Filme do Dia: The Lizard (2004), Kamal Tabrizi

 


The Lizard (Marmoulak, Irã, 2004). Direção Kamal Tabrizi. Rot. Original Peyman Ghassemkani. Fotografia Hamid Khouzoule Abyane. Montagem Hossein Zandbaf. Dir. de arte e Figurinos Farhad Vikiji. Maquiagem Majid Eskandari. Com Parviz Parastui, Bahram Ebrahimi, Reza Saeedi, Shahrokh, Foroutanian, Mehran Rajabi, Farideh Sepah Mansour, Ra’na Azadivar.

Reza (Paratsui) é um criminoso condenado à prisão perpétua por um crime não cometido por ele. Seu apelido de lagarto, deve-se a facilidade com a qual consegue escalar os muros da prisão. Infeliz com o tratamento concedido por um sádico diretor prisional, Reza ao tentar o suicídio provoca o terror de outro detento e este o fere acidentalmente. Levado a enfermaria, apossa-se das vestes de um clérigo em visitação a prisão e consegue sair sem ser notado, sendo confundido com um verdadeiro clérigo e levado a uma comunidade carente onde, para sua surpresa, torna-se uma forte liderança espiritual, ao mesmo tempo tentando, sempre que pode, conseguir o passaporte que lhe fará sair do país e da ameaça de retornar à prisão. Por ironia, a sua personificação como clérigo o levará a pregar na própria prisão onde se encontrava detido. E a despertar a atenção de seu obsessivo diretor.

Há uma dimensão de gozo anárquico com as regras da sociedade que quase se poderia dizer buñuelesca, embora de longe mais desafiadora em se tratando de um país bem mais autoritário que os que Buñuel trabalhou, embora em período distinto e com códigos morais de longe mais severos que os habitualmente contemporâneos a esta produção no Ocidente – o que se aplicaria, uma vez mais, ao Irã de seu tempo. E com um afã que seria páreo duro, em termos de iconoclastia não apenas de gênero, mas social. Buñuel ridiculariza o machismo, por exemplo, em filmes com El e satiriza códigos do melodrama neste mesmo filme, mas sobretudo em Susana, enquanto aqui se consegue extrair humor de cenas de potencial risco para o riso, como a de uma tentativa de suicídio, com ferimento exposto – uma possível chave de explicação seria o cinema de Tarantino canibalizado de forma bastante original, referido a determinado momento em cena hilária – e se ridiculariza a hipocrisia religiosa em uma nação teocrática! E o sucesso de público dá um retorno de quanto se conseguiu construir nesse propósito, e com uma proposta de humor bem mais capaz de ser compreendida internacionalmente que sua comédia anterior de maior repercussão, também tematizando um tema espinhoso, a Guerra Irã/Iraque (Leily is with Me). Tendo como boa parte de suas influências derivativas o cinema ocidental, e Pulp Fiction em particular,  consegue trazer uma dimensão muito mais eficiente que produções que lhe inspiraram, como Não Somos Anjos, de Neil Jordan, realizado sobre uma tradição de sátira aos valores religiosos no Ocidente por demais codificada em uma sociedade fortemente secularizada para ser minimamente considerada insultuosa. E o faz de forma leve, mas sem deixar de flertar com o profundo humano, por cima das ações maquínicas. Em mais de um sentido. Como todo grande cinema, mesmo popular, consegue deslocar os preceitos morais tidos como certos, transformando o criminoso em uma figura muito mais simpática que o sádico chefe do presídio. Mas, para além de sua própria trama, ou melhor, vinculado a esta, consegue ser um retrato a problematizar uma relação com o Ocidente de maneira muito mais subversiva que qualquer outro realizador autoral internacionalmente renomado, inclusive por seu alcance de público – um enorme sucesso de público, foi censurado pouco mais de duas semanas após seu lançamento. E, fazendo uso de um recurso batido como o do preceito “o hábito faz o monge” consegue ir além do mero riso fácil, ao também trazer consigo, o personagem (e o espírito do filme) uma frase dita pelo clérigo a ressoar profundamente em Reza: “Há tantos caminhos para se chegar a Deus quanto são as pessoas no mundo.” E o seu final é uma concretização de seu brilho, pois ao termos a descoberta de Reza pelo infame policial, ao mesmo tempo que somos poupados de observar a decepção da população, caso fosse confrontada com sua verdadeira personalidade, propicia que o realizador nos forneça um final em aberto, com a imagem congelada da multidão a espera-lo no púlpito, voltada para observar quem adentra a mesquita. Será Reza, já que o policial afirmou que ele não precisa de agendas? Será um outro e ele estará no carro da polícia que já abandonou o local? E a intenção do policial, caso tenha deixado ele professar no culto, é deixa-lo liberto ou apenas uma vez mais observá-lo  como clérigo – algo já realizado em sua presença na prisão onde estivera detido – para satisfazer pela última vez o desejo popular?|Faradis. 115 minutos.

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