Filme do Dia: O Mundo Novo de Seriozha (1960), Georgiy Daneliya & Igor Talankin

 


O Mundo Novo de Seriozha (Seriozha, União Soviética, 1960). Direção Georgiy Daneliya & Igor Talankin. Rot. Adaptado Georgiy Daneliya, Igor Talankin & Vera Panova, a partir do romance da última. Fotografia Anatoli Nitochkin. Música Boris Chaikovski. Montagem P. Chechyotkna. Dir. de arte Valeriya Nisskayal. Maquiagem K. Yarmolyuk. Com Boris Barkhatov, Sergei Bondarchuk, Irina Skobtseva, Natalya Chechyotkna, Sergei Metelitsin, Yuri Kozlov, Alyona Dotsenko, Lyubov Sokolova.

Seriozha (Barkhatov) é um garoto que reage inicialmente mau ao novo companheiro de sua mãe, Maryana (Skobtseva), Korestelyov (Bondarchuk), mas depois é rapidamente conquistado por sua paciência e cumplicidade. Ele avisa que comprará o presente que Seriozha quiser, e ele deseja bastante uma bicicleta, item que se torna intensamente disputado com outros garotos. Alguns dos garotos um pouco mais velhos abandonam a pequena vila. Um deles parte em busca de melhor futuro em uma cidade maior. Outro é levado por um tio para seguir carreira na Marinha, contra sua vontade. Maryana se encontra grávida. O marido brinca com o enteado sobre se comprará um menino ou menina para fazer companhia ao garoto. Este anseia que seja outro garoto. Temeroso da reação caso seja menina, Korestelyov afirma que ele deverá proteger a irmãzinha dos outros garotos. No entanto, vem outro menino, Lyonya e o irmão mais velho se sente solitário com tantas atenções voltadas ao recém-nascido e, pior, a decisão de partirem para outra cidade e lhe deixarem aos cuidados de uma mulher que nem parente sua é, pois o padrasto encontrou um emprego lá e o garoto está com uma infecção na garganta. Porém, o que estava para se constituir como o dia mais triste na vida do garoto, subitamente se modifica radicalmente...

Será pela força dos tempos (o amadurecimento, a maior liberdade de abordagem após a dissolução da União Soviética ou pouco antes disso) que o cinema de Daneliya passou de abordagens quase insípidas da perspectiva infantil para sátiras nas quais o motivo maior a se rir ou ironizar era o próprio país (Kin Dza Dza, Nastya)? A perspectiva infantil já gerou alegorias excessivas e pouco articuladas (O Tambor) ou mais próximas de uma visão um pouco idealizada da infância – sob o olhar retrospectivo do adulto – como nesta produção, assim como inúmeras outras (O Frango, Meus Oito Anos), etc. Aqui nitidamente serve para uma crônica episódica a envolver desde amigos, dois deles partindo do convívio dos demais, um padrasto cineasta e por aí vai. Neste relato de eventos miúdos, provincianos, mas que se supõem repletos de humanidade, há um toque agridoce de memórias abrangentes o suficiente para resistirem a qualquer frase que as busque resumir, como a de um mundo desconhecido (a fazer jus ao título brasileiro) que é aberto ao garoto pelo padrasto, como sugere o IMDB, mas distante de envolver diversas outras situações tendo em conta personagens distintos e sem a mínima influência deste. E temas recorrentes de produções do tipo não faltam, como os que partem e os quem ficam (Os Boas Vidas, dos tempos de um Fellini ainda não contaminado de forma excessiva pelo próprio ego em Amarcord). E embora a concepção visual se encontre plenamente à serviço da narrativa, não o abandono de uns poucos momentos a ressaltar planos ponto de vista óticos do garoto, embora em níveis de relevância bastante distinta na narrativa – um a partir de ser uma testemunha ocular da briga de uma mãe com um garoto amigo, e a observamos pelo enquadramento ocasionalmente miúdo de onde Seriozha se esconde, e o outro a cena de euforia irrestrita quando fica sabendo que não será deixado para trás pelo restante da família, a partir de um rompante emocional não da mãe, mas do padrasto; neste quesito rompe-se também com alguns lugares-comuns já esperados, como o do padrasto enquanto figura de má índole ou da mãe como fonte de afeto primordial ou quase única do garoto.  A dupla de realizadores acerta a mão, evitando situações demasiado dramáticas. Longa de estreia de ambos realizadores (Daneliya havia realizado dois curtas antes). |Mosfim. 76 minutos.


 

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