Filme do Dia: Os Marginais (1968), Carlos Alberto Prates & Moisés Kendler
Os Marginais (Brasil, 1968). Direção
Carlos Alberto Prates & Moisés Kendler. Rot. Original Carlos Alberto Prates
(“Guilherme”) e Moisés Kendler (“Papo Amarelo”). Fotografia Dib Lutfi. Música
Caetano Veloso (“Guilherme”) e Almir Muniz (“Papo Amarelo”). Montagem Geraldo
Veloso (“Guilherme”) e Geraldo Sarno (“Papo Amarelo”). Com Paulo José, Helena
Ignez, Deloges Caminha, Maria do Rosário, Maurício Lansky, Lucy Panicali, Guará
Rodrigues, Haroldo Santiago (“Guilherme”). David José, Carlos Prata, Emmanuel
Cavalcanti, Grande Otelo, Paulo César Pereio, Francisca Teresa, Luzinete
Barcelos (“Papo Amarelo”).
Guilherme. Guilherme (Paulo José), fugido de
uma situação de perseguição em Belo Horizonte, direciona-se a uma cidade
interiorana, onde se faz passar por milionário, ganhando a simpatia de um
influente homem (Caminha) da elite local, noivando com a filha do mesmo
(Rosário), embora se sinta verdadeiramente atraído por sua prima (Ignez). Papo
Amarelo. O perigoso marginal Papo Amarelo (David José) vive elaborando
ações criminosas e diz possuir um desejo irremediável por matar, sem qualquer
motivação clara. Ele também pratica assaltos e estupra uma mulher. Em meio a
esta agitada vida, reencontra um amor do passado, Isabel (Teresa) e com a mãe e
sua filha. No final se depara com um
grande número de policiais que sobe o morro a sua procura.
“Guilherme”.
Impressionante o quanto Prates já liquidifica em seu episódio neste filme
injustamente esquecido, uma mescla infindável de referências, inclusive em seu
elenco, talvez por ser um período no qual Cinema Marginal e Novo ainda não
haviam se tornado práticas e discursos em geral tão díspares. Há Paulo José, de
produções que se filiava ao Cinema Novo, e que ficará marcado logo mais por Macunaíma,
encarnando o personagem-título do primeiro “conto”. Mas há também Guará
Rodrigues, referência seminal do Marginal. E Helena Ignez, que havia estrelado O
Padre e a Moça justo com Paulo José, mas que transicionava para o Marginal
(O Bandido da Luz Vermelha) nesse mesmo ano. E uma montagem bastante picotada a la Nouvelle Vague. E a mescla entre candomblé
estilizado e rock à tropicália. Assim como nos objetos de cena, a misturarem
santos com televisão e revista semanal ilustrada. E é interessante como o modo
como a câmera se aproxima da miserável família camponesa, um dos típicos motes
do Cinema Novo fazia poucos anos, pelas
frestas, como se um plano-sequencia do Cinema Marginal se tratasse. Mas se trata de movimentos coreografados e a
fotografia vazada de Dib Lutfi (Terra em Transe) e também já é marcada
por este filme a aproximação nada heroica ou idealizada do popular, esmurrado e
quase afogado a determinado momento. E, melhor que tudo, há uma lírica
modernista nos temas incidentais de Caetano a se confundirem com o abraço de despedida
no aeroporto, a nos lembrarem de sua impossibilidade de reprodução em um período
anterior e tampouco sua mimetização posteriormente. E também uma geografia
precisa dos rostos de uma elite como máscaras de si mesmos, completamente
engajados e indissociados parecem estar de seus protocolos sociais. Já
Guilherme foge da festa com a prima de sua noiva diante dos olhos de todos que
estivessem atentos – e sua noiva estava, e chora, e enluta. “Papo Amarelo”.
Muito originalmente, faz uso de inserções sobre a imagem, das manchetes
associadas à trama, como a da vítima de Papo Amarelo ter sido uma atração
midiática da TV. E flashforward sonoro, antecipando os comentários da
mãe e filha de Amarelo quando este lhes leva presentes de natal. E ainda seu
final, bizarramente anti-climático.
Embora os ambientes frequentados por Papo Amarelo possuam sua semelhança
como os presentes em O Bandido, são observados de modo muito mais
literalmente realístico que no filme de Sganzerla. Sem falar da aproximação um
tanto fatalista naif da figura marginal em questão; fatalismo este
trabalhado de forma jocosa na produção do Cinema Marginal. E a nudez
apresentada na cena que o bandido pede para as jovens se despirem, sob a mira
de um revólver, possui um aspecto mais próximo da futura pornochanchada. A
presença do garoto negro, autor de roubos amadores, é uma reserva de “má
consciência” para Papo Amarelo (e igualmente o filme). Como Matou a Famíliae Foi ao Cinema há referência a tortura, mas de motivos mais tipicamente
comuns – da polícia para arrancar a confissão do criminoso através de
eletrochoques em um episódio, e de caráter mais versadamente alegórico e menos
preciso no primeiro episódio, onde ela também parece se confundir com uma
dimensão de desejo homoerótico por parte de seus torturadores. A utilização de
Otelo nos faz lembrar do Cinema Marginal – seu destaque na adaptação de Mário
de Andrade por Joaquim Pedro ainda estava por vir - embora Pereio remeta ao Cinema Novo, em nova
bipartição simbólica do elenco, semelhante a do primeiro episódio. |Cinemas de
Santos/Exifilmes/Filmaci/Filminas/Mariana Filmes para Columbia Pictures do
Brasil. 108 minutos.![]()

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