Filme do Dia: Dom (2003), Moacyr Góes
Dom (Brasil, 2003). Direção:Moacyr
Góes. Rot. Adaptado: Moacyr Góes,
Reinaldo Moraes, Marco Ribas de Farias & David França. Fotografia: Toca
Seabra. Música: Dinho Ouro Preto & Ary Sperling. Montagem: João Paulo
Carvalho & Aruanã Cavalleiro. Dir. de arte:
Paulo Flaksman. Cenografia: Ana Schler. Figurinos: Maria Dias. Com: Marcos Palmeira, Maria Fernanda Cândido, Bruno Garcia, Malu
Gelli, Luciana Braga, Isabela Coimbra, Thiago Farias.
O melhor amigo de Bento, mais
conhecido como Dom (Palmeira), Miguel, acaba o reencontrando para satisfazer os
desejos da amiga Danielle, que se encontra interessada em encontrar namorado.
Produtor de comerciais, Miguel convida Dom para a realização da produção que
está dirigindo e involuntariamente provoca o reencontro entre Dom e uma antiga
paixão da infância, Ana (Cândido), a quem chamava de Capitu. Embora se encontre
vivendo um relacionamento de dois anos, Dom resolve viajar de São Paulo até o
Rio apenas para revê-la. Ela, ainda que também vivendo uma relação no momento, envolve-se
e os dois decidem viver juntos, inclusive tendo um filho, Joaquim. Porém, a
relação repleta de estabilidade emocional e profissional é corroída pelos
ciúmes intensos que Dom nutre do melhor amigo. O auge da crise do casal se dá
quando Dom viaja inesperadamente ao Rio e flagra Ana comemorando a filmagem ao
lado de Miguel. Decide que ela não pode mais tocá-lo. Assustada e chorosa, Ana decide
fugir com Joaquim para o Rio e deixa para Dom um bilhete e o exame de DNA que
comprovaria a paternidade da criança, mas morre em um acidente de automóvel no
caminho. Dom decide queimar o exame e adotar a criança como sendo o último elo
que ainda poderia manter com Ana.
Essa adaptação para os dias de hoje do
clássico de Machado de Assis Dom Casmurro,
que já havia gerado uma adaptação mais poética, intensa e menos sofrível em Capitu (1968), de Paulo César Saraceni,
ressente-se sobretudo da falta de ambigüidade e sutileza que é essencial para o
romance. Nesse sentido, tudo que no filme ainda resta de atrativo é proveniente
da fonte original que das interpretações canhestras, de suas mal alinhavadas e
inverossímeis referências ao próprio texto literário assim como ao universo do
cinema (Jules e Jim, cujo cartaz é
visto no escritório de Miguel e que posteriormente virá a ser referido
implicitamente por Dom). Ao contrário do romance, em que se adota um ponto de
vista mais engajado com o protagonista, impossível de discernir portanto até
que medida tudo não se encontra completamente enviesado pelo ciúme doentio do
personagem, mesmo com toda a ironia subliminar, aqui o arrefecimento das
situações de ambigüidade e a sofrível construção da perspectiva do protagonista
transformam o mesmo em mero ciumento patológico. Tampouco o tom realista
cotidiano nas situações e diálogos, tendo como exceção somente constrangedores flashbacks que pretendem retratar o amor
infantil do par central, cenas pouco inspiradas de amor e a rasteira tentativa
de fazer menção ao próprio fazer cinematográfico chegam a atenuar o resultado
final. Falta, sobretudo, densidade e mesmo que o objetivo pretendido tenha sido
o oposto, tampouco se consegue uma leveza dignamente sustentável em meio a uma
narrativa tão esquemática. Diler & Associados/Labocine do Brasil Ltda./Quanta/Teleimage/Warner
Bros. 91 minutos.

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