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sábado, 31 de janeiro de 2015

The Film Handbook#8: Marcel Carné

Marcel Carné
Nascimento: 18/08/1909, Paris, França
Morte: 31/10/1996, Clamart, Haute-des-Seine, França
Carreira: 1929-76

No final dos anos 30 e idos de 40, os filmes de Marcel Carné deram eloquente expressão a um estado de espírito de fatalismo e pessimismo romântico. Após a guerra, entretanto, sua carreira foi uma triste sombra de si próprio.

Após trabalhar brevemente como crítico de cinema, Carné foi assistente tanto de René Clair quanto de Jacques Feyder; foi a esposa do último, a atriz Françoise Rosay, que foi a mais entusiasta da estreia do próprio Carné, Jenny, interpretando a personagem-título, dona de uma boate cujo amante se apaixona por sua filha. Uma colaboração mais frutífera, no entanto, foi com o poeta e escritor Jacques Prévert, cujo roteiro para o filme atipicamente efervescente Família Exótica [Drole du Drame]>1, dizia respeito a uma série de crimes absurdos cometidos em uma Londres evocada surrealmente por personagens excêntricos, brilhantemente interpretados por Rosay, Jean-Louis Barrault, Louis Jouvet e Michel Simon. Carné, de fato, sempre parecia invulgarmente dependente do talento de outros: o cenógrafo Alexandre Trauner, o compositor Maurice Joubert e o operador de câmera Eugen Schufftan também contribuíram em diversos de seus melhores filmes.

Mais típicos foram os três românticos e melancólicos melodramas: Cais das Sombras (Quai des Brummes)>2, Hotel do Norte (Hotel du Nord) e Trágico Amanhecer (Le Jour se Lève)>3. Fundamental para a concepção de amor condenado de Carné e Prévert foi o anti-herói proletário de Jean Gabin, sufocado em cômodos sombrios e ruas enevoadas enquanto esperava a contribuição por crimes que mal sabia que havia cometido: em Cais das Sombras, o desertor de Gabin irrompe violentamente contra os gangsteres por uma garota pela qual havia repentinamente se apaixonado; em Trágico Amanhecer, cercado pela polícia mas incapaz de se render, recorda os eventos que o levaram a fuzilar o sedutor de uma garota. Grandemente difundido como realismo poético, o estilo de Carné é tudo menos realista: os sórdidos, sombrios e esfumaçados bares externalizam a melancolia resignada do herói em relação ao Destino injusto. Sem a perícia de Carné para o criação da atmosfera, o efeito poderia ser meramente pictórico, enquanto, pelo contrário, raramente a solidão, a loucura e a morte foram imbuídas de tanta elegância e beleza.

Durante a Ocupação, Carné e Prévert se voltaram das realidades contemporâneas para as fábulas históricas. Em Os Visitantes da Noite (Les Visiteurs du Soir), o triunfo do amor sobre Satã serve de inconvincente alegoria medieval sobre a invasão alemã. Bem melhor foi O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis)>4 uma extravagante tragicomédia ambientada na Paris dos anos 1840 e no universo dos teatros de bulevar. Misturando personagens reais e fictícios para provar a relação entre arte e vida, as cenas de multidões épicas do filme e sua celebração alegre da teatralidade foram ofuscadas por cenas de estranho intimismo, notadamente entre o mímico Deburau de Barrault e a Garance de Arletty, amantes que são destinados a nunca consumir sua paixão onírica. Durando três horas e um quarto, a obra-prima de Carné nos leva a um mundo desaparecido através de cenários magníficos e virtuosas interpretações.

Após a guerra, a obra de Carné se tornou crescentemente rotineira, ainda quando ocasionalmente foi capaz de extrair soberbas interpretações: Gabin em Paixão Abrasadora (Le Marie du Port), Gérard Philipe em Juliette ou la Clé des Songes, Simone Signoret em Thérèse Raquin. Sem, entretanto, os colaboradores dos primeiros anos, ele parece ter perdido o prumo e fez vãs tentativas de explorar o tema da cultura juvenil francesa dos anos 50; e é de fato irônico que tenha sido um dos diretores que os realizadores da Nouvelle Vague tenham mais desprezado.

Se Carné nunca cumpriu sua promessa original, seu status como um talentoso artesão permanece assegurado. Sua obra mais memorável, realizada entre a queda da Frente Popular e a Liberação, permanece como um testemunho duradouro da atmosfera francesa da época.

Genealogia
A melhor obra de Carné foi indelevelmente influenciada por Renoir e Feyder e pode ser comparada, talvez, com a de Julien Duvivier; seus filmes com Gabin antecipam não somente Becker e Melville, mas também o romantismo condenado do cinema noir: Hollywood, inclusive, refez Trágico Amanhecer como Noite Eterna, com direção de Anatole Litvak.

Destaques
1. Família Exótica, França, 1937 c/Michel Simon, Louis Jouvet, Françoise Rosay

2. Cais das Sombras, França, 1938 c/Jean Gabin, Michèle Morgan, Michel Simon

3. Trágico Amanhecer, França, 1939 c/Jean Gabin, Jules Berry, Arletty

4. O Boulevard do Crime, França, 1945 c/Jean-Louis Barrault, Arletty, Pierre Brasseur

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres, Longman, 1989, pp. 44-5.

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