Filme do Dia: O Clube (2015), Pablo Larraín

 


O Clube (El Club, Chile, 2015). Direção: Pablo Larraín. Rot. Original: Guillermo Calderón, Pablo Larraín & Daniel Villalobos. Fotografia: Sergio Armstrong. Música: Carlos Cabezas. Montagem: Sebastián Sepúlveda. Dir. de arte & Figurinos: Estefania Larrain. Com: Roberto Farías, Antonia Zegers, Alfredo Castro, Alejandro Goic, Alejandro Sieveking, Jaime Vedell, Marcelo Alonso, Francisco Reys, José Soza.

Numa residência onde moram um grupo de ex-padres excomungados pelo Vaticano seja por seu envolvimento com crimes da ditadura política ou de abusos sexuais,  e supervisionados por Irmã Monica (Zegers), um padre recém-chegado se suicida diante de todos após um homem que fora abusado por ele e com problemas mentais, Sandokan (Farías), postar-se diante da casa lhe gritando sobre as ações sexuais que foram perpetradas pelo então padre quando Sandokan era criança. Um enviado do Vaticano chega com o intuito de investigar como se encontra a situação da casa e com o intuito de fechá-la. Tensões surgem com a presença do emissário e os hábitos dos moradores da casa. A situação fica ainda mais tensa quando Sandokan, que vive rondando o local, decide montar um acampamento improvisado poucos metros abaixo da edificação.

Larraín parte de um tópico que potencialmente já desperta interesse por sua contemporaneidade ao momento de produção do filme há algum tempo – o dos “crimes sexuais” (os políticos, mais restritos ao contexto específico chileno, ficam em plano bastante secundário quando muito, tocados que são apenas de raspão) de curas católicos – para desenvolver uma realização que não consegue ficar à altura de seus propósitos. Sem conseguir enfrentar de forma mais coesa e sólida o que parece a situação de tensão humana mais evidente lançada, a do padre “inquisidor” e as “falhas”, erros, crimes ou que nome se queira dar aos atos praticados por seus inquiridos, o filme prefere destacar desdobramentos narrativos de maior apelo espetacular-sensacional. Se os cânticos e outros estranhamentos propositais pretendem suscitar uma dimensão algo esotérica sem abdicar de sua narrativa realista, são utilizados sem a mesma maestria que a de uma Lucrecia Martel. E, por outro lado, soçobra um peso dramático  demasiado ostensivo, pouco matizado, que remete praticamente aos excessos dos dramas góticos e maneiristas do passado que beira, por vezes, o humor involuntário. Para piorar tudo, há uma evidente falta de um ponto de vista construído de forma mais lúcida que tanto faz com que a narrativa ocasionalmente saia dos trilhos – como a incursão ao mundo privado de Sandokan sem nenhum aparente motivo que não o de apresentar sua sexualidade tornada “perversa” pelos abusos sofridos – quanto não se erija uma perspectiva que seja a que o filme toma partido ou, ao menos, uma apresentação bem elaborada de perspectivas distintas observadas com relativa neutralidade. E, demonstrada a fragilidade exposta na elaboração da narrativa e construção sólida de seus personagens, resta somente o filme patinar em meio a uma recusa de uma narrativa mais ortodoxa sobre um tema de longe mais bem explorado por outros filmes (a exemplo do recente Philomena) e a incapacidade de gerar uma alternativa consistente a essa, coroada por seu patético final. Destaque para Zegers, que consegue encarnar seu papel com uma dignidade do que acredita ser não apenas sua missão, mas sua forma de manter sua identidade ainda vigente, sem aparentemente redundar na hipocrisia ou cinismo, por mais que opções equivocadas quase comprometam sua performance – notadamente a cena na qual tenta consolar um inconsolável padre após este ter perdido seu galgo de corridas. Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim. Fabula. 98 minutos. 

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