Filme do Dia: One to One: John & Yoko (2024), Kevin Macdonald & Sam Rice-Edwards
One to One: John & Yoko (EUA,
2024). Direção Kevin Macdonald & Sam Rice-Edwards. Fotografia David
Katznelson. Montagem Bruna Manfredi & Sam Rice-Edwards. Dir. de arte Kevin
Timon Hill. Cenografia Tatiana Macdonald.
A televisão parecia ser um dos
principais pontos de apoio neste momento de virada existencial de Lennon, que
estava se mudando para um pequeno apartamento no Village, em Nova York. Algumas
imagens de programas da época emergem e, dentre elas, dos presos na rebelião em
Attica e – já se antecipa o que virá devido a sua presença igualmente em 1971– O Ano em Que a Mudou o Mundo -What’s Happening? – o inesperado protesto
em uma apresentação natalina ao vivo para Nixon, no qual uma das coralistas,
deflagra uma faixa de protesto e reclama do bombardeio e das mortes no Vietnã.
E um confronto aberto de Abbie Hoffman e quem o entrevista, assim como o formato
do programa, para o completo constrangimento do último. Um homem vasculha o
lixo de Dylan e encontra, entre outros objetos, um exemplar do Daily News
(“não é à toa que ele vem tendo estes posicionamentos políticos ultimamente”),
Clorox (pelo qual exclama ao saber que faz uso dele) e uma seringa. Diante da
prisão de Attica, um repórter da CBS, ainda atordoado, fala que foi afetado
pelo gás lacrimogêneo lançado e que pessoas estão sendo mortas lá dentro, antes
de pedir para interromperem a transmissão. Yoko fala pelo telefone com o
jornalista David Peel, do quão maltratada foi pelo público, e que nenhum dos
outros Beatles sequer comentou uma palavra a seu respeito, enquanto ela havia
declarado sobre eles serem pessoas talentosas e criativas, e que isso era
chauvinismo masculino. E que havia sofrido três abortos durante este período –
sugerindo serem em parte por conta destas reações adversas. Jerry Rubin surge
em um programa de entrevistas no qual já se encontram John & Yoko e de
Nixon afirma ter sido o responsável pelo clima que provocou as mortes em Attica
e Kent State (o assassinato de quatro estudantes em meio aos protestos
estudantis), após ter brincado que o apoiava por sua aproximação com a China.
Rubin abraça efusivamente o casal antes de se sentar. Outra das convidadas é a
cineasta Barbara Loden. Estas imagens de arquivo se contrapõe outras imagens de
arquivo, com o show do mesmo nome que foi intitulado este documentário realizado, por Lennon e a Elephant’s Memory Band no Madison Square Garden. Embora ao
início a maior parte do que traz de novo, em termos de iconografia do
casal, parecendo se encontrar menos
associado a vídeos que a áudios, o transcorrer apontará para uma série de
imagens que não apenas reproduzem o observado em vários outros documentários
envolvendo Lennou ou o casal; quanto aos aúdios, os que são escutados a partir
de uma situação de filmagem no que teria sido o pequeno apartamento de dois
cômodos que viveram e que Lennon afirma que era como voltar a ter uma vida de
estudante, após a enorme propriedade que comprara em Ascot, próximo de Londres.
Dentre estas imagens pouco usuais, encontra-se a leitura de um poema de Allen
Ginsberg numa exposição de Yoko. Phil Spector pode ser visto ao fundo e as
vezes também ouvido. É também uma performance, com objetos com os quais os
homens usam ou deveriam usar para sua higiene após defecarem. A primeira mulher negra no congresso
estadunidense. O sequestro a banco que motivaria pouco depois o filme Um Dia
de Cão. Imagens publicitárias também emergem e se emula o efeito sonoro da
mudança do canal manualmente. Lennon
cantando John Sinclair, ao lado de Yoko simulando uma percussão. Dois
dias depois o ativista Sinclair é solto da prisão, e há uma ligação no qual
conversa com Yoko e Lennon, uma das poucas ligações também filmadas, as outras
emergem como áudio e letras coloridas e grandes na imagem. Lennon esquece os últimos versos de Attica
State numa filmagem ao lado de Jerry Rubin. Infelizmente o documentário não deixa de cair
na tentação de compor seus próprios “videoclipes”, mesmo que com músicas não
exatamente as mais óbvias (Don’t Worry, Kyoko, Instant Karma, Hound
Dog - com imagens de apoiadores de Nixon o celebrando, Age 39). Há
também sua presença em um discurso ao lado de Yoko em um gigantesco protesto
pacifista contra a Guerra do Vietnã, em Nova York. E também Lennon e Yoko
cantarolando The Luck of the Irish. E o temor de Jim Keltner, inclusive
de comentar ao telefone, sobre o risco que Lennon poderia estar correndo de ser
assassinado por seu ativismo político. A maior parte das vezes as notícias que
emergem das matérias de TV não se vinculam ao que é observado no plano mais
próximo de Lennon. Porém, há exceções. Uma das mais destacadas diz respeito ao
temor de Lennon e seu interlocutor na linha de estarem sendo grampeados em suas
ligações. Logo a seguir, a notícia sobre a prisão de cinco homens que tentava
colocar equipamento de escuta em um comitê democrata, que viria a se tornar o
escândalo de Watergate. Lennon dá uma entrevista em uma matéria sobre sua possível
deportação em dois meses e o desejo de permanecer no país, preferencialmente em
Nova York, na saída do prédio onde foram tratar sobre o tema, sendo que um
grupo de apoiadores canta uma canção em apoio de sua permanência. O atentado a
bala contra o ex-governador do Alabama e ultra-conservador George Wallace,
observado ferido e ensanguentado ao chão. Da cama do hospital Wallace grave
entrevista e a primeira representante negra no Congresso o visita e afirma ter
sido um encontro bastante prazeroso. Um dos temas recorrentes das ligações
telefônicas, por bizarro que seja, e marcador temporal do próprio documentário,
é o de várias ligações atrás de moscas provavelmente para o filme experimental
de Yoko, Fly. Algumas das ligações efetuadas por May Pang, a secretária
que teve um relacionamento com Lennon, tema de documentário específico
sobre. Os violentos protestos – ou a
violenta repressão policial a eles – ao som de Cold Turkey no show que
dá título ao filme, a ocorrerem em Miami, no momento da recondução de Nixon
como candidato republicano, após Lennon ter negado participar de uma turnê e
apresentação neste momento, temendo justamente por violência, e provavelmente
por sua condição vulnerável ainda sem o green card, e podendo ser
deportado ou ter o visto negado como foi o caso de Chaplin, homenageado neste
mesm ano com um Oscar honorário após vinte anos ausente do país, como relembra
Dick Cavett. Imagens do ator, descendo muito lenta e cuidadosamente o avião que
pousa nos Estados Unidos haviam sido observadas anteriormente. Em um dos
momentos mais felizes de montagem, ouvimos o grito de Lennon nesta canção se
misturar ao grito de uma apoiadora do presidente, logo após este anunciar que
aceita sua recondução. Quando indagamos se o casal teria assistido, de fato, o
documentário sobre a instituição de internados com deficiência mental em
péssimas condições, Willowbrook, a seguir se fica consciente de que o concerto
que serve como eixo do documentário foi para angariar fundos para a
instituição, não para fechá-la- só viria a ser fechada em 1987. Lennon e Yoko
assistindo uma conferência feminista no qual é votado se deve haver a
participação ou não de homens na audiência. E imagens a registrarem esta viagem
ao Maine. Os preparativos para a filmagem de Fly com câmeras e uma
mulher despida sobre uma cama, com planos aproximados flagrando uma mosca
pousada em seus pelos pubianos. Stevie Wonder começa a cantar, como surpresa,
no momento em que Give Peace a Chance é executada. Em março de 1973 a
mudança para o Dakota. Co-produzido entre outros por Sean Lennon e Brad Pitt,
este documentário demonstra tanto que a fixação de Lennon pela TV antecede o
efeito digital da era da internet, como também a postura do casal antecipa a
hiper super exposição de si, democratizada dos tempos em que este documentário
foi lançado, e que Lennon, de forma inteligente, escaparia em seus anos finais
no Dakota. |Mercury Studios/Plan B/KM Films. 101 minutos.![]()

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