Rossellini, Mais que uma Vida (2025), Ilaria De Laurentiis, Rafaelle Brunetti & Andrea Paolo Massara



Rossellini, Mais que uma Vida (Roberto Rossellini, Più de una Vita, Itália, 2025). Direção Ilaria De Laurenttis, Rafaelle Brunetti & Andrea Paolo Massara. Rot. Original Rafaelle Brunetti. Música Mattia Leonardi.

Embora o padrão formal não divirja muito de vários outros perfis biográficos audiovisuais recentes, com os retratados sendo disponibilizados por áudio em sua própria voz ou na de terceiros, e fazendo uso de imagens exclusivamente de arquivos, aos quais se sobrepõem áudios de diversas épocas – de colaboradores, ex-mulheres, filhos como Renzo (não confundir com o irmão, autor das trilhas de vários de seus filmes) e Isabella Rossellini, o recorte buscado seria ao menos mais de acordo com a visão de mundo perseguida pelo realizador, em seu decidido afastamento da indústria cinematográfica. Já desacreditado em seu ciclo de realizações com Ingrid Bergman, com quem viveu uma relação atribulada e estreitamente vigiada por correspondentes italianos e estadunidenses com afinco, ao invés de se buscar se reaproximar do padrão dos filmes que lhe trouxeram fama internacional (Roma: Cidade Aberta, Paisà), o diretor aceita o convite de Nehru para realizar uma filmagem na Índia que se tornará uma divisora de águas em sua carreira – embora, depois dessa, ainda se lance em umas poucas empreitadas de apelo comercial e midiático como De Crápula a Herói, onde dirige ninguém menos que Vittorio De Sica. Pouco se sabe, igualmente, ao contrário da farta iconografia e repercussão de sua relação amorosa com Bergman, de que seu envolvimento com Sonali Dasgupta, também casada à época, como Bergman ao iniciar sua relação com ele, provocou escândalos similares na Índia, e inclusive confisco do material filmado até intervenções externas – uma delas a cargo de Bergman. E não deixa de ser paradoxal que mesmo buscando um afastamento crescente e radical dos holofotes, Rossellini voltasse a eles, e cada vez menos por seus filmes. Seu mal estar com um roteiro repetitivo nas entrevistas e a falta de espaço cedido a seus projetos em curso quando do momento de entrevistado se repete variadas vezes. Esta posição crescentemente de um outsider com a defesa aguerrida de seus pontos sobre cada projeto vai provocar embates, por vezes incontornáveis, com as poucas fontes de financiamento que ainda bancavam seus projetos, como os que foram produzidos para a TV pela RAI. E quando alçado à presidência do júri do Festival de Cannes, vai anunciar como vencedor um filme dos Taviani (Pai Patrão) também produzido para a TV, e que muitos achavam que não devia estar sendo exibido no festival, gerando uma apatia e até um esboço de vaia por parte da plateia. Quando acompanhara os funerais de Magnani, em 1973, fora o único a lembrar de maquiar o corpo, recordando que ela sempre fora muito vaidosa e gostaria de sê-lo neste momento igualmente, se pudesse escolher. O gesto encantaria sua última companheira (embora legalmente nunca tenha se separado de Sonali), Silvia D’Amico, filha do célebre roteirista Suso Cecchi D’Amico. Observada em seu cortejo fúnebre, até ele aparentemente bem mais espontâneo que o de Magnani, Isabella Rossellini observará que o pai morreu pobre, seja por genialidade ou loucura, ao contrário da mãe que – com o breve parêntese da época que trabalhou com ele – sempre soube se fazer financeiramente na indústria; não são estas as palavras dela, afirmando que Bergman “sempre teve tudo”. A sede e curiosidade dispersiva de conhecer é uma característica forte a fazê-lo acompanhar cientistas ou discursar perante as plateias mais diversas – em um evento, por exemplo, observamos Don Helder Câmara assistindo sua fala. Noutra, quando diretor do Centro Sperimentali de Cinematografia, quem o ouve é Pasolini. Há uma relativa desorientação entre acompanhar a vida privada e a carreira do realizador ou proporcionar uma liga mais orgânica ao farto material de arquivo. Em nenhum momento se evidencia tanto o abismo entre a mitologia retrospectiva e o “vivenciar o momento de dentro” quanto numa entrevista posterior de Ingrid Bergman, a corrigir o entrevistador sobre o pretenso sucesso dos filmes realizados com Rossellini na Itália, e que o entrevistador pretendia vincular o descaso somente aos estadunidenses. Assim como nenhum expressa a angústia e o mal estar de Rossellini para o sucesso que a resposta de que “qualquer imbecil” consegue realizar um filme de sucesso após 40 anos no ramo. Brunetti já havia produzido The Rossellinis, meia década antes. |B&B Film/RAI Cinema/ZDF Arte/VFS Films para Fandango Distribuizone. 96 minutos.

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