Filme do Dia: Nouvelle Vague (2025), Richard Linklater

 


Nouvelle Vague (França/EUA, 2025). Direção Richard Linklater. Rot. Original Holly Gent & Vincent Palmo Jr. Fotografia David Chambille. Montagem Catherine Schwartz. Dir. de arte Katia Wyszkop. Figurinos Pascaline Chavanne. Maquiagem e Cabelos Turid Follvik & Franck-Pascal Alquinet. Com Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin, Bruno Dreyfürst,  Adrien Rouyard, Matthieu Penchinat, Antoine Besson, Jodie Ruth-Forest, Léa Luce Busato.

Com todos os seus colegas já com filmes de longa-metragem lançados e o sucesso recente de Os Incompreedidos de Truffaut (Rouyard), Jean-Luc Godard (Marbeck) vê a chance de realizar o seu com o sinal verde não muito entusiasmado do produtor Georges de Beauregard (Dreyfïurst). Ele consegue o par principal que desejava, Jean-Paul Belmondo (Dullin), e inclusive a atriz hollywoodiana que o produtor não acreditava que topasse, Jean Seberg (Deutch). O método nada convencional de realizar as filmagens e o não uso de roteiro irritam profundamente Seberg, que não vê a hora do término de sua parte.

Os estadunidenses sempre foram craques no realismo mimético-biográfico, ao ponto de exportarem este modelo para todas as cinematografias do planeta praticamente. E o que dizer de um filme a se inspirar do início ao final neste modelo, sendo nem mais nem menos que este seu objetivo? É um filme de cinéfilo para cinéfilos. Felizmente estamos livres de tentativas populistas e/ou sensacionalistas que apenas enfatizam o que há de torpe nos retratados, das quais o cinema já possui espécimes o suficiente, de Mamãezinha Querida a O Formidável - este, por sinal, voltado para Godard. Há dezenas de referências do campo cinematográfico francês da época, muitos deles apenas vislumbradas, com seus nomes creditados – aliás o crédito dos principais, a surgirem quase todos irremediavelmente nos primeiros minutos, coincide com um olhar para a câmera do respectivo ator/atriz. Até isso é uma forma de emular criativamente as apropriações da história do cinema efetuadas por Acossado. E que se espalha – tal emulação, não exatamente criatividade -  para tudo o mais, figurinos e cenários, e também locações; e é evocativa da de Coutard, mesmo sendo irremediavelmente distinta, sua direção de fotografia.  Todos estes elementos provavelmente com uma boa dose de CGI/IA. Não há exatamente uma preocupação de desenvolvimento dramático para além da superfície, aliás do contato habitual que um coletivo de pessoas antes, via de regra, desconhecidas. Seu objetivo é outro, mais obsessivo, possivelmente mais tedioso para boa parte do público, sobretudo o que não conhece basicamente sobre o que se fala, mas vai na linha quase dos dispositivos cinematográficos mais habitualmente associados à forma narrativa documental, mas tampouco isentos da ficcional (que o diga nomes como Greenaway e seu pendor para a catalogação enciclopédica em filmes como Um Z e dois Zéros ou Os Livros de Próspero). No caso poderíamos pensar como dispositivo a descrição dos vinte dias de filmagens, a quantidade de dias disponibilizada pelo produtor Georges de Beauregard a Godard, e cumprida apesar do cronograma de filmagens nada ortodoxo, seguindo os passos de um cineasta bastante admirado pelo realizador, Roberto Rossellini, também presente nas personificações. Mesmo não adentrando na seara íntima dos envolvidos, fica mais que insinuado que Seberg teve uma relação extraconjugal com seu parceiro de filme, ainda mais corroborada pela sua separação muito pouco após o término da produção. Há uma óbvia menção a outro filme a lidar com uma filmagem em seu universo ficcional, Noite Americana, de Truffaut, no momento em que Godard visita Jean-Pierre Melville no set de filmagem, às vésperas de iniciar seu longa de estreia, e o realizador é instado a escolher entre duas pistolas para uma cena, tal qual o diretor vivido pelo próprio Truffaut em seu filme. Resta saber se o episódio incorporado por Truffaut naquele já não seria uma referência observada nos seus tempos de crítico. Também há uma cena sobre o inesperado encontro no metrô de Godard com Bresson, que filmava Pickpocket. Os comentários básicos finais sobre o futuro do trio principal envolvido se direciona a quem não é cinéfilo, e para quem a esta altura do “campeonato” já deve ter tomado para si o comentário de Seberg, de mal esperar para que o filme acabe, se tiver chegado até os mesmos. Um neto de Belmondo fez audições para o papel do avô. Como em boa parte do cinema modernista evocado, embora curiosamente Acossado não compartilhe desta característica, não há trilha sonora original. E o seu final, a coincidir com o final das filmagens do filme – depois disso apenas uma modesta cena de sua exibição privada para alguns dos envolvidos, como o produtor – nada pune pelo grandiloquente, não destoando do restante. |ARP Sélection para Goodfellas. 106 minutos.

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