Filme do Dia: O Cemitério das Almas Perdidas (2020), Rodrigo Aragão

 O Cemitério das Almas Perdidas (Brasil, 2020). Direção e Rot. Original: Rodrigo Aragão.Fotografia: Alexandre Barcelos. Música: João MacDowell. Montagem: Thiago Amaral. Dir. de arte: Eduardo Cárdenas. Cenografia: Alzir Vaillant, Jorge Allen & Ulisses Debian. Figurinos: Regina Schimitt. Com: Carol Aragão, Renato Chocair, Diego Garcias, Francisco Gaspar, Markus Konká, Allana Lopes, Thelma Lopes, Caio Macedo, Clarissa Pinheiro, Roberto Rowntree.

Após massacrar uma tribo inteira, um jesuíta que se acredita Cipriano (Chocair) , crê-se dotado de poderes sobrenaturais, adquiridos através de um livro demoníaco, transformando-se em um líder de zumbis, quando os indígenas tentam resgatar a bela Aiyra (Lopes). No futuro, Jorge (Garcias), integrante de uma trupe circense, possui sonhos recorrentes com ninguém menos que a jovem Aiyra. E após uma apresentação  em que a plateia abandona o local assustada e o repúdio de um grupo de beatas, o próprio grupo se torna vítima dos zumbis que vivem no cemitério amaldiçoado.

Haverá um custo alto ao se invocar o sanguinolento passado colonial brasileiro, que tem sido motivo de várias incursões recentes no cinema de seu país, em filmes (O Som ao Redor, Trabalhar Cansa) que se aproxima mais ou menos dos códigos mais facilmente identificados com alguns gêneros (suspense, terror)? E, ainda mais ousadamente, não apenas invocar, mas articular mesmo a maior parte de sua narrativa ou nele ou numa eterna atualização do mesmo? Depende da perspectiva e da compreensão melhor do universo gore, pois é sobre ele que se sustenta, em última instância, essa produção, onde não falta criatividade em seu roteiro e sua produção visual, mas que também tem como efeito reverso a pobreza estrutural de suas atuações e o labiríntico espiralar de suas fantasias em relação à história, compreendida aqui no sentido estrito, a que é narrada pelo filme, mas também lato. O que transforma esse pequena sinopse acima algo extraído a custo e não sem se cruzar com vários subenredos e vindas e voltas em ambas as histórias recém-mencionadas igualmente, sendo um deles, o inicial, envolvendo um grupo circense mambembe (que poderia ter uma longínqua conexão com Bye Bye Brasil) em obsolência.  E aí faz todo sentido que o filme seja dedicado a quem foi, José Mojica Marins. Seria redundante dizer que é a estética do excesso que permeia tais filmes, sejam onde forem produzidos. Filmes que zumbis possuem algum protagonismo não costumam se dobrar a sutilezas. Tudo é excessivo. Os clichês, o sangue, os filtros utilizados para as nuvens que se arrodeiam do castelo sinistro. O próprio castelo sinistro, que nada fica a dever às maquetes de alguns filmes de horror do período mudo ou das produções B dos anos 60, guardadas as proporções.  E é no superlativo dos urros, safanões e das grossas camadas de máscaras e muito sangue coagulado, borbulhado, jorrado e gargarejado que o filme pretende realizar seu espectador-alvo. E o faz com relativa qualidade em relação à média internacional e aparentemente apelando pouco para o CGI, ou seja, os efeitos visuais, o que torna tudo mais trabalhoso. E, seu final também traz um arranjo criativo em meio a tanto esfacelamento de corpos de vivos ou mortos-vivos. Fábulas Negras. 95 minutos.

 

 


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