O Dicionário Biográfico de Cinema#298: Dustin Hoffman

 


DUSTIN HOFFMAN, n. Los Angeles, 1937

A persona cinematográfica  de Hoffman é reticente, mas obstinada. Ele é pequeno, e frequentemente tímido, mas há um núcleo forte de identidade que nunca vacila, nunca parece verdadeiramente ameaçada e nunca nos inunda com animação. Numa época de dinâmicos astros masculinos a jogarem os seus concorrentes de lado, Hoffman teve a coragem e mesmo a necessidade de ser inepto. Um liberalismo cauteloso, e por vezes piedoso espreita em sua antecipação por sofrimento nas duras mãos do mundo. Seu charme de cão abandonado resiste a vencedores ideologicamente radiantes; de fato, tem-se frequentemente a suspeita de que ele é mais um ator de caracterização que um protagonista. Coisas tem sempre acontecido a ele, como testemunha seu sucesso como a pessoa menos ativa em The Graduate [A Primeira Noite de um Homem]. Tem escolhido seus papéis cuidadosamente, evitando o produto padrão hollywoodiano e frequentemente empregando maquiagem ou disfarces para reivindicar o papel de uma atuação artesanal. 

Al Pacino possui todoa a autoridade do self evitada por Hoffman, e pode muito bem ter extraído algumas das melhores perspectivas de Hoffman por conta disso. Qualquer um deles poderia ter interpretado em Dog Day Afternoon [Um Dia de Cão], Serpico ou Scarecrow [Espantalho], mas somente Pacino conseguia evocar a paixão pelo poder em Michael Corleone ou o autocontrole impassível a impulsionar Bobby Deerfield. Hoffman não é crível como amante nas telas: ele não idealiza o suficiente a si próprio para o entusiasmo natural feminino.  É melhor como criatura confusa ou desolada carregada de um lado para o outro pelo destino. Talvez seu infórtunio seja raro nos atores do cinema americano, quando não convocados pelo desânimo sentimental de um bufão. Desde cedo, uma bondade impotente imperativa pairava na natureza de Hoffman, demasiado tímido ou seguro da aspereza do mundo para abertamente se aventurar. Mas tornou-se mais duro e controlador: em sua expressão rígida, podemos perceber o quão difícil é ele de ser dirigido.

Foi filho de um realizador de adereços cenográficos para a Columbia, e estudou música na Santa Monica City College, antes de atuar no Pesadena Playhouse. Mas repentinamente transferiria sua base e suas lealdades culturais para Nova York. Batalhou por lá por dez anos, na TV e teatro, antes de sua oportunidade. Curiosamente, já tinha quase trinta anos quando atuou em A Primeira Noite de um Homem (67, Mike Nichols). Parecia uma brilhante escolha de elenco, e Hoffman era muito apropriado como o foco entorpecido de desastres cômicos e oportunidades sexuais. Não é frequentemente percebido, mas é o único inocente no filme; um tratamento mais sutil ou que mais demandasse estaria vincualado a observa-lo como um arrogante insuportável. Foi menos plausível com a progressão do filme, quando a urgência do rapazinho supostamente o apossa. Mas a passividade não poderia deter a maré da Sra. Robinson. Ou manter sua própria reserva moral, de forma divertida e envolvente. 

Seu Ratso em Midnight Cowboy [Perdidos na Noite] (69, John Schlesinger) foi um deslumbrante conjunto de recursos técnicos tão desprovidos de emoção quanto cativantes de assistir. O roteiro, a direção e a atuação se contentaram em extrair o pathos que Ratso merecia do público, transformando-o em um exótico decadente mais que garoto de rua fracassado e trapaceiro crônico. Schlesinger é demasiado desleixado enquanto artista para fazer que Ratso emerja menos que adorável, mas Hoffman foi provavelmente capaz da maldade ao qual havia sido confiado. Foi um desperdício no inteiramente desnecessário John and Mary [John & Mary] (69, Peter Yates), uma das poucas concessões à síndrome dos grandes salários. Esteve próximo do seu melhor em Little Big Men [Pequeno Grande Homem] (70, Arthur Penn), gerenciando a velhice com facilidade a aproveitando as aventuras picarescas de um pária maltratado, tudo isto se tornando melhor por conta de sua própria negação do estrelato. Além do que, foi mais fácil aceitar Hoffman como relações-públicas de Penn que de alguém vivendo de fato ao longo do filme. 

Sentindo-se estabelecido e insatisfeito pelos empreendimentos hollywoodianos, teve um ano de experimentos estranhos: para a Itália para Alfredo, Alfredo (Alfredo! Alfredo!) (71, Pietro Germi); para a Inglaterra, para interpretar o graduado em matématica em Straw Dogs [Sob o Domínio do Medo] (71, Sam Peckinpah); e, na América, Who is Harry Kellerman and Why is He Saying Those Terrible Things About Me? [O Inimigo Oculto] (71, Ulu Grosbard, longevo amigo de Hoffman). 

Sob o Domínio do Medo foi o único dos três vistos pelo público amplo, e Hoffman não foi o elemento mais memorável em seu ritual mortal. Sua adoção da violência no clímax é mais problemática por conta de Peckinpah nunca parece ter explicado esta necessidade ao seu ator gentil e perplexo. A triunfante habilidade de Sob o Domínio do Medo é acentuada pela cautela de Hoffman. Ele luta como alguém sob ordens; nunca cede ao prazer da vingança ou orgasmo trêmulo de sangue. O único aspecto de seu personagem que funciona é o apelo da matématica; mas a dimensão cerebral do ator nunca pareceu conquistar Peckinpah. Hoffman pode nos chocar com seu seu apetite súbito pela destruição - mas Hoffman é tão improvável enquanto assassino quanto de marido da muito madura Susan George. 

Ele foi Papillon (73, Franklin Schaffner), mas enquanto Lenny (74, Bob Fosse) não pôde competir com filmes e gravações do próprio Lenny Bruce. O que parecia para  ser o seu filme mais importante proporcionou uma obra redundante e domada em que Hoffman ficou impressionado pela mistura de exibicionismo, paranóia, poesia e auto-destruição em Bruce. É sua interpretação mais sentimental. Como Carl Bernstein em All the President's Men [Todos os Homens do Presidente] (76, Alan J. Pakula), foi um modelo do detalhe, precisão e humor inexpressivo; mais, uma vez mais, os eventos atuais absolveram o ator de um envolvimento sério e deixaram a habilidade de Hoffman obscurecida pela presença imponente e chata de Redford. Marathon Man [Maratona da Morte] (76, Schlesinger) foi um mau filme sob todas as perspectivas e Hoffman poderia ter sido capaz de declinar. Também apareceu em Agatha [O Mistério de Agatha] (78, Michael Apted). 

Straight Time [Liberdade Condicional] foi originalmente um filme para Hoffman dirigir e atuar. Nos primeiros trinta minutos é surpreendentemente cru e incomum, e permite que Hoffman seja um homem  de meia-idade, cansado e ressentido com uma sociedade estúpida e legalista. Mas a sobrecarga forçou Hoffman a delegar à direção a Ulu Grosbard e a parte fraturada do filme foi o resultado da briga deles à medida que progredia. Hoffman processou o distribuidor, alegando interferência, mas aparenta muito mais que a mudança abrupta de tom e narrativa após cerca de trinta minutos foi a escolha e erro de Hoffman. 

Nos anos 80, Hoffman se tornou reconhecido como um dos grandes atores americanos. Para estes olhos, os filmes nem sempre apoiam a reivindicação. Mas Hoffman parece convencido, e se transformou em algu mais difícil trabalhar com ele por conta disso. Portanto, ganhou a reputação de ator algumas vezes ingovernável, levando os filmes a saírem do controle do diretor, e suas próprias dúvidas narcissísticas. Nos anos recentes, particularmente, os resultados não sugerem que o processo é bastante frutífe, mro.

Venceu o Oscar de mellhor Ator por Kramer vs Kramer [Kramer x Kramer] (79, Robert Benton), e então foi indicado por uma obra bastante inteligente em Tootsie (82, Sydney Pollack). Interpretou Willy Loman em Death of a Salesman [A Morte do Caixeiro Viajante] (85, Volker Scholondorff), com um bocado mais de auto-piedade e choramingas que eu gostaria.  (Esta produção foi observada por um documentário fascinante de 1985, Private Conversation, dirigido por Christian Blackwood, que apresenta o quanto de atenção foi prestada ao seu ator principal.

Ishtar (87, Elaine May) foi um desastre para todos, mas Hoffman rapidamente se recuperou para ganhar outro Oscar de melhor ator em Rain Man (88, Barry Levinson), como o irmão idiota do sábio Tom Cruise (alguns pensam que Cruise fez um melhor e menos obtrusivo trabalho). Hoffman fez uma ponta em Dick Tracy (90, Beatty), mas também realizaram quatro filmes que não foram sucesso de bilheteria e deixou o ator parecendo confuso ou irritado: Family Business [Negócios de Família]; Billy Bithgate [Billy Bathgate - O Mundo a Seus Pés] (91, Benton); Hook [Hook: A Volta do Capitão Gancho] (91, Steven Spielberg); e Hero [Herói por Acidente] (92, Stephen Frears).

Você pode observar a dúvida e a indiferença já postas, mas quando os anos noventa chegaram e foi triste de ver a tristeza e a estagnação no outrora dinâmico ator: Outbreak [Epidemia] (95, Wolfgang Petersen); como Professor em American Buffalo (96, Michael Corrente); Sleepers [Sleepers: A Vingança Adormecida]; Mad City [O Quarto Poder] (97, Costa-Gavras); bastante divertido fazendo Robert Evans em Wag the Dog [Mera Coincidência] (97, Levinson), o mais vivo que fez anos; Sphere [Esfera] (98, Levinson); e maluco como a Consciência em The Messenger: The Story of Joan of Arc [Joana D'Arc] (99, Luc Besson). 

Ganhou prêmios pelo conjunto da obra estes dias, mas o que devolveu em troca  foi Moonlight Mile [Vida que Segue] (02, Brad Silberling); um "gênio" asinino no terrível Confidence [Confidence - O Golpe Perfeito] (03, James Foley); The Runaway Jury [O Júri] (03, Gary Fleder), J.M. Barrie's Neverland [Em Busca da Terra do Nunca] (04, Marc Forster); I Heart Huckabee's [Huckabees: A Vida é uma Comédia] (04, David O. Russell). 

Ninguém parecia mais aposentado enquanto ainda trabalhava: Meet the Fockers [Entrando numa Fria Maior Ainda] (04, Jay Roach); Lemony Snickett's A Series of Unfortunate Events [Desventuras em Série] (04, Brad Silberling); o inexplicável Racing Stripes [Deu Zebra!] (05, Frederick Du Chau); bastante decente como Meyer Lansky em The Lost City [A Cidade Perdida] (05, Andy Garcia); Perfume: The Story of a Murder [Perfume: A História de um Assassino] (06, Tom Tykwer); Stranger than Fiction [Mais Estranho Que a Ficção] (06, Marc Forster); The Holiday [O Amor Não Tira Férias] (06, Nancy Meyers) - não creditado; Mr. Magorium's Wonder Emporium [A Loja Mágica de Brinquedos] (07, Zach Helm) - além das palavras; Kung Fu Panda (08, Mark Osborne e John Stevenson); uma voz em The Tale of Despereaux [O Corajoso Ratinho Despereaux] (08, Sam Fell e Robert Stevanhagen); namorando Emma Thompson em Last Chance Harvey [Tinha Que Ser Você] (08, Joel Hopkins). 

Fez trabalhos de áudio, tanto em Barney's Version [A Minha Versão do Amor] (10, Richard J. Lewis) and Little Fockers [Entrando numa Fria Maior Ainda], mas sua melhor coisa em anos recentes foi seu Chester Bernstein na série de TV Luck (11-12). Infelizmente, não foi renovada e assim Hoffman nunca teve a oportunidade adequada de se descobrir do que se tratava. Também ganhou seu primeiro crédito como diretor, Quartet [O Quarteto], um belo, decente e idoso filme, tão distante de Liberdade Condicional, onde de fato fez um tanto de direção para valer. 

Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2018, pp. 1238-42.


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