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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

The Film Handbook #4: Jacques Tourneur

Nascimento: 12/11/1904, Paris, França
Morte: 19/12/1977, Bergerac, França

Nunca um realizador maior, Jacques Tourneur, no entanto, possuía estilo visual modesto e eloquente que o proporcionou transformar roteiros decentes em filmes superiores. Ainda que a maior parte da sua obra tenha sido no campo do filme-B, sua sutil inventividade e gosto acurado frequentemente produziram divertimento inteligente.

Filho do diretor de cinema mudo Maurice Tourneur, ele próprio um muito elogiado estilista visual, Jacques se mudou para Hollywood em 1914 com seu pai, em cujos filmes trabalhou como assistente e montador. Em 1928 retornaram à França onde, no começo dos anos 30, Jacques iniciou sua própria carreira como diretor com uns poucos filmes menores. Foi somente com seu retorno a MGM, onde realizou uma série de curtas, que encontraria o homem que transformaria sua carreira: enquanto diretor da segunda unidade de A Queda da Bastilha/A Tale of Two Cities, Tourneur trabalhou com Val Lewton que, nos idos dos anos 40 estabeleceu uma unidade especial na RKO com o propósito de produzir filmes de horror de baixo orçamento mas alta qualidade. Tourneur que já havia demonstrado alguma verve narrativa em seu Nick Carter - Superdetetive/Nick Carter, Master Dectetive, foi o diretor que Lewton escolheu para seus três primeiros filmes: Sangue de Pantera (Cat People)>1, sobre uma mulher que se acredita amaldiçoada quando sua sexualidade desperta, revelando uma rara habilidade para criar tensão através de sombras sugestivas e refinado simbolismo, enquanto A Morta Viva (I Walked with a Zombie)>2 transpôs o básico do enredo de Jane Eyre para as ilhas do Caribe, desmentindo seu ultrajante título com uma estranho e poético conto filmado sobre vodu e possessão espiritual. Ambos os filmes foram inteligentes, melancólicos e concisos; e após O Homem-Leopardo (The Leopard Man) -uma tentativa fracassada mas inteligente de repetir o sucesso de Sangue de Pantera - Tourneur abandonou Lewton e foi encarregado do primeiro papel principal de Gregory Peck, Quando a Neve Tornar a Cair (Days of Glory) e de um relativamente extravagante drama de costumes, o atmosférico filme de ação psicológico Idílio Perigoso (Experiment Perilous).

Desde então, Tourneur demonstrou uma preferência por westerns e filmes de ação noirs: nos mais antigos - Paixão Selvagem (Canyon Passage), O Testamento de Deus (Stars in My Crown) e o excelente Pelo Sangue de Nossos Irmãos (Great Day in the Morning) - geralmente  evitava a ação frenética e violência para  concentrar seus talentos visuais na beleza maciça da paisagem americana; enquanto em Fuga ao Passado (Out of the Past - Build My Gallows High)>3, um dos mais excitantes, poéticos e fatalistas filmes noirs jamais produzidos, revelou-se a si próprio igualmente à vontade com flashbacks complexos, sombras suspeitas e o romantismo assombrado do condenado e solitário detetive de Robert Mitchum. Em Expresso para Berlim (Berlin Express) ele fez semelhante bom uso de Robert Ryan, um trem e uma devastada Alemanha do pós-guerra, enquanto Garota de Sorte (Easy Living) foi uma pouco comum viagem ao cinismo moral, detalhando a tentativa de uma decadente estrela do esporte de se tornar uma esposa ambiciosa, extravagante e promíscua. Ao mesmo tempo, Tourneur podia divertir em cores berrantes e ação efervescente de pouco exigentes capas-e-espadas: tanto O Gavião e a Flecha (com um gracioso e atlético Burt Lancaster) e A Vingança dos Piratas (Anne of the Indies) foram exemplos cheios de vida e irônicos do gênero.

No final dos anos 50, as realizações de Tourneur foram mais irregulares e somente A Maleta Fatídica (Nightfall) - um eficazmente paranoico filme noir baseado em romance de David Goodis - e A Noite do Demônio (Night of the Demon)>4, um impressionante e atmosférico estudo sobre satanismo e sugestibilidade, a despeito dos planos de um monstro nada convincente terem sido inserido por insistência do produtor, provaram-se dignos de seu talento; mesmo as presenças de Price, Lorre e Karloff não foram capazes de inflamar Farsa Trágica (The Comedy of  Terrors). Seus outros trabalhos para o cinema (por essa época ele também estava dirigindo para televisão) foram completamente insignificantes e ele se aposentou em 1966.

Fazendo uso de sombras e composições pouco comuns, frequentemente com um detalhe narrativo em primeiro plano, Tourneur foi adepto em criar atmosferas de mistério e suspense, tanto humanos quanto sobrenaturais; ele também foi um talentoso e sucinto contador de histórias cuja habilidade para tornar mesmo material rotineiro em entretenimento superior não deve ser negligenciado.

Genealogia
É provável que Tourneur tenha herdado o talento visual do pai e que Lawton lhe tenha ensinado o valor do perigo que é ocultado e não apresentado; Ele pode ser comparado com realizadores de filmes-B negligenciados como Brahm, Farrow e Lewis, para não mencionar Robert Wise, outro discípulo de Lewton que obteve muito mais sucesso comercial. Schrader e Taylor Hackford refizeram, respectivamente, Sangue de Pantera e Fuga ao Passado.

Leituras Futuras
Val Lewton: The Reality of Terror (Londres, 1972), Joel Siegel.

Destaques
1. Sangue de Pantera, EUA, 1942 c/Simone Simon, Kent Smith, Tom Conway

2. A Morta-Viva, EUA, 1943 c/Frances Dee, Tom Conway, James Ellison

3. Fuga ao Passado, EUA, 1947 c/Robert Mitchum, Jane Greer, Kirk Douglas

4. A Noite do Demônio, Grã-Bretanha, 1958 c/Dana Andrews, Peggy Cummins, Niall MacGinnis

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 288-9.

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