Filme do Dia: Rock Hudson: All That Heaven Allowed (2023), Stephen Kijak
Rock
Hudson: All That Heaven Allowed (EUA, 2023). Direção Stephen Kijak. Fotografia
Tim Flower, Brian Rigney Hubbard, Stuart Luck & Derek Wiesehahn. Montagem
Clare Didier. Maquiagem e Cabelos Magdalena Buczkowska & Elizabeth Rita.
A
determinado momento Rock Hudson, um dos maiores galãs do cinema de seu tempo,
comenta sobre o quanto a Universal lhe proporcionava tudo na vida, de moradia à
alimentação, fazendo com que se preocupasse exclusivamente com a atuação. Ele
não complementa com o outro lado da moeda. A vida pública de fachada que era
imposta às estrelas gays de sua época, como ele próprio. Que poderia, no entanto, soar como um mal
menor diante de uma vida relativamente livre que possuía distante dos holofotes
e dos paparazzi. Quando muitos, em situação semelhante, iam presos por
atos obscenos em locais públicos. Haveria recortes mais interessantes que o
buscado sobre o ator por este documentário? Difícil afirmar sem realizar
mentalmente o seu próprio doc. Por alguns momentos mais parece apenas reforçar
um apetite vicário de imprensa marrom sobre seu retratado. Sensação que parece
crescer com o prolongamento de sua visada. Pois se inicia retratando-o como uma
das poucas pessoas dignas do meio cinematográfico, bastante querido pelos
colegas e, ao se aproximar do final entrevistará um amigo e ficante habitual
seu a detalhar, ao lado do companheiro, algo relativo não apenas a vida social
que tinham, mas também ao sexo. Ou ligações telefônicas gravadas de mediadores
de encontros sexuais para Hudson. O que não o exime de traçar correspondências
interessantes com momentos de sua carreira. Como os filmes com Doris Day, no
qual havia o complexo jogo de espelhamentos de um personagem heterossexual,
fingindo-se de gay, vivido por um ator gay. Ou momentos reveladores, como o do
hospital francês mandando Hudson sair imediatamente de suas dependências pois
não gostaria de ser identificado com a doença que o mataria. Temor que acometeu
muitas das pessoas próximas da atriz Linda Evans que contracenou e trocou
beijos com ele em sua última aparição como ator, na série Dinastia. E se
emociona ainda hoje ao relembrar o episódio. Embora o documentário reforce o
estigma da AIDS, doença da qual Hudson foi a primeira celebridade em escala
mundial a ser vítima, ao apresentar cenas de um filme – estratégia utilizada em
vários outros momentos, com funções as mais diversas, e geralmente bem
sucedidas, funcionando como uma espécie de coro fílmico – na qual se sentia
sujo e doente, quando está abordando justamente seu declínio pela doença. Foi
igualmente tentada uma cartada junto a Nancy Reagan, amiga pessoal do ator,
para conseguir sua transferência para outro hospital de Paris, negada porque
não podia comprometer assuntos governamentais com pessoais, sendo a própria
política geral do governo Reagan bastante hostil a uma reação mais incisiva de
se criar práticas preventivas e auxílio à pesquisa da doença. E o impacto
sensível que a publicização de seu caso, e a decorrente fundação de uma
entidade para levantar fundos de combate a AIDS por Elizabeth Taylor teve em
termos de mudança de paradigma no combate ao vírus. Imagens de Burt Lancaster
lendo uma carta escrita por Hudson (ou seus assessores) falando que seu
infortúnio poderia trazer algo de positivo para outras pessoas acometidas pela
doença é comentado, de forma emocionada, por um amigo seu, hoje idoso, ao
relembrar o momento. Há imagens de um Ross Hunter também emocionado, produtor
de alguns dos grandes sucessos do ator, saindo de sua mansão logo após sua
morte. Há, sem dúvida, neste movimento final em relação à doença e seu fim, uma
inevitável chama forte de “redenção” do anjo decaído, aquele que havia sido
odiado por James Dean por ter a fama de durão em Assim Caminha a Humanidade,
quando todos da indústria cinematográfica sabiam de sua vida secreta; o mesmo
Dean que é observado numa ponta quando ainda era um extra desconhecido e Hudson
já uma estrela. Certamente não teria tido a carreira que teve, ou mesmo uma
carreira, como muitos lembram, se não tivesse agido assim. Diante e fora das
câmeras. E o mito o perseguiria, mesclado a uma questão geracional também fruto
da mesma homofobia, para que continuasse a não tocar sobre o tema, mesmo quando
já contaminado pelo HIV. Por sorte, não há julgamentos fáceis em relação à sua
trajetória, tendendo inclusive a uma maior empatia. E a compreensão de que,
mesmo involuntariamente, sua morte foi um divisor de águas em relação a
abordagem da AIDS, e até mesmo a questão da masculinidade, do qual fora um dos
ícones triunfantes nos tempos de Eisenhower – e, um pouco na lambuja disso, um
republicano próximo dos Reagan. Em um momento que, mesmo figuras assumidamente
gays, como Warhol, pintavam quadros a evocarem a doença como punição (como
relata o documentário contemporâneo Diários de Andy Warhol). Também
seria observado por outros olhos, nos dias de hoje, o envolvimento sexual não
apenas das aspirantes a estrelas do sexo feminino, mas igualmente masculino, de
agentes como o que formatou a persona cinematográfica de Hudson, Henry Wilson,
sempre cercado de jovens beldades – numa das fotos, em um grupo de jovens
cobertos apenas por toalhas em uma sauna se observa não apenas Hudson, mas
aparentemente também outro futuro galã de sua época, Tony Curtis. Doris Day, em
material filmado aparentemente para o próprio doc, surge já pouco antes de sua
morte, comentando quando indagavam dela sobre sua sexualidade, que ele era
bastante reservado e ela nada sabia de sua vida pessoal. Destaque para o
momento em que Liz Taylor afirma que disse para si própria, diante do descaso
governamental em relação à doença, “bitch, então faça você mesmo algo.”
Altitude Film Ent./HBO Films/Plus6ForEnt para HBO. 104 minutos.![]()

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