Filme do Dia: Don Diego i Pelageya (1928), Yakov Protazanov
Don
Diego i Pelageya (URSS, 1928). Direção: Yakov Protazanov. Rot. Original: Vasili
Lokot. Fotografia: Yevgeni Alekseyev. Dir. de arte: Sergei Kozlovski. Com:
Mariya Blyumental-Tamarina, Anatoliy Bikov, Vladimir Mikhaylov, I. Levkoyeva,
Ivan Iudin, Vladimir Popov, Daniil Vvedenskiy, Aleksandr Gromov.
Pelageya Demina
(Blyumental-Tamarina) é uma senhora de 80 anos acusada de cruzar a linha do
trem em um ponto inadequado. Intimida pelo chefe da estação (Bikov), que possui
fantasias de ser como o herói dos quadrinhos Don Diego, Pelageya não cumpre com
a intimação judicial e recebe ordem de prisão.
Seu marido (MIkhaylov) observa entristecido sua partida e fica ainda
triste quando descobre que não consegue ordenhar a vaca e realizar outros
afazeres como a esposa. Movimenta-se então para tentar libertá-la e encontra
ajuda dos membros da cooperativa agrícola (kolkhoz) local.
Desde as suas
primeras imagens, em que a apresentação dos três tipos de estações ferroviárias
(uma que centraliza boa parte dos ramais, outra menos portentosa e uma terceira
bem mais modesta) e a escolha pela mais modesta, o filme já imediatamente
sinaliza sobre qual universo social será destacado, o de gente simples,
camponesa e provinciana. E, juntamente a isso, para o tipo de proposta de
cinema buscada por Protazanov, muito distante das incursões épicas e da extrema
sofisticação estética de realizadores contemporâneos como Eisenstein, mas
buscando dialogar com um público mais amplo e com uma produção nem de longe
destituída de engenhosidade, como as cenas iniciais já apontam. Do mesmo modo,
uma diferença ideológica faz-se presente em relação às obras-primas de um
realizador como Eisenstein. O populacho aqui apresentado não ganha colorações
idealizadas e quase sobre-humanas daquele, como observado no flerte entre o
marido de uma mulher da comunidade e uma sua vizinha, percebido por ela ou na
mesquinhez oportunista com que o chefe da estação é apresentado desde o
príncipio, numa não muito velada crítica ao burocratismo do novo regime. Pode
ser considerado um recurso mais comodamente cínico, em termos de elaboração
dramática, já que contando com uma potencial empatia dos seus espectadores, mas
não só, pois nessa crítica do realizador e empatia de seu espectador, estavam
igualmente embutidas uma identificação de suas fraquezas, tanto dos camponeses
quanto do representante do Estado. Há um
crítica fortemente implícita no modo como o Estado é muito pouco flexível e incapaz
de se comunicar com as fortes culturas regionais em seu determinismo – crítica
que poderia, caso devidamente ampliada, e a revelia ou não de seu realizador,
valer para a relação da administração soviética russa para com seus “países”
satélites. A maior simplicidade estética e narrativa nenhum pouco é sinônimo de
vulgaridade na apresentação visual. Muito pelo contrário. Protazanov possui um
olhar aguçado para belas composições como a liricamente melancólica que
observamos Pelageya a atravessar uma ponte em seu vilarejo que a levará ao
tribunal no qual será julgada, numa cidade de porte e feições urbanas, como que
sob os olhos de seu marido. A via sacra que os jovens da cooperativa camponesa
experimentam quanto buscam ajudar o marido de Pelageya a tê-la livre
provavelmente deve ter inspirado ou ao menos antecipado um filme inteiro, o
cubano A Morte de um Burocrata, que
efetua uma crítica similar ao regime cubano. E, para além da burocracia, o
filme critica a retórica vazia com pretensões de teoria (sendo o nome
“dialética” utilizado de forma apenas a provocar algum efeito) numa reunião
anti-burocracia efetuada justamente pelos burocratas. Nem mesmo o final, à
primeira vista algo oficioso, com o casal de idosos se rendendo à comuna de
jovens, ou seja, a tradição se rendendo às novas ideias, está livre de forte
ironia, com um busto (mais um elemento oficioso a ser apropriado também
jocosamente no filme cubano) se espantando inicialmente e rindo da decisão,
riso esse que pode ser interpretado, no mínimo, de forma ambígua. Infelizmente,
a promessa inicial do filme não se cumpre de todo, ao insistir demasiado –
ainda que menos que o filme de Gutierrez Aléa, a bem da verdade – em um tema
praticamente único. E, mesmo que por critérios bem diversos dos realizadores
vanguardistas, tampouco os personagens tem aqui desenvolvido o seu perfil
psicológico, algo que até poderia ser sugerido por seu prólogo, quando
acompanhamos um pouco do imaginário do chefe da estação, mas que, na verdade,
servirá apenas como mais um exemplo de crítica ao burocrata como se perceberá
após. Mezhrabpom-Rus. 58 minutos.

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