Filme do Dia: Tlayucan (1962), Luis Alcoriza

 


Tlayucan (México, 1962). Direção: Luis Alcoriza. Rot. Adaptado: Luis Alcoriza, a partir do conto de Jesús Murcielago Velásquez. Fotografia: Rosalío Solano. Música: Sergio Guerrero. Montagem: Carlos Savage. Dir. de arte: Jesús Bracho. Cenografia: Ernesto Carrasco. Figurinos: Elba Castillo. Com: Julio Aldama, Norma Angélica, Andrés Soler, Jorge Martínez de Hoyos,  Anita Blanch, Noé Murayama, Juan Carlos Ortiz, Pancho Córdova, Eric del Castillo, Dolores Camarillo.

Numa pequena vila mexicana, Eufemio (Aldama) rouba uma pérola da imagem de Santa Luzia, desesperado como está por conta da enfermidade do filho, Nico (Ortiz), que necessita de uma medicação cara. Dentre as opções, está o rico e solitário Don Tomás Cruz (Soler), vizinho e obcecado pela esposa de Eufemio, Chabela (Angélica). Enquanto isso, a solitária  Señorita Prisca (Blanch) entrega-se após beber ao mendigo cego Matías (Murayama) e ao se confessar desesperada ao padre Aurelio (Hoyos), recebe o conselho desse para se casar com o mesmo. Don Tomás decide pagar o tratamento do garoto, porém a pérola continua desaparecida, desde o momento em que Eufemio a jogou na pocilga. E há uma pressão para que ele pague por ela.

Ainda que o excesso de personagens e situações lançadas aos montes pelo filme possam sugerir uma permissividade auto condescendente, nada mais distante desse lúcido painel algo pitoresco dos valores sociais tradicionais mexicanos, com pitadas de relações de poder e sensualidade em estilo que poderia ser considerado na vanguarda da indústria de seu país então, tal como – e equivocadamente – pensou-se de O Pagador de Promessas (com quem competiu por um Oscar de filme estrangeiro) em relação ao cinema brasileiro. Se a esperança na futura na criação de porcos é referida brevemente e logo descartada por Eufemio, talvez até como referência crítica ao clássico Maria Candelária, praticamente tudo se torna mais nuançado e ambíguo nessa produção que não deixa de apresentar uma antológica cena buñuelesca de uma peleja de mendicantes cegos nas escadarias de uma igreja. Seu padre, para além da bonomia irrestrita do filme de Fernandez, é observado sobretudo como um agente da instituição a qual pertence, e preocupado antes materialmente com a mesma. Ou ainda com a literal jogada de uma pérola aos porcos. E, com a cena talvez mais forte de todo o filme, quando o velho erotômano Don Tomás esbofeteia o pequeno Nico como resposta ao próprio desejo que sente pelo garoto ao fazê-lo lembrar da mãe desse, por quem nutre uma obsessão particular, desde a infância, evidência de uma impotência de viés pedófilo e voyeurista. Porém, outras cenas são tão provocadoramente inteligentes quanto. É o caso das moças que se banham e repentinamente descobrem-se observadas pela mirada nada inocente de Don Tomás, voltando a cantar a plenos pulmões o que cantavam antes, em catártico enfrentamento contra o machismo opressor do qual ele talvez fosse aparentemente o mais poderoso representante local. Ou ainda da sexualidade represada, por motivos que não lhes dizem exatamente respeito, da velha senhorita Prisca, que somente pode se consolar em observar casualmente o sexo alheio ou nas conversas com o cego Matías, mas que após algumas doses de licor, enrosca-se com o mesmo na escuridão da casa, em cena que parece trazer uma herança implícita dos comentários de Buñuel sobre a hipócrita moral burguesa. Sua cuidadosa encenação, por vezes traz ângulos de câmera que parecem buscar um apelo virtuosístico, mas de forma relativamente moderada e sem nunca deixar de ter como protagonismo a própria narrativa em si, nesse ponto bastante similar ao seu contemporâneo brasileiro. O mesmo se pode dizer do muito bom elenco como um todo, com destaque para o Eufemio de Aldama, embora a Chabela de Angélica, atriz que se suicidaria no mesmo mês e ano do lançamento dessa produção, tampouco deixe a desejar. E o mesmo vale para seu elenco de apoio como um todo, que possui participação por vezes maior que o casal principal. Prejudicado apenas por seu ocasional sentimentalismo, que transforma a transgressão em uma vida matrimonial burguesa, no caso de Prisca e Matías, nada mais distante de Buñuel ou ainda – e talvez pior – na súbita solidariedade do povo, ainda assim o filme toma partido de um aparente milagre provocado pelo próprio protagonista, e ao qual o padre encara quase como um mal necessário, pois não se convence do mesmo. Jeanne Buñuel, esposa do realizador por quase meio século, fez sua única ponta no cinema, como uma das turistas americanas. Producciones Matouk. 105 minutos.

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