Filme do Dia: O Segredo da Porta Fechada (1947), Fritz Lang

 


O Segredo da Porta Fechada (Secret Beyond the Door..., EUA, 1947). Direção: Fritz Lang. Rot. Original: Silvia Richards, a partir do argumento de Rufus King. Fotografia: Stanley Cortez. Música: Miklós Rózsa. Montagem: Arthur Hilton. Dir. de arte: Max Parker. Cenografia: John P. Austin & Russel A. Gaussman. Figurinos: Travis Banton. Com: Joan Bennett, Michael Redgrave, Anne Revere, Barbara O’Neil, Natalie Schafer, Paul Cavanagh, Anabel Shaw, Rosa Rey, James Seay.

O irmão de Celia (Bennett), Rick (Cavanagh), instiga-a para essa viajar sozinha ao México. Lá sente-se instantaneamente atraída por Mark (Redgrave), editor de revistas de arquitetura, que também sente o mesmo. Logo se casam e vão passar a lua-de-mel no país no qual se conheceram. Porém, no meio da lua-de-mel Mark afirma que recebeu um telegrama com uma proposta de compra de sua revista e viaja. Paquita (Rey), alerta a patroa que não chegam telegramas a hacienda. Depois, chega uma correspondência de Mark a chamando para Levender Falls. Após uma viagem de trem de cinco dias, quem se encontra na estação para busca-la é Caroline (Revere), irmã de Mark. Ao chegar na mansão da família, Celia conhece a preceptora de um insuspeito filho de Mark, David (Dennis), a senhorita Robey (O’Neil). Mark chega após alguns dias, mas após falar friamente com Celia, despede-se novamente dela.

O exagero derramado de algumas narrativas góticas do período se encontram presentes aqui em efusão, assim como a voz over feminina a substituir a do seu oposto de gênero no noir mais típico. Assim temos México, representando o apelo dos instintos humanos sobre a racionalidade e um casamento no qual o comentário do medo da noiva de estar se unindo a um estranho coincide com o próprio sumiço desse em ocasional escuridão quando dela se aproxima. E a sexualidade está ali, sempre a espreita, desde os momentos iniciais, em que Celia afirma sobre a ausência de amor (e segurança) após o desaparecimento do irmão. E não há como não perceber sua dívida para com o Rebecca (1940), de Hitchcock, na mansão sombria, na presença ausente da mulher falecida de Mark, nos locais interditos da casa (associados aqui com as lacunas mentais de seu proprietário maníaco), no incêndio que a destrói,  e na figura ameaçadora e bem conhecedora de tudo que Celia desconhece, e algo máscula como a governanta daquele. E como se não bastasse um irmão e uma irmã tão emblemáticos, e uma explicação que conjuga amor e morte, no verdadeiro museu de ambientes que reproeduzem crimes célebres, não faltam referências ao inconsciente a até mesmo a Freud. Lang ingressa no subgênero, no entanto, sem os arroubos extravagantes das produções de Selznick. Por mais que essas se encontrem em outras dimensões, talvez, como no roteiro, que faz de Mark um mantenedor de um verdadeiro museu do crime em sua residência, com uma quantidade absurda de salas, embora se encontre falido! E uma voz tão irritantemente didática quanto algumas de, uma vez mais, Hitchcock (a exemplo da paradigmática personagem vivida por sua filha em Pacto Sinistro). No caso aqui, trata-se de uma visitante do museu doméstico.  E o filme trabalha com alguns clichês associados ao universo subjetivo feminino, como o da ausência (preenchida inicialmente pelo irmão, depois por Mark, no caso em questão, que nada mais é que o flerte com a própria morte) e também com a tentativa entre consciente e não  de mudar o homem que ama, no caso nada menos que um psicopata. E pior que, aparentemente, consegue, em outra licença extravagante de seu roteiro, que os filmes com temática similar não ousavam compartilhar. Walter Wanger Prod. para Universal Pictures.  95 minutos.

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