucesso da época. Leon Schlesinger Studios para Warner Bros. 7 minutos e 40 segundos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Filme do Dia: Cuenca (1958), Carlos Saura




Cuenca (Espanha, 1958). Direção: Carlos Saura. Rot. Original: José Ayllon & Carlos Saura. Fotografia: Juan Julio Baena, Carlos Saura & Ántonio Alvarez. Música: José Pagán & Antonio Ramírez Angel. Montagem: Pablo G. del Amo.
Documentário em que Saura apresenta um retrato algo bucólico da referida província espanhola que dá título ao mesmo. Com a predominância da cor amarela na paisagem, parte-se de monumentais panorâmicas de suas paisagens para as comunidades que na região vivem, ocupando-se inicialmente da prática da extração de madeira (acompanhada por um técnico, como afirma o onipresente narrador over, para evitar a extinção já observada em vários montes) e seu transporte. Posteriormente se passa a acompanhar o cultivo do trigo, que ocorre de forma intensa durante um curto período, antes que o sol escaldante o seque. Finalmente se chega a própria capital da província de mesmo nome, que de longe mais parece uma cidadela medieval a beira do despenhadeiro. A histeria coletiva provocada pela festa em que um touro é solto no meio das ruas e a multidão o provoca e o teme ao mesmo tempo, em um jogo de risco (não tão calculado) e excitação, vida e morte a se embaralhar.  Embora a morte também ronde região tão inóspita, é apresentada de forma muito diversa do documentário menos convencional Las Hurdes, de Buñuel. Uma procissão de bonecos gigantes propicia o momento talvez mais distinto do filme, quando atravessam uma ponte. A procissão da semana santa vem a seguir e se estende por um período relativamente longo do documentário, indo até praticamente seu final. Embora seja situada na região de La Mancha, a referência a um moinho é bastante discreta.   Narrado por Francisco Rabal, ator que além de inúmeras participações em películas populares, trabalhou com realizadores como Buñuel (Nazarín) e Antonioni (O Eclipse), sem falar do próprio Saura (Goya). Aparentemente a versão original é 6 minutos mais longa.  Estudios Moro. 38 minutos.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Filme do Dia: Eu Sou o Senhor do Castelo (1989), Régis Wargnier



Eu Sou o Senhor do Castelo (Je Suis Le Seigneur du Château, França, 1989) Direção: Régis Wargnier. Rot.Original: Alain Le Henry&Régis Wargnier. Fotografia: François Catonné. Música: Serguei Prokofiev. Montagem: Geneviéve Winding. Com: Jean Rochefort, Dominique Blanc, Régis Arpin, David Behar.
           Thomas Breud (Arpin), vive sozinho - após a perda da mãe -  em um grandioso castelo com seu pai (Rochefort), porém Monsieur Breud resolve contratar uma governanta, para que de certa forma supra a carência afetiva do jovem. Madame Vernet (Blanc), e seu filho Charles (Behar), cujo pai provavelmente morreu na Indochina, juntam-se a eles. Atraído logo à primeira vista por Madame Vernet, Monsieur Breud faz de tudo para que a convivência entre eles seja a mais agradável, porém a insistente perseguição de seu filho a Charles culmina com a decisão de sair do castelo. Charles, por sua vez, empreendera uma expedição a floresta que cerca o castelo, onde subjuga o frágil e mimado Thomas. Porém, para não ficar por baixo, este mostra a Charles, após sair do hospital (já que quebrara a perna na aventura), que sua mãe anda se encontrando furtivamente com Monsieur Breud e elabora uma representação em que ele faz o papel do pai e Charles o de sua mãe, sendo flagrados por Madame Vernet.
Procurando realizar um pretensioso estudo psicológico do espírito infantil à altura da elaborada fotografia, Wargnier descamba para o esquematismo fácil seja na construção dos personagens e facilidades do roteiro (a paixão à primeira vista de Monsieur Breud por Madame Vernet, o caráter dual extremamente rígido da personalidade dos garotos, o fato de um não ter o pai, enquanto o outro carece de mãe, etc. ) seja na montagem abrupta de efeito aliada a música de Prokofiev que pode até causar algum impacto à primeira vista, mas que não se sustenta em uma revisão. O filme arrasta-se de forma extremamente aborrecida e procurando sempre destacar todos os tiques quanto a ser um “filme de arte”. Bem melhor resultado conseguiu Yves Robert do universo infantil, embora com a vantagem de lidar com material superior (a obra de Marcel Pagnol),  com seus A Glória de Meu Pai (1990) e, principalmente, O Castelo de Minha Mãe (1991). Prêmio do Júri nos festivais de Cannes e San Sebastian. AAA Productions. 90 min.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Filme do Dia: The Vicar of Wakefield (1910), Theodore Marston




The Vicar of Wakefield (EUA, 1910). Direção: Theodore Marston. Rot. Original: Oliver Goldsmith. Com: Martin Faust, Frank Hall Crane, Anna Rosemond, William Garwood, Marie Eline, Bertha Blanchard, Lucille Young, William Russell.
O Vigário de Wakefield (Faust) descobre que sua filha fugiu com um conquistador que forjou um falso casamento. Desesperado, ele entra em depressão e contrai dívidas na sua busca pela filha. Quando essa retorna para casa, desgostosa com o marido negligente e irresponsável, o pai se encontra pendurado em dívidas e tem sua casa confiscada e vai parar na prisão. Lá, ele recebe a boa notícia que a filha fora de fato casada pelas mãos de um pastor verdadeiro e que o seu marido, influenciado pelo pai dele, havia decidido reconsiderar e pedir perdão a jovem.
Esse melodrama típico do período, com seus gestos de desespero e alívio grandiloquentes, soma a tudo isso a pouco convincente solução final para um happy end – talvez não tão parcial assim como pareça inicialmente, já que subentende que a fortuna da família do marido irá fazer com que a família do vigário saia da lama. Um dos detalhes mais curiosos é o símbolo da companhia presente nos cenários – até numa árvore! – buscando evitar as versões piratas de companhias concorrentes, numa antecipação em décadas dos logotipos estampados na imagem das cadeias de TV.  Um dos primeiros títulos da curta carreira de Marston. Thanhouser. 13 minutos e 38 segundos.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

The Film Handbook#194: Andy Warhol

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Andy Warhol
Nascimento: 06/08/1928, Pittsburgh, Pensilvânia, EUA
Morte: 22/02/1987, Nova York, Nova York, EUA
Carreira (como diretor): 1963-1973

A importância do cinema de Andrew Warhol reside menos em seu conteúdo (que em termos de ação é frequentemente mínimo, a bem da verdade) que no modo que sua (ausência) de marca estilística provoca questões sobre a natureza do próprio meio cinematográfico. Talvez torne-se apropriado, assim sendo, que sua relação com o cinema comercial seja também primordialmente conceitual.

Famoso por suas pinturas de latas de sopa Campbell e seus múltiplos retratos em silk-screen de Marilyn Monroe, Warhol já era um estabelecido artista pop quando passou a realizar filmes em 1963. Como em sua arte gráfica, muitos dos filmes que realizaria nos anos seguintes se distinguiriam por sua preocupação com as superficialidades aparentes e sua total negação de um ponto de vista autoral: a câmera, frequentemente estática, foi simplesmente um meio de registro passivo, em relação a tudo que o olhar desinteressado de Warhol captasse. Sleep, de seis horas de duração, apresentava um homem nu em uma cama de uma variedade de ângulos. Kiss uma diversidade de casais se beijando, cada plano durando os três minutos de um rolo de 16 mm; Empire foi um registro estático de oito horas do Empire State Building. Ainda quando a adoção do som permitiu a inclusão de diálogos, Warhol preferia os crus e frequentemente tediosos improvisos a uma narrativa estruturada: em Harlot, o travesti Mario Montez senta-se comendo bananas próximo de uma mulher com um gato em seu colo, enquanto a banda sonora, grandemente incompreensível, torna-se mal relevante para o que vemos, sendo os gracejos de três amigos de Warhol que se encontravam fora do quadro; e em Vinyl que, como muitos de seus filmes, meramente registra poses de vários membros do círculo social da Factory de Warhol, quando a câmera tomba, é simplesmente redirecionada à sua posição original; sem a interrupção da montagem, a continuidade da ação é preservada.

Da mesma forma que Warhol negligenciava a técnica tradicional e elegante, igualmente ignorava enredos convencionais em favor de erráticos monólogos confessionais e interpretações camp pelas "superstars" (parasitas, travestis, drogados, artistas, etc.) que o rodeavam. O sexo assoma tanto visual quanto verbalmente, como se fosse uma imitação das estrelas da Velha Hollywood. Chelsea Girls>1, filmado para tela dupla, observava secamente as atitudes de figuras como Marie Menken, Mary Woronov e Nico; Bike Boy> documentava um breve encontro sexual entre um estudante de Los Angeles e figuras habituais de Warhol como Viva, Ingrid Superstar e Brigid Polk; Blue Movie (Fuck) apresentava Viva e Louis Waldron improvisando sexo juntos; em Lonesome Cowboys>3, Viva é estalajadeira de um grupo de homens gays vestidos de cowboys em estilo camp, em uma cidade-fantasma do Arizona para criar uma algumas vezes hilária paródia dos clichês do western.

Abalado pelos tiros sofridos por um atentado contra sua vida, em 1967, Warhol se tornou mais recluso, frequentemente abandonando o trabalho de direção para seu assistente e câmera de longa data Paul Morissey, tornando-se ele próprio produtor. Embora as personalidades e os estilos de vida não direcionados descritos em suas obras anteriores permaneceram, uma crescente ênfase em narrativa e motivações, somada a um trabalho de câmera e montagem mais convencionais resultaram em filmes com um potencial comercial bem maior. O desarticulado e atraente Joe Dallesandro se tornou um letárgico objeto sexual, prostituindo-se com clientes gays para receber dinheiro para o aborto da namorada de sua esposa em Flesh, tentando recuperar sua destreza sexual destruída pelas drogas, em Trash, e atuando em uma paródia decadente de Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard (com Sylvia Miles como a diva do cinema que pretende retornar) em Heat. Ainda que ocasionalmente engenhosos os filmes, em última instância, fracassaram, tanto em termos de rigor conceitual que não possuíam, quanto entretenimento comercial. Morrissey é um realizador muito desleixado para rivalizar com seus colegas comerciais. Mais provocativamente divertido em seu uso dos travestis Holly Woodlawn, Candy Darling e Jackie Curtis na descrição de mulheres cujos sonhos de estrelato são arruinados foi Women in Revolt>4, dirigido pelo próprio Warhol. Após as filmagens de L'Amour em Paris, no entanto, ele aposentou-se por completo das realizações cinematográficas, meramente emprestando seu nome para as sátiras de horror grotesco de Morrissey Carne para Frankenstein/Flesh for Frankenstein (realizado em 3-D) e Sangue para Drácula/Blood for Dracula e para a grotesca paródia de novela Bad.

Enquanto a extensão crua e qualidade intencionalmente amadora de muitos dos primeiros filmes de Warhol tornam-os quase inassistíveis, eles permanecem centrais para qualquer discussão do que constitui o realismo no cinema; ainda que a câmera observe as pessoas ininterruptamente, mais que atores, em estilo semi-documental, a questão da "realidade" é complicada pela prevalência de atuações. Morrissey, por sua vez, é de menor importância artística e filosófica.

Cronologia
Mesmo sendo frutífero comparar Warhol com o underground norte-americano de realizadores como Kenneth Anger, Stan Brakhage,Michael Snow e Shirley Clarke (dentre outros), para não mencionar europeus tais como Godard e Jean-Marie Straub, sua obra posterior com Morrissey pode ser comparada com a de diretores semi-underground como George Kuchar, John Waters, Paul Bartel e mesmo Russ Meyer.

Destaques
1. Chelsea Girls, EUA, 1966 c/Mary Woronov, Ingrid Superstar, Gerard Malanga

2. Bike Boy, EUA, 1967 c/Joe Spencer, Viva, Brigid Polk, Ingrid Superstar

3. Lonesome Cowboys, EUA, 1968 c/Taylor Mead, Louis Waldron,Viva, Joe Dallesandro

4. Women in Revolt (Sex), EUA, 1972 c/Holly Woodlaw, Candy Darling, Jackie Curtis

Texto: Andrew, Geoff. "The Film Handbook". Londres: Longman, 1989, pp. 265-6

Bruno Ganz 1941-2019

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Um dos maiores atores europeus de sua geração se foi...ficam notáveis suas interpretações seja para Wenders, como o notável e pacato emoldurador de O Amigo Americano ou um anjo sobre Berlim que como a Caetano, tantos encantou em Asas do Desejo, seja como Hitler no filme pelo qual é mais lembrado, mas nem de longe um dos melhores que fez em sua carreira, A Queda! As Últimas Horas de Hitler. Ou ainda o caçador do vampiro Nosferatu, dentre tantas...

Filme do Dia: Riocorrente (2013), Paulo Sacramento


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Riocorrente (Brasil, 2013). Direção e Rot. Original: Paulo Sacramento. Fotografia: Aloysio Raulino. Música: Paulo Beto. Montagem: Idê Lacreta & Paulo Sacramento. Dir. de arte: Akira Goto.  Com: Roberto Audio, Simone Iliescu, Lee Taylor, Vinícius dos Anjos.
Renata (Iliescu) se divide entre dois amantes, Marcelo (Audio), sofisticado jornalista e crítico cultural e Carlos (Taylor), experiente arrombador e ladrão de automóveis, pai do garoto negro Exu (dos Anjos), a quem ocasionalmente chama para andar com ele de moto. Após uma briga fenomenal  que sinaliza para o fim da relação entre Marcelo e Renata, essa assiste uma apresentação musical, Marcelo dirige seu carro após ter chorado e Carlos arromba o apartamento de Renata, destruindo objetos e pichando a parede. Posteriormente pede um carro emprestado a um colega de oficina e parte com Exu para os arredores de São Paulo.

Esse que é o  seu primeiro filme em dez anos e primeira incursão ficcional de Sacramento, mais conhecido como montador (de, entre outros, Quanto Vale ou é Por Quilo? Cronicamente Inviável, ambos de Sérgio Bianchi) padece de vários males que parecem todos, canalizar em direção a uma pretensão grandiloquente de tentar expressar algo sobre a realidade contemporânea brasileira a partir de seus duplamente frágeis personagens – frágeis eles próprios na existência do universo ficcional mas ainda bem pior, frágeis enquanto elaboração ficcional: tão frágeis quanto seus insípidos nomes, que de forma alguma parecem derivar de um mundo real nem tampouco sinalizarem para nenhuma elaboração solidamente alegórica sobre o mesmo. O que resta soa mais como projeções errantes de ideias que não parecem ter ido além do roteiro, tornando-se completamente opacas quando efetivamente encenadas. Assim, de nada adianta ângulos interessantes como o que colhe a briga final entre Marcelo e Renata de longe da janela de seu apartamento ou as boas trucagens visuais que transformam Carlos numa tocha humana ou o Tietê se transformar em um fogo só ao final, tal como uma tocha olímpica, quando a contraparte disso, em termos dramáticos, soa anêmica, esvaziada de qualquer sopro de vitalidade, clichê. Como é o caso do próprio enfrentamento final de Marcelo e Renata –vivida com garra, diga-se de passagem, por Iliescu.  Soçobra pretensão e um exagero excessivo do subjetivo reverberado de forma demasiado literal e crua em imagens, correndo-se o risco de resvalar para o humor involuntário tal como o contemporâneo, irregular, mas ainda melhor Boa Sorte, Meu Amor. Olhos de Cão/Saracura/Tc Filmes. 79 minutos.

Postado originalmente em 26/09/2016

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Filme do Dia: Quebrando o Silêncio (1999), Sun Zhou


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Quebrando o Silêncio (Piao Liang Ma Ma, China, 1999). Direção: Sun Zhou. Rot. Original: Liu Heng, Shao Xiaoli & Sun Zhou. Fotografia: Lu Yue. Música: Zhao Jiping. Montagem: Nancy Muqing & Zhai Ru. Dir. de arte: Quan Rongzhe. Figurinos: Qi Guo & Zhao Yuxing. Com: Gong Li, Gao Xin, Shi Jing-Mi, Guan Yue, Yue Xiuqing, Li Chengru, Lu Liping, Lei Quesheng, Ling Qing.
          Zheng Da (Xin) sofre discriminação na escola por parte dos professores e dos alunos por ser surdo. Ele não passa nos exames e sua mãe, divorciada e dedicada a lhe favorecer educação, Sun Liying (Li) fica apavorada quando o filho quebra o equipamento auditivo em uma briga com outras crianças. Ela não possui dinheiro para comprar outro. O ex-marido de Sun, Zheng Peidong (Yue), displicente com relação à ajuda à família, morre em um desastre de automóvel. Sun que tentara, sem maior sucesso, trabalhar no mercado informal, decide entregar jornais e fazer faxina. Numa das casas torna-se vítima de abuso sexual, mas consegue o dinheiro que necessita para comprar o aparelho do filho. O professor de Zheng na escola, Fang Ziping (Jing-ming), admirado pela determinação de Sun em ajudar seu filho, interessa-se cada vez mais pela família.
Esse drama de colorações neorrealistas no conteúdo, embora de postura mais convencional, em termos estilísticos, apresenta uma outra faceta que boa parte dos realizadores chineses contemporâneos voltaram às costas: muitas das dificuldades típicas dos países regidos pela economia de livre mercado aqui são expostas, como a questão do desemprego e da dificuldade de ter acesso aos bens básicos. Partindo de um universo proletário, em oposição à classe média alta retratada nos dramas de costumes de Qi Jian e Zheng Xiaolong, o filme, ainda que carregado de um certo teor emocional manipulativo, consegue fugir dos excessos sentimentais de boa parte da produção chinesa, utilizando-se bem do recurso à elipse, evitando uma resolução que, embora apontando para uma futura relação entre Sun e o professor e a aprovação de Zheng na escola, não a explicitam. Ao mesmo tempo, também afirma com bastante ênfase, os dramas centrados na classe média alta, o momento de emancipação feminina, que aqui é vivenciado para além dos problemas emocionais. A certo momento, Sun declara emblematicamente que agora não possui nem mais ao Estado nem ao marido a quem recorrer. Vivenciando uma protagonista no estilo Mãe Coragem, Gong Li, a ex-musa do renomado cineasta Zhang Yimou, consegue uma notável interpretação, evitando os excessos. 90 minutos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Filme do Dia: O Homem do Morcego (1980), Rui Solberg




O Homem do Morcego (Brasil, 1980). Direção: Rui Solberg.
O maior mérito desse curta é ter sido o único registro áudio-visual do habitualmente arredio Mário Peixoto, que aqui fala um pouco sobre idéias que desenvolveu para Limite (1930), revisitando algumas das locações do filme, enquanto ao mesmo tempo se interessa em visitar um grupo de atrações mambembe à margem da praia. Antenado com as vanguardas europeias, fala sobre a origem da famosa cena das mãos algemadas ressaltando um certo charme próximo que busca alguma vinculação com a psicanálise, também explorada contemporaneamente por Buñuel e realizadores da vanguarda francesa, ao afirmar que “não sei porque” incluiu tal cena, embora pouco antes tenha revelado a imagem que lhe serviu de inspiração. 21 minutos.