Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#153: Adolfo Aristarain



 ARISTARAIN, ADOLFO. (Argentina, 1943). Uma das mais conhecidas figuras do cinema argentino, Adolfo Aristarain de alguma maneira conseguiu realizar um cinema alegórico sob a repressão, enquanto o regime mais repressor da história estava no poder, Tiempo de Ravancha (Tempo de Revanche, 1981). Nascido em Buenos Aires, Aristarain teve  uma extensa carreira no cinema, antes de se tornar diretor. Começou a trabalhar na indústria do cinema atuando como extra, em 1962, depois vindo a se tornar um segundo assistente de direção regular, em 1965. Trabalhou na Espanha frequentemente, mas viajou o mundo como assistente de direção - para Sergio Leone em Era Uma Vez no Oeste (1968) e para Melvin Frank em A Touch of Class (Um Toque de Classe, 1972), antes de retornar à Argentina para trabalhar com Juan José Jusid. 

Aristarain dirigiu seu primeiro longa em 1978, La Parte del Léon. De forma notável, no auge da influência da ditadura sobre a indústria de cinema, foi capaz de realizar mais dois filmes em 1980 e em 1981 completar sua obra-prima, Tempo de Revanche, que ganhou dois prêmios importantes no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, em 1982, e no Festival Internacional del Nuevo Cine Latino, em Havana (ambos compartilhados). Isto marcou o início de uma série de prêmios notáveis ganhos pelo diretor, incluir o Condor de Prata, da Associação dos Críticos de Cinema Argentinos, pelo mesmo filme, em 1982. Seu filme seguinte, Últimos Dias de la Víctima, um dos somente 17 filmes produzidos na Argentina em 1982, o ano da guerra das Malvinas/Falklands, foi também um subtexto político sobre sua extremada violência. Aristarain ganharia novamente o Condor de Prata de direção e o prêmio principal do Festival de Cinema Latino de Huelva. Surpreendentemente, talvez, somente dirigiria um filme durante os anos de abertura da presidência de Alfonsin, uma co-produção com a Colômbia, El Extraño (Fragmentos de um Crime, 1987), que recusou o lançamento doméstico por estar dissatisfeito com os resultados. Entre 1984 e 1985 dirigiu oito episódios da série de TV espanhola Pepe Carvalho

Após vencer o prêmio principal do Festival de San Sebastián, em 1992, o filme seguinte de Aristarain, Un Lugar en el Mundo (Um Lugar no Mundo) foi indicado ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira. Mas controvertidamente  desqualificado por conta do país de submissão (Uruguai), não ser considerado o principal parceiro desta co-produção (com a Argentina). A esposa de Aristarain, Kathy Saavedra, que co-escreveu o roteiro e desenhou os figurinos,  era uruguaia, e após seu filme não ser escolhido pela Argentina, obteve o selo de aprovação uruguaio. Após o filme ter sido removido da cédula de votação - apenas a segunda vez que aconteceu algo semelhante na história dos Oscars - o diretor os processou por "quebra de contrato", e perdeu. No entanto, sua carreira continuou implacável, e seus três filmes mais recentes, Martin (H) (*) (1997), Lugares Comunes (Lugares Comuns, 2002), e Roma (Roma, um Nome de Mulher, 2004), juntos com Um Lugar no Mundo, venceram coletivamente 28 principais prêmios internacionais, incluindo três Condores de Prata de direção e sete prêmios em Havana.

Os filmes de Aristarain se encontram entre os mais classicamente elegantes do cinema sul-americano. Agraciados com interpretações universalmente fortes dos melhores atores cinematográficos argentinos - Federico Luppi  em Tempo de Revanche, Martín (H) e Lugares Comuns; Susú Pecoraro em Roma, um Nome de Mulher - o ritmo tranquilo de Aristarain possibilita os personagens serem fortemente desenvolvidos e traz ao público uma proximidade deles. Seus filmes são altamente emocionais, sem cair nos excessos melodramáticos grosseiros. Lugares Comuns expressa fortemente o risco de crise econômica no final dos anos 1990 fez a um professor universitário e sua esposa, enquanto Roma, um Nome de Mulher, revela em extensos flashbacks, uma relação próxima entre um escritor exilado, Joaquín Góñez, e sua mãe (Pecoraro como Roma), rompidos pela "Guerra Suja" na Argentina. 

Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman&Littlefield, 2014, pp. 55-56.

(*) N. do E.: Martín (Hache) no IMDB. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme do Dia: Der Traum des Bildhauers (1907), Johann Schwarzer

Filme do Dia: El Despojo (1960), Antonio Reynoso