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domingo, 17 de setembro de 2017

Filme do Dia: No Turbilhão da Metrópole (1931), King Vidor


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No Turbilhão da Metrópole (Street Scene, EUA, 1931). Direção: King Vidor. Rot. Adaptado: Elmer Rice, a partir de sua própria peça.  Fotografia: George Barnes. Música: Alfred Newman. Montagem: Hugh Bennett.  Cenografia: Richard Day.  Com: Sylvia Sidney, William Collier Jr., Estelle Taylor, Beulah Bondi, David Landau, Matt McHugh, Russell Hopton, Greta Gransted, Walter Miller.

Em um apartamento popular de Nova York, onde moram pessoas de diversas origens, Rose  Maurrant (Sidney), cortejada pelo sensível Sam Kaplan (Collier Jr.) observa a relação problemática entre os pais chegar à tragédia. Sua mãe, Anna (Taylor), desconsiderada pelo negligente e seco marido, Frank (Landau), possui uma relação extraconjugal com Steve (Hopton) conhecida por toda a vizinhança. O pai de Rose viaja dizendo, como habitual, que não tem data para voltar. Quando a mãe se encontra no apartamento com o amante, ele retorna inesperadamente e atira em ambos, refugiando-se no próprio prédio. Ainda chocada com a notícia, Rose recusa o apoio excessivo de seu patrão no teatro, Sr. Easter (Miller) e escuta os tiros do confronto entre a polícia e seu pai, que é preso. Os dois trocam algumas palavras antes da polícia levá-lo.  Sam tenta uma aproximação maior com Rose, afirmando se encontrar apaixonado, mas Rose se encontra decidida a sair da cidade por um tempo.
Não se esforçando em disfarçar sua origem teatral, faz com que seus elaborados movimentos de câmera busquem amenizar o efeito de proscênio do palco que a entrada do edifício (e os planos abertos que habitualmente a enquadram)  reflete.  Outros efeitos teatrais são menos disfarçados como as entradas e saídas de cena estratégicas, quando alguma troca de diálogos mais importante já foi proferida ou o personagem já saiu de cena.  Ou ainda as próprias interpretações, ou ao menos algumas delas – notadamente a de Estelle Taylor – demasiado ansiosas por acentuar seu tom dramático. Embora soe no mínimo excêntrica tal comparação, não há como não associarmos uma tentativa de representação de um bairro popular nova-iorquino, mesmo que de forma menos multiculturalista que aqui, e também centrado nos rumores e fofocas, da empreendida por Spike Lee, noutro verão décadas após, com seu Faça a Coisa Certa. Ou ainda Janela Indiscreta, com seus moradores fazendo uso das escadas de incêndio para dormir em noites de verão. O tom naturalista, provável herdeiro  da peça de Rice não seria tão adaptável às telas dois anos após, com a instauração do Código Hays, sobretudo em temas como o da infidelidade feminina, resolvida aqui a bala.  Até mais de uma hora o filme acertadamente pune pelo decoro de não apresentar interiores que representem o edifício visto por dentro, algo que infelizmente cai por terra algum tempo depois do crime -  o qual é observado muito parcialmente pela janela, de uma perspectiva quase tão distante quanto a dos transeuntes fora – numa única cena. A fachada do prédio, aliás, serve como metáfora, ainda que involuntária, de sua própria dramaturgia, que permanece tão superficial e pública quanto o ângulo do qual se observa o desenrolar de praticamente todo o drama. Sua narrativa cíclica, fecha como iniciou e corajosamente deixa em aberto o futuro da agora praticamente órfã, mas forte, Rose, que não aceita a piedade de ninguém e abandona o prédio em busca de seu futuro. Ainda que o título brasileiro faça referência a algo similar a obra-prima de Vidor do período – e talvez de toda a sua carreira – A Turba (1928), aqui a narrativa, que não dura mais que um dia, não possui o caráter cosmopolita e impessoal daquele, optando-se por uma chave bem mais provinciana, em que a multiculturalidade dos moradores do prédio não assegura uma maior tolerância em relação aos códigos morais, e sim o oposto disso, com todos os vizinhos, e mais enfaticamente a personagem típica da azeda solteirona de Beulah Bondi,  servindo como coro em relação a tudo e todos, sobretudo a mãe de Rose. Greg Toland, o director de fotografia que ganharia prestígio sobretudo por seu trabalho em Cidadão Kane teve sua colaboração aqui não creditada. Destaque para a elaborada reconstituição do prédio e seus arredores, incluindo até a presença de uma linha de metrô, efetuada em estúdio, evocativa mais uma vez de Janela Indiscreta, ainda que o motivo da bisbilhotice aqui se dê mais no espaço público que entre quatro paredes, pouco se observando para o que vai além do parapeito das janelas dos apartamentos. The Samuel Goldwyn Co./Feautre Prod. para United Artists. 80 minutos.

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