Filme do Dia: Aviso aos Navegantes (1950), Watson Macedo

 


Aviso aos Navegantes (Brasil, 1950). Direção: Watson Macedo. Rot. Original: Alinor Azevedo, Watson Macedo & Paulo Machado, a partir do argumento de Watson Macedo. Fotografia: Edgar Brasil. Música: Lindolfo Gaya. Montagem: Watson Macedo, Wison Monteiro & Waldemar Noya. Dir. de arte: Nicolau Lounine. Cenografia: Arnóbio Carvalho. Com: Oscarito, Grande Otelo, Eliana, Anselmo Duarte, Adelaide Chiozzo, José Lewgoy, Sérgio de Oliveira, Ivan Cury, Mara Rios.

Em Buenos Aires, Frederico (Oscarito) embarca clandestinamente em um navio com destino ao Rio de Janeiro. Ele é descoberto por Azulão (Otelo), membro da tripulação do navio, que tira partido do segredo. O capitão do navio, Alberto (Duarte) recebe uma mensagem pelo rádio afirmando que há um perigoso espião internacional a bordo. Também viajam no navio, a cantora Cléia (Eliana), que namora Alberto e é motivo de admiração irrestrita do Príncipe Suave Leão (Cury). E o sinistro Dr. Scaramouche (Lewgoy).

Se algumas intervenções de números musicais soam mais orgânicas, outras surgem como representação de devaneio de Oscarito, convenção essa também utilizada pelos seus congêneres hollywoodianos. Os números cantados em francês e as alusões à cultura hispânica remetem aos tempos da Cinédia (Samba da Vida) e parecem sinalizar para certo “bom gosto” esperado dos espectadores da classe média. Não faltam insinuações singelamente marotas de sexo entre Grande Otelo e Oscarito, quando esse o descobre clandestino e torna-o refém do seu segredo, logo desconstruída em situações de trabalho que invertem a relação habitual de cores no Brasil, com Otelo lendo revistas enquanto Oscarito descasca batatas ou lava uma montanha absurda de pratos. Ou ainda um número em que Oscarito assume a rumbeira a bordo. E na mesma corrente de sinal invertido em relação ao tipicamente esperado, em termos de gêneros, sobretudo à época, Eliana consegue rapidamente vencer as duas vilãs que maltratavam Oscarito e Grande Otelo. E, na talvez cena mais engenhosa, embora com resolução não à altura, que o casal vilão contracena com o que acredita ser seus respectivos parceiros, mas se trata de Oscarito. E até o número mais pretensioso a ser apresentado no navio, o Concerto n.1 para piano de Tchaikovski, finda com um pequeno arremate em samba. Ou ainda o casal de vilões trocando impropérios em língua estrangeira.  E o mesmo pode ser dito da própria trama, que mais parece um amontoado de situações a serviço de uma ou outra gag, para não falar dos números musicais, aqui pretensamente mais organicamente inseridos na trama sob o pretexto de serem apresentados no navio, o que não ocorre apesar disso. Em meio as interpretações um tanto sofríveis, com especial destaque para a canastrice de Eliana, par habitual de Anselmo Duarte (o primeiro nome de ambos serviria aos protagonistas de uma novela-tributo aos tempos da chanchada quase 3 décadas após, Feijão Maravilha), destaca-se a versatilidade de Oscarito. Há ao menos uma pérola dentre os sofríveis diálogos, quando Eliana desfia um verbete, com a devida referência bibliográfica, para explicar o que significa hipótese para Oscarito, sendo também um raro momento de brilho dela. Glauce Rocha surge numa ponta como passageira. Cópia restaurada no cinquentenário de seu lançamento. Atlântida Cinematográfica para U.C.B. 111 minutos.

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