Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#168: Jorge Luis Borges



 BORGES, Jorge Luis. (Argentina, 1899-1986). À parte ser um dos maiores escritores do século XX, Jorge Luis Borges também se aventurou um pouco em crítica cinematográfica e roteiros, e sua obra continua a ter grande influência em muitos realizadores. Nascido em Buenos Aires como Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, mudou-se com sua família para a Suíça em 1914, onde frequentou escola. Viveu na Espanha após a I Guerra Mundial e se uniu ao movimento literário anti-modernista, os ultraistas. Retornou à Argentina em 1921, após o que publicou poemas e ensaios em revistas literárias surrealistas. Sua primeira coleção de contos, El Jardín de Senderos que se Bifurcan (1941), contendo um conto de mesmo nome, um influente texto não linear, que possui um recorrente labirinto circular, e sendas separadas, dando ao leitor escolhas que poderiam levar a qualquer parte. (Este foi também seu primeiro texto a ser traduzido ao inglês, em 1944). 

Borges começou a escrever críticas de cinema em 1931, na época apreciando particularmente os filmes silenciosos dirigidos por Josef Von Sternberg. Ainda que fosse bastante crítico da maioria dos filmes, particularmente daqueles argentinos, reservou admiração para La Fuga (1937), de Luis Saslavsky, e Prisioneros de la Tierra (Prisioneiros da Terra, 1937), de Mario Soffici. Foi um poliglota, um notável tradutor, e um multiculturalista. Acreditava na busca por uma verdadeira identidade argentina, que ele encontrou no gaúcho ficcional Martin Fierro, a quem devotou um livro de ensaios em 1953. Escreveu dois roteiros com Adolfo Bioy Casares, em 1951, que publicaria em 1955. Somente um destes, Los Orilleros, foi realizado enquanto filme, dirigido por Ricardo Luna (Argentina, 1975). O primeiro filme baseado em um conto de Borges, "Emma Zunz", intitulado Días de Odio (Argentina, 1954), também foi o primeiro esforço individual como diretor de Leopoldo Torre Nilsson. Aparentemente Borges trabalhou próximo do diretor, mas não se importou com o filme concluído. A obra escrita de Borges foi amplamente aclamada ao redor do mundo nos anos 1960, década na qual dois outros filmes argentinos foram adaptados de suas histórias, El Hombre de la Esquina Rosada (1962), dirigido por René Mugica, e Invasión (Invasión, 1969), para o qual co-escreveu o roteiro com o diretor Hugo Santiago. Crescentemente os contos de Borges foram adaptados em filmes europeus, um dos mais significativos sendo Strategia del Ragno (A Estratégia da Aranha, 1970), de Bernardo Bertolucci, no qual é encontrado o conceito da história universal como uma "história ou metáfora escrita por diversos personagens que, por sua vez, são escritas por ela." (Cozarinsky, 1988, p. 109).

Uma das histórias mais populares sa serem adaptadas é "La Intrusa", que foi a base de um filme iraniano, Ghazal  (1975); um filme brasileiro, A Intrusa (1979), dirigido por Carlos Hugo Christensen; e um filme basco de uma hora, Oraingoz izen Gabe (Todavia sin Nombre, Espanha, 1986), assim como um curta espanhol (1985) e um filme para a tv espanhola (1993). Mais destacadamente, muitas produções europeias dos anos 60 e 70 fazem referências ao escritor argentino ou são comparadas aos seus escritos, incluindo aquelas realizadas pelos diretores franceses Alain Resnais e Jacques Rivette, e particularmente o britânico Nicolas Roeg (Performance, 1970, co-dirigido por Donald Cammel e The Man Who Fell to Earth/O Homem Que Caiu na Terra, 1976) e Jean-Luc Godard (por exemplo, Les Carabiniers/O Pequeno Soldado, 1962 e Alphaville, 1965). Na América Latina, o gigante do Cinema Novo brasileiro Gláuber Rocha tem sido comparado aos escritos de Borges, e quase todo filme realizado pelo exilado chileno Raúl Ruiz é potencialmente borgiano em suas formas narrativas labirínticas, intrincadas e multi-referenciais. 

Na seara doméstica, Borges foi galardoado com o Prêmio Nacional de Literatura, pela Universidad de Cuyo, o primeiro dos muitos doutorados honorários. De 1956 a 1970 ensinou literatura na Universidad de Buenos Aires, e ocasionalmente em outras instituições. Começou a perder sua visão e nunca aprendeu braille. Durante os últimos anos de sua vida, de 1970 em diante, viveu com sua mulher, que era efetivamente sua secretária. Viajou extensamente nestes anos e em 1986 morreu de câncer no pulmão, em Genebra, Suíça.

Fonte: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman&Littlefield, 2014, pp. 89-91. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme do Dia: Der Traum des Bildhauers (1907), Johann Schwarzer

Filme do Dia: El Despojo (1960), Antonio Reynoso

Filme do Dia: Happiness (2017), Steve Cutts