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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Filme do Dia: Chamas de Verão (1966), Tony Richardson

Chamas de Verão (Mademoiselle, Reino Unido, 1966). Direção: Tony Richardson. Rot. Adaptado: Marguerite Duras, a partir do conto de Jean Genet. Fotografia: David Watkin. Música: Antoine Duhamel. Montagem: Sophie Coussein & Antony Gibbs. Dir. de arte: Jacques Saulnier. Cenografia: Charles Merangel. Figurinos: Jocelyn Rickards. Com: Jeanne Moreau, Ettore Manni, Keith Skinner, Umberto Orsini, Georges Aubert, Jane Beretta, Paul Barge, Pierre Collet.
          Num vilarejo francês, jovem professora proveniente de Paris, conhecida apenas como Mademoiselle (Moreau) sente-se atraída pelo imigrante italiano Manou (Manni), viril e que não se escusa em fazer sexo com boa parte das garotas do lugar. Seu filho, Bruno (Skinner), que inicialmente havia recebido os cuidados de Mademoiselle, agora sofre cada vez mais com seus destratos. Mademoiselle costuma sorrateiramente provocar inundações, incêndios e o envenanamento de animais, sendo que a suspeita sempre recai na dupla de imigrantes italianos, que inclui além de Manou seu amigo Antonio (Orsini). Cansados de tanto sofrimento, os moradores da vila se demonstrarm dispostos a fazer justiça com suas próprias mãos. Quando encontram Mademoiselle  com as roupas estropiadas por finalmente ter satisfeito seu desejo por Manou, logo imaginam ter sido vítima de agressão sexual do mesmo. Quando o encontram, matam-no. Enquanto Antonio e Bruno abandonam a vila a pé, Mademoiselle parte de carro.
             Mais convencional e talvez também mais interessante que seu filme anterior, O Ente Querido, Rchardson aqui apresenta dois seres, à sua maneira, marginais à sociedade que os circunda. Um por se encontrar aquém, estrangeiro e que só consegue ser visto como portador de algo interessante no momento do desejo. A outra por se encontrar além, versada em letras, algo que a maior parte dos próprios adultos do vilarejo desconhece. Com todas suas eventuais virtudes, que vão de sua bela fotografia em preto&branco até o modo relativamente distanciado com que tudo é narrado, passando pela interpretação de Moreau, que antecipa a maldade de alguns dos personagens vividos por uma Isabelle Huppert, assim como o próprio final, que se recusa a seguir uma linha compensatória convencional ou sua relativa independência dos diálogos,  o filme tampouco está livre de não poucas fraquezas. Uma delas, sem dúvida, é o quão pouco elaborada se torna a relação entre Mademoiselle e o garoto Bruno. Outra, a interpretação pouco convincente de Manni o que, diga-se de passagem, talvez não comprometa tanto assim seu personagem, rude e iletrado. Uma terceira, por fim, diz respeito ao cineasta, ao contrário de sua filmografia anterior, ter deslocado seus personagens de um momento histórico concreto.  Mesmo que o filme possa ser situado vagamente por volta da década de 1920 ou 30, tudo parece indicar que a única coisa que importa, ao final, são generalidades abstratas e atemporais,  como a xenefobia associada, inclusive, ao rancor pela pretensa fúria sexual do imigrante (algo bem melhor trabalhado por Fassbinder em seu O Machão). Por outro lado a narrativa, a certo momento, desliza em discreto flashback, juntamente com a cobra que passa da mão de Manou para Mademoiselle. A visão que essa possui de seu homem, enquanto mero objeto para saciar seu desejo ocasional, representado pela perspectiva com que se delicia com seu corpo, ao observá-lo agindo para combater os incêndios, ou repousando durante o serviço, é muito próxima da de um homossexual masculino, o que não é mera coincidência em se tratando de uma adaptação de Genet. Dada a natureza patológica de sua repressão sexual, talvez soe um pouco estranho o modo como Mademoiselle rapidamente se entrega a Manou, mas não resta dúvida que essa entrega fácil é igualmente fruto da mesma repressão que não a faz se sentir à altura do campônio, preferindo cheirar suas botas a beijá-lo na boca. Procinex/Woodfall Film Corp. para United Artist. 101 minutos.

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