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sábado, 17 de janeiro de 2015

Filme do Dia: A Culpa é do Filho (2012), Daniele Ciprì

A Culpa é do Filho (È Stato il Figlio, Itália, 2012). Direção: Daniele Ciprì. Rot. Adaptado: Daniele Ciprì, Massimo Gaudioso & Miriam Rizzo, a partir do romance de Roberto Alaimo. Fotografia: Daniele Ciprì. Música: Carlo Crivelli. Montagem: Francesca Calvelli. Dir. de arte: Marco Dentici. Cenografia: Cristiana Possenti. Figurinos: Grazia Colombini. Com: Toni Servillo, Giselda Volodi, Giuseppe Vitale, Alfredo Castro, Aurora Quattrocchi, Mauro Spitaleri, Alessia Zammiti, Fabrizio Falco, Benedetto Raneli, Pier Giorgio Bellochio.
     Família de classe média baixa italiana típica de um bairro popular de Palermo vive sua vida banal e sem maiores percalços além da dificuldade financeira e dos reclamos habituais do pai, Nicola (Servillo), único trabalhador da casa, até que a filha mais jovem, Serenella (Zammiti) é assassinada numa ação equivocada de pistoleiros que queriam matar o sobrinho de Nicola,    envolvido com o mundo do crime. A família se desespera, mas fica sabendo através do amigo mais próximo (Vitale), que eles podem requerer uma polpuda quantia destinada às vítimas da Máfia. Buscam sem sucesso o dinheiro através de um excêntrico advogado, Modica (Spitaleri). Numa situação cada vez mais difícil economicamente, Nicola se endivida, perdendo a paciência com o advogado, que deixa de trabalhar para ele. Quando tudo parecia perdido e ninguém tinha mais esperança, o dinheiro finalmente sai. Sem saber o que fazer com uma quantia tão polpuda que nunca viram antes, Nicola vence a todos com a proposta de comprar uma luxuosa Mercedes. O carro é tratado melhor que qualquer pessoa da família. Certa noite, o filho de Nicola, Tancredi (Falco) cede ao desejo do primo de saírem a noite de carro para o cinema. Eles saem às escondidas e ao voltar a pintura do carro fica arranhada. Quando o pai descobre na manhã seguinte começa a espancar o filho. Quando o primo chega para tentar acalma-lo também é agredido e mata o tio. Na situação em que  ainda é a única fonte de segurança da família, inclusive de permanência no apartamento alugado, Tancredi é incentivado a se confessar como assassino.
       A maior força do filme reside também no seu maior risco:  sua inusitada mescla entre comédia e drama, a partir de mudanças um tanto bruscas de compreensão sobre o que se assiste (uma comédia de humor negro? Um drama social de colorações pós-modernas?). Por mais que sua arrastada descrição do cotidiano familiar e sua caricaturização excessiva e desnecessária de alguns personagens como o advogado ao início aponte para um talento restrito à dimensão visual, no que diz respeito a composição das imagens. A narrativa é apresentada retrospectivamente por um narrador que já se adivinha ser Tancredi na maturidade. Ao infiltrar elementos de uma dimensão dramática associada a males da sociedade italiana na família retratada se pode correr o risco de se observa-las como mero gancho para as reviravoltas da narrativa. No entanto, não parece ser exatamente o caso. Através de elementos superficiais e personagens estereotipados que não se encontrariam deslocados em produções voltadas somente para o efeito final o filme acaba construindo uma abordagem grandemente original, observada a partir da perspectiva melancólica de seu quase catatônico protagonista. O filme, nesse sentido, mesmo que longe do talento visual de um Fellini, teria a virtude de apontar os limites de qualquer idealização excessivamente centrada somente numa subjetividade demasiado fabulosa e egocêntrica do passado, tal como em um equivalente do realizador (Amarcord), ainda que Ciprì não lide evidentemente com algo associado as suas próprias memórias. Durante todo o filme se tem a sensação de que os andaimes que alicerçam sua narrativa possuem uma base sólida na própria história do cinema italiano, sem que isso soe como um tributo sentimental ao estilo do condescendente Nós que Nos Amavámos Tanto (1974), de Ettore Scola. Boa parte da força do filme provém de interpretações como as de Toni Servillo, talvez o mais talentoso dos atores de caracterização do cinema italiano contemporâneo e do jovem Fabrizio Falco, sem esquecer o tour de force final da até então apagada figura da avó vivida por Aurora Quattrocchi. A denominação dos filhos como Tancredi e Serenella seriam referências respectivamente ao personagem de Lampedusa imortalizado nas telas em O Leopardo (1963) de Visconti e a canção-título de Luigi Tenco? Habitual colaborador de Marco Bellochio, que faz uso de Falco, Servillo e também de seu filho Pier Giorgio no contemporâneo A Bela Que Dorme. Passione/Babe Film para Fandango. 90 minutos.


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