Filme do Dia: As Bestas (2022), Rodrigo Sorogoyen
As Bestas (Espanha/França, 2022).
Direção Rodrigo Sorogoyen. Rot. Original Rodrigo Sorogoyen & Isabel Peña.
Fotografia Alejandro de Pablo. Música Olivier Arson. Montagem Alberto del
Campo. Dir. de arte José Tirado. Cenografia Marta Loza Alonso. Figurinos Paola
Torres. Maquiagem e Cabelos Irene Pedrosa & Jesús Gil. Com Marina Foïs,
Denis Ménochet, Luiz Zahera, Diego
Anido, Marie Colomb, Luisa Merelas, José Manuel Fernández Blanco, Federico
Pérez Rey.
Olga
(Foïs) e Antoine (Ménochet) são um casal francês que se muda para um pequeno
vilarejo rural na Galícia, buscando uma vida tranquila. Desde o início, no
entanto, enfrentarão a resistência dos vizinhos agressivos e bastante reativos
Xan (Zahera) e Lorenzo (Anido), cuja animosidade ganha um novo patamar, após
Olga acusar tomates podres na colheita deles e Antoine descobrir que foram
postas duas baterias na caixa d´água a suprir à plantação.
Há um
ponto de inflexão importante na trajetória da rivalidade retratada. Uma
conversa a sério de Antoine com Xan. Com os pratos postos sobre a mesa,
percebe-se que o ressentimento e o ódio devotado do último ao primeiro possui
implicações econômicas e também leva em conta sua arrogância, ao sempre
depreciar o irmão como retardo. Há uma ruptura estrutural no filme que faz a
tão publicizada em torno de Anora soar ainda mais anêmica. Ela é tão
desnorteadora da perspectiva que observamos tudo que explicitá-la aqui seria um
ato de covardia para com a produção e seus espectadores desavisados. Há uma leve similaridade entre o olhar
perdidamente triste da Olga de Foïs com Norma Bengell. O modo anti-sentimental
com que lida com a tragédia, que muda a configuração dramática do filme é tão
exemplar que chega a nos desorientar, por um tempo, sobre o que de fato terá
ocorrido. Ou sobre a índole da personagem envolvida. Não se trata de mera
recusa da sentimentalidade, no entanto. O filme aprofunda as relações humanas,
suas tensões, ódios e outros afetos de maneira pouco dada a lugares-comuns que
nos tragam uma zona de conforto e mera identificação com este conforto. De
forma honesta e nada plana. E as situações limítrofes podem ser encaradas de
maneira literal, pois se trata dos terrenos de cada propriedade. E nunca se faz
uso de facilidades. Como a do cachorro que se imaginará morto em momento
relativamente precoce do que nos é contado. Quem buscar somente o conforto
alegórico apressado da xenofobia não o encontrará se observá-lo com cuidado.
Estamos longe do território de Sob o Domínio do Medo, embora
aparentemente tão próximos quanto os vizinhos em disputa. Há uma reconciliação
entre mãe e filha ao final que poderia soar forçosa, mas nem de longe
inverossímil. Ou talvez marinada em uma sororidade idealizada – o mesmo valeria
para o contato, próximo ao final, entre Olga e a mãe de seus antagonistas. A
dissonância nos acordes finais da trilha se sobrepõe à própria mistura de
sentimentos de Olga ao final – alívio, tristeza e compadecimento parecem se
misturar. E mesmo podendo ter tido um corte ainda anterior e menos definitivo,
não propicia um final redundante, de lágrimas e descarrego e catarse completa, assim
como a punição aos culpados. Todo o elenco traz interpretações afiadas, mas a
de Foïs é particularmente chamativa. Arcadia Motion Pictures/Caballo
Films/Cronos Ent. 137 minutos.![]()

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