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sábado, 31 de janeiro de 2015

Filme do Dia: Na Mira da Morte (1968), Peter Bogdanovich

Na Mira da Morte (Targets, EUA, 1968). Direção: Peter Bogdanovich. Rot. Original: Peter Bogdanovich & Polly Platt sob argumento de ambos. Fotografia: Lázslo Kovács. Montagem: Peter Bogdanovich. Dir. de arte e Figurinos: Polly Platt. Com: Tim O`Kelly, Boris Karloff, Peter Bogdanovich, Nancy Hsueh, James Brown, Mary Jackson, Tanya Morgan, Sandy Baron.
Byron Orlock (Karloff), astro veterano do cinema de terror, decide abandonar o cinema para o terror do roteirista-diretor Sammy Michaels (Bogdanovich). Enquanto isso, um jovem que vem se armando e treinando tiro a muito tempo, Bobby Thompson ( O´ Kelly) mata seus pais e sua esposa, sobe em um tanque de gasolina e atinge várias pessoas que passavam em seus carros e se dirige para o drive-in onde um filme com Orlock será exibido e o ator se encontra presente, onde faz novas vítimas.
Bogdanovich faz questão de ressaltar uma Los Angeles horrenda repleta de carros e de um feio e impessoal concreto pelos olhos de um veterano  evidentemente amparado na própria persona cinematográfica de Karloff, em um de seus últimos papéis. Aqui o horror estilizado e assumidamente ficcional e calcado no gênero (O Terror, de Corman) assim como o policial clássico de Hawks (O Código Penal) soam como não apenas nostálgicos mas inócuos diante do horror realista de um psicopata que atira a esmo, reflexo da própria violência crescente na sociedade norte-americana assim como  – e principalmente – antecipatória do verdadeiro surto de situações semelhantes algumas décadas após.  Talvez o mais interessante do filme seja a ação final quando, em meio a toda a histeria coletiva provocada pelo assassino, Orlok, numa evidente brincadeira com o nome do ator mas também um tributo ao Nosferatu (1922), de Murnau, decide entrar desarmado no local onde o psicopata se encontra e estapeá-lo. É a vingança de certa grandeza da ficção romântica e de seu desprezo contra um realismo egotista e inexplicavelmente violento. O vilão de outrora põe no seu devido lugar o vilão moderno que lhe usurpou as plateias, inclusive na própria narrativa do filme, ao dispersar essa com tiros. Bogdanovich, mesmo que realizando o filme como tributo a Karloff,  apela menos para os cacoetes do cinema clássico do que para o cinema europeu moderno no modo seco como constrói sua narrativa, na ausência de trilha sonora ou de qualquer explicação psicológica que tente compreender a ação do psicopata, e até mesmo o tributo final ao ator, quando decide enfrentar o assassino, somente pode ser lido como pastiche, outro recurso reelaborado por cineastas modernos como Godard. Samuel Fuller colaborou com o roteiro, mesmo não tendo sido creditado. Destaque para a cena, ainda que um tanto inconvincente, na qual não apenas Sammy se assusta ao acordar na mesma cama que Orlok, quanto o próprio Orlok se assusta com sua imagem no espelho. O tema da psicopatia diante de um mundo moderno crescentemente afásico, que nem mesmo percebe que os psicopatas que gera continuam exercendo seus papéis sociais de modo somente mecânico, também pode ser encontrado contemporaneamente em filmes como os de Chabrol, ou, principalmente, em Por Que Deu a Louca no Sr. R?, de Fassbinder. Saticoy Prod. para Paramount. 90 minutos.



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