Filme do Dia: O Buraco (1998), Tsai Ming-Liang

 


O Buraco (Dong, Taiwan/França, 1998). Direção: Tsai Ming-Liang. Rot. Original: Tsai Ming-Liang & Yang Pi-ying. Fotografia: Liao Pen-jung. Montagem: Hsiao Jukuan. Dir. de arte: Lee Pao-Lin. Com: Yang Kuei-Mei, Lee Kang-Sheng, Maio Tien, Lin Hui-Chin, Tong Hsiang-Chu, Lin Kun-huei.

Numa Taiwan impactada com um vírus ameaçador e vivendo os últimos dias do milênio e da virada para o século XXI, Rapaz (Kang-Sheng) mora em um condomínio popular em que uma infiltração provoca inúmeros contratempos para a Moça (Kuei-Mei), moradora do pavimento inferior.

A partir de um argumento mais próximo de um curta-metragem, Ming-Liang parece efetuar sua versão (antecipada, diga-se de passagem) de Amor à Flor da Pele. Ironizando com a proximidade/distância a que somos relegados no universo urbano industrial contemporâneo, o filme constrói sua trama em que a pauperizada situação de sua jovem protagonista, espremida entre infinitas embalagens de papel e roupas no chão para conter a umidade possui uma correspondentemente kitsch fantasia musical, ao som das canções de Grace Chang, popular cantora-atriz taiwanesa dos anos 1950. Às canções, que ao início podem sugerir uma ruptura quase completa com o universo ficcional, já que efetuadas nos próprios corredores do condomínio, logo demonstram ser produtos da fantasia da garota, a partir de um universo musical cinematográfico que parece ter um pé na própria Taiwan de Grace Chang e outro em Hollywood (Gilda, Os Homens Preferem as Louras); evidenciados, mais que nunca na passagem do momento em que a garota espirra na banheira para um número musical que tem como o espirro – e o evidente temor de contaminação pelo vírus mortal. O caráter alegórico dessa comédia de humor negro, voltado sobretudo para uma crítica ao próprio país, parece mais evidente quando se observa o comentário final, que afirma por sorte ainda terem as canções de Chang com que contar. Se a mescla entre musical e ambientes nada sofisticados pode ser uma atualização de investidas nesse rumo efetuadas no campo do próprio musical clássico americano (Um Dia em Nova York) e da sutil ironia com que são recodificados por um cinema autoral europeu (Os Guarda-Chuvas do Amor), sua ausência de diálogos dramáticos e sua ênfase bem efetivada, no convívio limítrofe entre o cômico e o dramático, é apresentado na patética situação em que a garota acorda completamente rodeada por água. Convívio esse que também sugere um final ambíguo, entre fantasia e realidade, sendo um fecho “lógico” para uma estrutura onde ambientes e personagens desencantados se mesclam ao brilho e os gestos vibrantes das emulações do musical clássico. Muito do aqui utilizado seria novamente disposto no filme que chamaria a atenção internacional para o realizador, O Sabor da Melancia. Como naquele, não para de chover em quase nenhum momento em que se observa de relance alguma janela ou ambiente externo aos apartamentos da dupla. A sua quase absoluta ausência de locações ou imagens da cidade – quando os personagens são observados fora de casa, habitualmente são entrevistos em ambientes igualmente fechados – acentua o senso claustrofóbico e ansioso que atravessa o filme e explode ocasionalmente nas lágrimas tanto de uma como de outro. Ao fazer uso de dimensões como janelas (Janela Indiscreta, Não Amarás) ou buracos (Uma Fresta no Teto, Psicose, Scorpio Nights), algo que o cinema explorou desde muito cedo (Peeping Pete) faz menção tanto a dimensão erótica-voyeur do personagem/espectador mais particular como da absorção do próprio universo cinematográfico como um todo. FIPRESCI em Cannes. Arc Light Films/Central Motion Pictures/China Television/Haut et Courte/La Sept-Arte. 95 minutos.

 

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