Filme do Dia: O Coração do Cinema (1983), Geneton Moraes Neto & Paulo Cunha

 


O Coração do Cinema (Brasil, 1983). Direção Geneton Moraes Neto & Paulo Cunha. Com Jomard Muniz de Brito.

A contracultura pulsa neste curta em 16 mm, já no ocaso do uso desta bitola e, sobretudo da super-8, para produções desvinculadas de pretensões comerciais de exibição, e no ocaso dela própria, contracultura. Interpretado pelo realizador de incursões marcantes na produção superoitista da década anterior (O Palhaço Degolado, Noturno em Ré-cife Maior) e pensado a partir de um poema de Maiakovski, observa-se um personagem de casaco comprido deslizar como uma sombra (figura de linguagem, pois é filmado de dia) espectral, espécie de flâneur às avessas em relação às promessas de uma modernidade já desencantadas. E se consegue bons efeitos estéticos com muito pouco, como é o caso do personagem ao lado da torre de um farol ou efetuando figuras geométricas com o traçado de seus pés sobre as areias. E afundando nas águas do oceano ao final. Mesmo uma função aparentemente dissonante esteticamente no curta, sua irônica voz over, em padrões de locução bastante vinculados ao documentarismo convencional e trazendo uma analogia dos passageiros (do poema, da vida?) aos espectadores, é interessante em sua inflexão irônica. Em um de seus momentos mais interessantes, escutamos a fala algo alucinada-catártica de Gláuber Rocha, a divagar sobre tudo e todos, sem cabrestos ideológicos, enquanto Jomard escreve em um muro para Gláuber, “eles enlouqueceram”. |18 minutos.

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