Filme do Dia: No Sul do Pacífico (1958), Joshua Logan
No Sul do
Pacífico (South Pacific, EUA, 1958). Direção Joshua Logan. Rot. Adaptado
Paul Osborn & Joshua Logan, a partir da peça de Richard Rodgers & Oscar
Hammerstein II, assim como do livro de contos de James A. MIchener, Tales of
South Pacific. Fotografia Leon Shamroy. Música Alfred Newman. Montagem
Robert L. Simpson. Dir. de arte John DeCuir & Lyle R. Wheeler. Cenografia
Paul S. Fox & Walter M. Scott. Figurinos Dorothy Jeakins. Maquiagem e
Cabelos Ben Nye & Helen Turpin. Com Mitzi Gaynor, Rossano Brazzi, John
Kerr, Ray Walston, Juanitta Hall, Juanita Hall, France Nuyen, Russ Brown, Jack
Mullaney.
Segunda Guerra Mundial. Tanto a Marinha quanto o
Exército americanos estão bolando uma estratégia contra o domínio japonês nas
ilhas do Pacífico. O Capitão Brackett (Brown) aposta na sagacidade do jovem
tenente recém-chegado, Joseph “Joe” Cable (Kerr) e alguém bastante conhecedor
da área, pois morador desde quase sempre, o francês Emile de Becque (Brazzi).
De Becque de início recusa, pois se encontra fortemente envolvido
emocionalmente, pela oficial e nas horas vagas cantora e dançarina Nellie
Furbush (Gaynor). O histriônico Luther Billis (Walston) convence Cable de ir
conhecer a misteriosa ilha de Bali Hai na sua folga. No meio das apresentações
locais, Bloody Mary (Hall) convence-o a conhecer uma garota que é ninguém menos
que sua filha, a jovem Liat (Nuyen), com quem Joe Cable imediatamente inicia um
envolvimento amoroso. Porém, impasses surgem, pois Nelli fica a par dos filhos
de Becque com uma polinésia falecida e, na mesma hora, afasta-se dele, enquanto
Cable rejeita se casar com uma nativa, tendo uma noiva nos Estados Unidos. A
aparente irresolução de suas situações afetivas faz com que Becque reconsidere
e parta na perigosa missão exploratória em área dominada por japoneses. Cable
morre na missão, enquanto de Becque retorna para encontrar uma Nellie já
fazendo às vezes de madrasta, senão mesmo mãe, para seus filhos.
Qual testemunho mais eloquente que, muito antes de
alguns filmes utilizarem como bossa ou experimentalismo radical, a tela em
negro, musicais como este já o faziam – o protagonismo indisfarçável da música
sobre seu enredo ou imagens se reflete na continuidade da música findo os
créditos, por mais de um minuto, para não falar do tradicional intervalo para
madames e cavalheiros irem tomar um ar ou ir ao banheiro. Ou ainda antes mesmo
de iniciarem os créditos, por mais de generosos três minutos. Não menos
eloquente é sua construção pitoresca de todos os clichês relacionados aos mares
do sul, provavelmente adicionando alguns mais dos já presentes na sua fonte
original. Para ficarmos em um exemplo, a “travessia” que Blood Mary efetua com
o sexy, como ela mesma chamara, tenente Joe Cable até sua amada pode se
transformar em uma experiência às raias da psicotrônica quando assistida sem
qualquer anteparo ou sequencia prévia do filme em um canal de TV no qual as
suas cores saturadas, seus filtros e efeitos flou parecem fugir de qualquer
facilidade de identificação temporal imediata e ficamos a nos indagar se
estamos nos anos 80, numa reciclagem kitsch do clássico americano ou no
próprio. Ou mesmo numa encenação mais exótica do musical de Rodgers &
Hammerstein. Porém as cantorias e o preconceito muito marcado nos fazem sentir
onde estamos pisando. A Nellie de Gaynor aceita que seu De Becque (vivido por
um ator italiano e não francês, habitual
coadjuvante em produções
estadunidenses verdadeiros cartões-postais da Europa) seja um assassino, mas
não que possua um par de crianças de uma nativa polinésia já falecida. Já Joe
Cable se recusa a casar-se com a nativa Liat, embora tenha feito sexo com ela
já de primeira, como sugere uma cômoda elipse e os banhos submarinos quase a
anteciparem os de A Lagoa Azul – embora a nudez de fato, só seja
observada de crianças pequenas de costas, ela chega mais próxima do elenco de
extras ou de apoio masculino que o oposto, parecendo de uma vez assumir o
musical como gênero prioritariamente a ser consumido pelo público feminino. Mas
voltando aos dramas interraciais, o mais direto, do americano com uma garota
nativa é poupado do espectador pois nunca saberemos da decisão final de Joe,
convenientemente falecido em combate. E outro, o de De Becque com a mãe de seus
filhos, estava fora do escopo da narrativa. Resta o mais palatável, de Nellie
com o mesmo De Becque, que ainda assim somente é concordado por ela na situação
limítrofe de vir a perde-lo na mesma ação da qual Joe não sobrevive para contar
sua versão. É notória uma liberalidade sexual bem mais ampla (e alcovitada pela
própria mãe) entre o americano e a nativa, em razão oposta ao incômodo a
dividir Joe Cable, que pode durar um verão, e ele partir, e não assumir seus
rebentos com a nativa, prática feita pelo francês. O Luther Billis de Walston
tem uma evidente ambiguidade sexual, inclusive travestindo-se na apresentação
musical de Nellie, e gerando extrema revolta do numeroso contingente de
soldados a assistirem o espetáculo – assim como um dardo no traseiro; porém há
uma cena mais incisiva, na qual ele protagoniza o canto e há uma insinuação
dele para um homem de beleza destacada entre seus pares. Foi o maior sucesso de
bilheteria do seu ano de lançamento. |Rodgers & Hammerstein Prod. para 20th
Century-Fox. 157 minutos.

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