Dicionário Histórico-Crítico Sul-Americano#151: Arthur Omar
OMAR, ARTHUR (*) (Brasil, 1948). Durante um período do declínio do cinema brasileiro nos anos 80, Artur (ou Arthur) Omar emergiu como talvez o mais significativo representante do cinema experimental brasileiro. Sua obra em cinema e vídeo do final dos anos 70 e anos 80 sempre levantava questões sobre arte e política, enquanto experimentava com ideias formais e temáticas. Nascido em Poços de Caldas, Minas Gerais, como Arthur Omar Noronha Squeff. Desde o início de sua carreira cinematográfica, sua obra pode ser caracterizada como "experimental". Seu terceiro curta, Congo (1972), construído como um texto semiótico, começava a desconstruir a forma documentário. Jean-Claude Bernadet descreveu Congo, que contém mais texto escrito que imagens (e que, na verdade, nunca apresentam seu tema, o congo ou a congada, uma dança), como sendo sobre "a relação que estabelecemos com a cultura popular, desde que nosso único modo de compreendê-la, porque jamais seremos capazes de produzi-la, é através da mediação de nossa cultura de base impressa" (1990, p.89).
O filme seguinte de Omar, seu primeiro e único longa, Triste Trópico, zomba da fé do público na realidade documental. E é um exemplo bastante precoce do que hoje chamamos "mockmentary". O filme parodia à jornada antropológica de Claude Lévi-Strauss pela Amazônia, Tristes Trópicos (1955). No filme de Omar, Professor Arthur se torna um líder messiânico de uma tribo indígena, que é diagnosticada postmorten pelos "cientistas" como louca. Ismail Xavier argumenta que "após equacionar o sertão com o mar, e gravando indelévelmente a tristeza onipresente dos trópicos, o Brasil é representado [por Omar] como o locus de uma jornada numa época que a redenção é impossível." (ver Cinema Novo e Pós-Cinema Novo - Apropiação do Imaginário da Descoberta", em King, López e Alvarado, 1993, p. 203).
Enquanto os primeiros filmes de Omar questionavam a habilidade dos realizadores a documentar o pouco familiar e a veracidade dos documentários em geral, Música Barroca Mineira (1984), modifica a compreensão básica do espectador e a interrelação de sons e imagens. Ostensivamente "sobre" a música barroca do século XVIII (composta por negros) no estado de Minas Gerais, o filme de Omar parece questionar o status da cultura e história brasileiras, através de uma mistura borgeana de coisas europeias, africanas, americanas, e até asiáticas. Parodia, em particular, o domínio da religião europeia - através de ícones cristãos - e sua congruência com a música dos tempos coloniais - Bach, Mozart, órgão de igreja, etc. O "barroco" do título é invocado do início ao final de Música Barroca Mineira em extravagante musical e gestos cinematográficos, imagens grotescas, e contrastes da edição. O décimo segundo filme de Omar, O Inspetor (1988), é um curta "mockumentary" sobre os métodos utilizados pelo detetive policial Jamil Warwar, que supostamente resolveu mais de 3 mil casos de assassinatos e outros crimes violentos no Rio de Janeiro. Notadamente Warwar, conhecido no Brasil como "Baretta Brasileiro", por sua habilidade de disfarçar-se, na verdade interpreta a si mesmo.
Omar se afastou um pouco dos holofotes, desde que seus filmes foram exibidos no Congrsso Internacional de Cinema Experimental, em Toronto, Canadá, mas uma instalação de sua carnavalesca fotografia, "Antropologia da Face Gloriosa (O Grande Muro), 1973-1998", foi exibida na 24ª Bienal de São Paulo. Ver também CINEMA NOVO, CINEMA ETNOGRÁFICO.
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 432-33.
(*) N. do E: Grafado equivocadamente no original como Artur.

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