Filme do Dia: O Medo Devora a Alma (1974), Rainer Werner Fassbinder

 


O Medo Devora a Alma (Angst Essen Seele Auf, Al. Ocidental, 1974). Direção, Rot. Original e Dir. de arte: Rainer Werner Fassbinder. Fotografia: Jürgen Jürges. Montagem: Thea Eymèsz. Com: Brigitte Mira, El Hedi ben Salem, Barbara Valentin, Irm Hermann, Karl Scheydt, Marquard Bohm, Doris Mattes, Lilo Pempeit, Rainer Werner Fassbinder.

A faxineira de meia-idade Emmi (Mira) se refugia da chuva em um bar freqüentado por árabes e conhece o marroquino El Hedi ben Salem (Salem), conhecido por Ali, por quem acaba se apaixonando e casando. O fato de ser  vinte anos mais jovem, negro e estrangeiro, faz com que o casal seja mal visto, principalmente pelo círculo social de Emmi: sua família a rejeita, suas vizinhas não a deixam em paz, suas companheiras de trabalho passam a ignorá-la. Após uma viagem de férias tentando fugir da crescente pressão social, o casal recebe um novo tratamento. Tanto as amigas de trabalho, como as vizinhas e a família passam a ter uma certa “tolerância” para com o casal, desde que esse conceda favores em troca. Cansado de ser explorado e visto como um ser “exótico”, Ali volta a se encontrar com a dona do bar em que conhecera Emmi, Barbara (Valentin), para quem não passa de objeto sexual. Após crescentes animosidades, Emmi retorna ao bar onde conhecera Ali, onde revivem a cena inicial de sua relação. Porém, ele tomba ao chão, vencido pela dor de uma úlcera. Emmi o apóia no hospital.

Uma das obras-primas de Fassbinder e do Novo Cinema Alemão. Aqui, o realizador efetiva uma releitura de um dos clássicos do melodrama, Tudo Que o Céu Permite (1955), de Douglas Sirk (também relido, assim como o próprio filme de Fassbinder, por Todd Haynes em Longe do Paraíso). É mais que evidente que Fassbinder efetiva uma adaptação muito próxima de seus interesses. Ou seja, parte-se de um retrato de família burguesa e de toda a suavização provocada pela melosa trilha musical do original para um ambiente proletário, em que o controle social ganha uma dimensão que ultrapassa todos os ambientes freqüentados pelo casal e se espraia para o próprio narrador, sendo muitas das cenas do casal vislumbradas a partir de portas semi-abertas, intensificando ainda mais o efeito de distanciamento que a postura não naturalista dos atores constrói. Nesse sentido, já de início, fica bastante demarcado o quão direto e seco, em termos estilísticos e narrativos, se dá a apresentação dos personagens e da situação. É impressionante o domínio tanto sobre o corte quanto sobre a mise en scene, em que as cores e a precariedade dos ambientes, sujos e mal iluminados, reforçam a própria precariedade em que se situa a relação dos protagonistas. Por outro lado, o colorido kitsch que impregna as cortinas do apartamento de Emmi, assim como as estampas de seus vestidos ao fundo da sobrecasa sóbria, parecem apontar para um comovente desejo de felicidade que quer ir além desse mundo cinzento. Ao contrário de Sirk, tampouco aqui os personagens são somente vítimas de todo o processo de vilipendiação efetivado pela sociedade. Fassbinder dota cada um de uma certa autonomia diante dos eventos. Emmi, por exemplo, apesar de sofrer amargamente ao ter que abdicar de suas relações sociais e ter a presença constante de olhares para si, tampouco deixa de estigmatizar uma imigrante recém-chegada ao emprego, do mesmo modo que o fora anteriormente e, mesmo de sacrificar algo da dignidade de sua relação com Ali, apenas para provocar um certo prazer dessas mesmas colegas de trabalho. Ali, por sua vez, vinga-se do mau humor de Emmi, indo buscar sexo e um certo amparo com uma mulher mais jovem ou rindo, como os outros companheiros de trabalho, quando ela vai atrás dele. Fica mais que evidente que, para além da dimensão sentimental (e aqui se encontra a grandeza do filme, pois em nenhum momento o realizador apela para o cinismo) que une o casal, e a solidariedade que por vezes se torna ainda mais forte pelo sofrimento vivido em comum, o filme tampouco deixa de marcar fortemente a onipresente relação de troca que guia a sociabilidade humana, frisada de modo quase didático no posterior Mamãe Küsters vai para o Céu, com a mesma Brigitte Mira como protagonista. Sem dúvida, essa tênue relação entre opressor/oprimido e indivíduo/sociedade influenciará grandemente Dogville, de Lars Von Trier. Filmverlarg der Autoren/Tango Film para Filmverlag der Autoren. 93 minutos.

 

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