Filme do Dia: Brasil Ano 2000 (1968), Walter Lima Jr.
Brasil Ano 2000 (Brasil, 1968).
Direção e Rot. Original Walter Lima Jr. Fotografia Guido Cosulich. Música
Gilberto Gil. Montagem Nello Melli. Dir. de arte Marcos Flaksman & Vicente
Más. Figurinos Luís Carlos Ripper. Com Anecy Rocha, Ênio Gonçalves, Hélio
Fernando, Iracema de Alencar, Zbigniew Ziembinski, Manfredo Colassanti, Arduíno
Colassanti, Rodolfo Arena, Jackson De Souza, Raul Cortez.
Mãe (de
Alencar), filho (Fernando) e filha (Rocha) decidem partir para o nordeste, em
um Brasil pós-hecatombe nuclear. Eles pegam carona de um motorista de caminhão
e são deixados na provinciana Me Esqueci, onde firmam pacto com um homem mais
velho (Colassanti) para se tornarem índios. A filha, no entanto, ameaça romper
o pacto quando se interessa por um repórter (Gonçalves).
Nada em
seu início, ou muito pouco ao menos, parece compartihar da aridez de um cinema
crescentemente alegórico-tropicalista da época (Os Herdeiros, Macunaíma,
Orgia ou o Homem Que Deu Cria, Fome de Amor, Pindorama).
Ao contrário, a música pop, a fluidez da viagem em duas rodas (premonitória do
ainda não lançado Sem Destino), a beleza na voz de Gal Costa de uma
canção pouco lembrada no século seguinte – e já bem depois do que parecia um
distante ano 2000! – e a criatividade na apresentação dos créditos iniciais em
placas de rodovia e na carroceria do caminhão que transporta nossos heróis para
Me Esqueci, além da vitalidade de Anecy Rocha parecem depor contra. Na verdade,
sua aproximação obliquamente estranhada da realidade nacional mais parecer
beber das gotas de excentrismo do bem posterior
Mar de Rosas. E o caráter alegórico também não se restringia ao cinema
brasileiro, inclusive em seu viés apocalíptico (caso de Glen e Randa). É
lógico a impressão inicial ser falsa e também acusar uma forte possibilidade de
desdobramentos mais ensaístico-fragmentários em substituição a uma narrativa
mais desafiadoramente coerente. Se Macunaíma investe bastante em
comentários raciais, nas mudanças de cor dos personagens, aqui os três
personagens da mesma família observados ao início são “tornados” índios por um
senhor travestido de expedicionário colonialista. Também há comentários
políticos, sobre a ditadura militar vigente na figura de Ziembinski, justamente
se esquivando de qualquer comentário político ao ser entrevistado pelo
jornalista. E há até citação de um cineasta, Alberto Cavalcanti, situada em
1954. Os números musicais, se assim se pode chama-los, são um tanto toscos, com
letras de perfil igualmente paródico (“minha terra tem foguete, onde canta o
sabiá”). Mesmo perfil a valer para o duelo final, apenas possível de ser
referido, vivenciado através de um com uma faca de decoração gigante e o outro
com um garfo idem. E há também o drama
edipiano da classe média brasileira, com a garota (não há identificação de
nenhum dos personagens, acentuando ainda mais o caráter alegórico) buscando
fugir dos planos de vida montados para ela pelo homem que os acolhe, a mãe e o
irmão. E quebrando o existente na cristaleira da mãe, representação sacrossanta
da dignidade familiar, carregada pela velha em todo o percurso. O filme é
intercalado por breves inserções, em ordem decrescente, do 9 ao 0,
provavelmente trazendo nuances na narrativa, mas também sendo a contagem regressiva
para o lançamento do foguete, uma obsessão típica do período fortemente marcado
pela corrida espacial, a mexer com sensibilidades distintas (basta ficar com o
exemplo mais óbvio no cinema, do mesmo ano, 2001). Note-se o excelente
trabalho de cinematografia do filme, sobretudo em relação a ocasionais
movimentos de câmera. E também a possante ponta de Raul Cortez, em uma
interessante construção cenográfica do espaço para a cena. Se o final tem algo da distensão típica do
tempo a acompanhar várias produções nacionais ou internacionais dos mais
distintos perfis (Cara a Cara radicaliza neste aspecto, embora o final com a
estrada em profundidade se aproxime mais, retrospectivamente, do estadunidense Electra Glide in Blue), também traz uma vez mais a paródia, e nesse caso
afirmativa, após um recuo para as hostes familiares e uma aparente sagração
religiosa, de pegar a estrada sozinha (e foi feliz para sempre), ao
contrário do tradicional vinculado ao amor clássico romântico. Na banda sonora
da trilha de Gil, não muito recheada de canções como se poderia imaginar a
princípio, a cena final ocorre sob Não Identificado, na voz de Gal
Costa.|Mapa Filmes. 96 minutos.

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