O Dicionário Biográfico de Cinema#325: Samuel Goldwyn
Samuel Goldwyn (Samuel Gelbfisz), (1879-1974), n. Varsóvia
Goldwyn se esquivou em um explêndido e insuportável egotismo das duas mais significativas fusões da indústria cinematográfica americana. Isto o levou a ser conhecido como o maior produtor de cinema "independente" em um universo de vastas corporações. Mas todas estas corporações cresceram de um pequeno bando de negociantes que conheciam e não confiavam uns nos outros. Agora que estes grandes estúdios pereceram ou estão vivendo de transfusões de corporações ainda maiores, é fácil olhar para oitenta anos atrás e ver a forma precária como surgiram. Nestes termos, Goldwyn parece menos com um "independente" que um teimoso perdedor, superado por homens marginalmente mais astutos. A estrutura da indústria do cinema emergiu de brigas entre um grupo de rapazes. Goldwyn era a criança que não jogava outro jogo que o seu próprio e então teve que brincar sozinho. E é tão generoso construí-lo como um homem criativo ou de visão de longo alcance, como seria equivocado menosprezar a façanha de um imigrante que, na verdade, tornou-se bastante rico. A tragédia - se alguém estiver neste estado de espírito - é que um indomável vendedor de luvas polonês, dentro de um período tão curto, conseguiu consquistar tal proeminência enquanto fornecedor de um mercado de ficções de massa que o tornaria "respeitável".
Bernard Shaw perfurou a essência pretensiosa de Goldwyn quando comentou das tentativas do produtor de comprar os direitos de uma peça sua: "O problema, Sr. Goldwyn, é que o senhor está interessado apenas em arte, enquanto apenas me interesso por dinheiro." A história dos magnatas do cinema oferece uma clara lição: eles negligenciavam o dinheiro, ou eram inábeis com ele, mas adoravam o sentido e a mensagem de seus filmes, a despeito de cada omissão de gosto ou talento. É de se admirar que, abalados por Wall Street e pelos críticos, tenham acabado como excêntricos calculistas e perplexos, desesperadamente buscando distinção? Portanto, Goldwyn provavelmente sobreviveu como o autor de non sequiturs, gafes de um magnata. Uma delas - inclua-me fora - poderia ser o lema de sua carreira.
Goldwyn abandonou a Polônia aos onze anos, trabalhou na Inglaterra por quatro anos com um ferreiro, e chegou aos Estados Unidos em 1899. Cansado de ferros em brasa e cavalos, direcionou-se para luvas inteligentes e mãos suaves. Quando o negócio das luvas esmoreceu, ele o trocou pelo cinema. Com seu cunhado, Jessy Lasky, e Cecil B. DeMille, formou a Lasky Feature Plays. Quando esta equipe se fundiu com a Famous Plays, de Adolph Zukor, Zukor e Goldfish se encararam de forma ameaçadora através de um império pequeno e super-povoado. Goldifish abandonou o negócio em 1916, unindo-se aos irmãos Selwyn. Mudou seu nome para o da nova companhia, portanto fazendo-o parecer sua. (Este é o toque de gênio financeiro, sabendo que os irmãos dificilmente alterariam seus nomes para Selfish. E Goldwyn era notoriamente famoso por seu "toque" excêntrico). Foi a época que Goldwyn lançou Will Rogers. Mas Goldwyn se desentendeu com os Selwyn e se separou deles em 1922. Como resultado, foi o único acionista quando a companhia de Goldwyn foi vendida à Metro. Mas, de 1924 em diante, com seu nome apropriado, entre hífens para o maior dos grandes estúdios, o próprio Goldwyn produziu independentemente, através da United Artists até 1940, e depois geralmente com a RKO.
Goldwyn gostava do cinema, e se mostrava acima da média na escolha dos diretores, ainda que raramente os tenha levado as suas melhores obras. Seu olho para atores e atrizes foi muito menos confiável, enquanto tinha um desejo intenso de gastar grandes quantias com escritores sérios e materiais pouco promissores. Wuthering Heights [O Morro dos Ventos Uivantes] é típico desta ambição que lhe ultrapassa. Somente Goldwyn utilizaria Ben Hecht e Charles MacArthur a Emily Brontë, pediu Gregg Toland para fotografar Haworth na Califórnia e deu ao Heatchliff de Olivier a Merle Oberon como Cathy.
Não houve padrão para seu produto, salvo o do inquieto oportunismo: The Highest Bidder (21, Wallace Worsley); Doubling for Romeo (21, Clarence Badger); The Eternal Cry (*) (23, George Fitzmaurice); Potash and Pearlmutter [Modas e Confecções] (23, Badger); Cytherea (24, Fitzmaurice); Tarnish (24, Fitzmaurice), o primeiro dos muitos filmes de Goldwyn estrelados por Ronald Colman; The Dark Angel [O Anjo das Sombras] (25, Fitzmaurice); A Thief in Paradise (25, Fitzmaurice); His Supreme Moment [A Mulher que Eu Amo] (25, Fitzmaurice); Stella Dallas (25, Henry King); Partners Again [Dois Compadres] (26, King); The Winning of Barbara Worth [Beijo Ardente]; The Magic Flame [A Chama do Amor] (27, King); The Night of Love [A Noite de Amor] (27, Fitzmaurice); The Awakening [O Despertar do Amor] (28, Victor Fleming); Bulldog Drummond [Amante de Emoções] (29, F. Richard Jones); Condemned [Condenados] (29, Wesley Ruggles); The Rescue [Culpas de Amor] (29, Herbert Brenon); This Is Heaven [Isto é um Paraíso] (29, Alfred Santell); Whoopee! (30, Thornthon Freeland), o primeiro de diversos filmes com Eddie Cantor; Raffles (30, Harry d'Arrast e Fitzmaurice), ainda com o suave Colman; Street Scene [No Turbilhão da Metrópole] (31, King Vidor); Arrowsmith [Médico e Amante] (31, John Ford); Cynara (32, Vidor); mais dois filmes de Cantor, The Kid from Spain [Meu Boi Morreu] (33, Leo McCarey) e Roman Scandals [Escândalos Romanos] (33, Frank Tuttle); Nana [Naná] (34, Dorothy Arzner), com a lamentável importação européia de Goldwyn, Anna Sten; Kid Millions [Abafando a Banca] (34, Roy del Ruth); The Dark Angel [O Anjo das Trevas] (35, Sidney Franklin); Wedding Night [A Noite Nupcial] (35, Vidor), com Sten novamente; Barbary Coast [Duas Almas se Encontram] (35, Howard Hawks); Come and Get It [Meu Filho é Meu Rival] (36, Hawks e William Wyler); o excelente Dodsworth [Fogo de Outono] (36, Wyler); Stella Dallas (37, Vidor); Beloved Enemy [Bem Amada Inimiga] (37, H.C. Potter); Dead End [Beco sem Saída] (37, Wyler); The Adventures of Marco Polo [As Aventuras de Marco Polo] (38, Archie Mayo); The Goldwyn Follies (38, George Marshall); The Cowboy and the Lady [O Cowboy e a Grã-Fina] (38, Potter); The Hurricane [O Furacão] (38, Ford); O Morro dos Ventos Uivantes (39, Wyler); The Westerner [O Galante Aventureiro] (40, Wyler); The Little Foxes [Pérfida] (41, Wyler); Ball of Fire [Bola de Fogo] (41, Hawks); The Pride of the Yankees [Ídolo, Amante e Herói] (42, Sam Wood); The North Star [Estrela do Norte] (43, Lewis Milestone); The Princess and the Pirate [A Princesa e o Pirata] (44, David Butler); Up in Arms [Sonhando de Olhos Abertos] (44, Elliott Nugent); Wonder Man [Um Rapaz do Outro Mundo] (45, Bruce Humberstone), ambos com um novo astro de Goldwyn, Danny Kaye; The Best Years of Our Lives [Os Melhores Anos de Nossas Vidas] (46, Wyler); The Kid from Brooklyn [Um Tigre Domesticado] (46, Norman Z. McLeod); The Secret Life of Walter Mitty [O Homem de 8 Vidas] (47, McLeod); The Bishop's Wife [Um Anjo Caiu do Céu] (47, Henry Koster); A Song is Born [A Canção Prometida] (48, Hawks); Enchantment [Encantamento] (48, Irving Reis); My Foolish Heart [Meu Maior Amor] (49, Mark Robson); Roseanna McCoy [Roseanna] (49, Reis); Our Very Own [Vida de Minha Vida] (50, David Miller); Edge of Doom [Alma em Revolta] (50, Robson); I Want You [Não Quero Dizer-te Adeus] (51, Robson); Hans Christian Andersen (52, Charles Vidor); Guys and Dolls [Eles e Elas] (55, Joseph L. Mankiewicz); e Porgy and Bess (Porgy & Bess) (59, Otto Preminger).
Devo confessar que verteria poucas lágrimas se a maior parte da carga afundasse. Poderia alguém que leu Emile Brontë levar O Morro dos Ventos Uivantes à sério? E por que alguém que se divertiu com o filme leria o livro? Danny Kaye e Eddie Cantor foram descobertas dependentes da fé de Goldwyn. Houve bons filmes - Fogo de Outono, Stella Dallas, Bola de Fogo, A Carta e alguns que são bastante divertidos (Meu Filho é Meu Rival, Pérfida, Meu Maior Amor), mas algo grande? Os Melhores Anos de Nossas Vidas é incontestavelmente honesto e tocante, e é fácil observar o impacto que obteve nesta época suave. Deu a Goldwyn um Oscar de melhor filme e um bocado de dinheiro. E é também um destes poucos filmes que alude (e adora) uma enorme classe média americana, raramente vista nos filmes. E - poderia sugerir - o quão raramente a América encontrou a si própria. Em outras palavras, Os Melhores Anos é um sonho doce e conservador, um desejo de retorno a um sono pacífico após a guerra, muito habilmente auxiliado por Wyler, o diretor que fez carreira considerando-se "acima" de Goldwyn.
Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 1053-56.
N. do E: (*) The Eternal City, segundo o IMDB.

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