Filme do Dia: A Vida Sexual dos Prisioneiros (1928), Wilhelm Dieterle

 


A Vida Sexual dos Prisioneiros (Geschlecht in Fesseln, Alemanha, 1928). Direção Wilhelm Dieterle. Rot. Adaptado Herbert Juttke & Georg C. Klaren, a partir do ensaio de Franz Höllering. Fotografia Robert Lach. Música Pasquale Perris. Dir. de arte Max Knaake & Fritz Maurischat. Maquiagem Paul Dannenberg. Com Wihelm Dieterle, Gunnar Tolnӕs, Mary Johnson, Paul Henckels, Hans Heinrich von Twardowksi, Gerd Briese, Hugo Werner-Khale, Carl Goetz.

Em dificuldades econômicas, Helene (Johnson) efetua serviços domésticos, enquanto o marido Franz (Dieterle) vai buscando o que aparece. Um conhecido seu o encontra na rua, buscando clientes para um fotógrafo, e lhe recomenda um escritório. Lá disseram que apenas existe trabalho comissionado, pelas ruas. Quando vai visitar Helene em seu emprego de vendedora de cigarros em um bar, o constante assédio de um homem que ela já o alertara de que a importunava, faz Franz se alterar e empurrar o homem que bate com a cabeça no chão. O corpo estirado no chão chama a atenção dos outros clientes. A polícia rapidamente chega e algema Franz, levando-o. Preso, Franz recebe com extrema alegria a visita da esposa. Ela lhe diz que o homem que agrediu ficará curado. O industrial Rudolf Steinau (Tolnӕs) é companheiro de cela de Franz. Rudolf recebe sua fiança e pode sair da prisão. Ele promete ajudar Helene. Cumprindo a promessa, ele a chama em seu escritório e lhe oferece um emprego. No mesmo jornal a anunciar a inocência do industrial, Helene percebe uma nota sobre a morte do homem com que o marido se desentendera. No julgamento, Franz é condenado a três anos de prisão. Helene tem uma crise nervosa. Steinau a leva para casa e cuida dela. Ele fica até o dia seguinte próximo a ela e lhe diz para faltar ao trabalho, mas ela afirma temer ficar sozinha.  No cotidiano da prisão, Franz escreve que até para os fortes não há como resistir. Um dos prisioneiros suicida-se ao lhe ser negado a visita da noiva, na mesma cela na qual se encontra Franz e dois outros. Helene tem alucinações com Franz e já se encontra disposta a ter um caso com o patrão.

Ao invés de ficar satisfeito, Frantz rejeita que a mulher aceite um emprego que lhe é ofertado. Há uma suspeição/suspensão estranha sobre a mudança súbita de atitude de Frantz quanto a questão e sua imagem agigantada perto da esposa, e a pondo para ninar em seus braços como se faz a um gato quase, soa menos pacificadora para o espectador como é para Helene. A sincronia das notícias diacrônicas, com a salvação e a esperada danação do outro em um mesmo jornal parece digna do Kieslowski de Não Matarás. Longe de esteticamente possante, perto de outras referências contemporâneas da sua época e país, estabelece uma série de planos curtos, entremeados de cartelas, para suscitar o suspense sobre a condenação de Frantz. Faz menos uso de planos/contraplanos, que do deslocamento da câmera para observar a reação  ou nova fala entre interlocutores.  E tenta, sem muito sucesso, evocar a perda de eixo de um prisioneiro, quando agredido por um carcereiro.  É difícil crer que Wilhelm, futuro William em Hollywood, desconhecesse O Encouraçado Potemkin, grande sucesso na Alemanha, e deve-se muito provavelmente a ele a cena do monóculo estilhaçado do médico pelo revoltado Alfred – vivido pelo quase irreconhecível Alan de O Gabinete do Dr. Caligari. Quando uma cartela afirma ter Stenau observado Helene à noite toda, esperamos vê-lo acoitando-a próximo ao sofá onde dorme. Mas ele continua na mesma mesa em que havia sido deixado na última cena. De toda forma, a contraposição deste plano com o que o antecede, de Franz berrando louco com as mãos fora das grades, parece uma releitura realista, mas curiosamente assombrada também pelos “instintos”, da observada em Nosferatu. O motivo visual dos rapazes de uniforme a andarem em círculo, evoca o das moças em outra instituição total típica – e também repleta de temores ou insinuações sobre uma vida sexual secreta – que é o internato, no posterior Senhoritas de Uniforme; curiosamente, o ensaio adaptado neste filme foi baseado no roteiro ainda não realizado do filme de Leontine Sagan. Aos olhos de um século após, o título original parece trazer uma camada de sofisticação em sua aparente percepção dos papéis sexuais serem relativos às circunstâncias, mesmo distante da compreensão sedimentada posteriormente de gênero e sexo serem coisas distintas, mas as aparências enganam: e os títulos brasileiros acentuam ainda mais tratar-se de um evidente oportunismo com um tema explosivo à época e que sequer chega a ser trabalhado de forma mais direta. O gozo vence o amor no caso de Helene, ainda que seja pelo travestismo alucinado do último “meu marido”, repetido incessantemente nos braços do futuro-imediato amante-patrão. De modo mais “honesto”, ao menos, do que seria o denegado outro lado da moeda, que seria o marido repetir “minha mulher” obsessivamente ao companheiro de cela que busca sexo com o recém-chegado. Mas não apenas Dieterle, galã à época a dirigir a si próprio, permite-se-á tal, como nem mesmo ao outro tampouco. E a vigilância irrealisticamente excessiva da guarda carcerária parece reproduzir menos o que se passava que a censura moral, válida também até para cenas envolvendo banho, muito mais pudicas que a dos mineiros de Pabst (Tragédia na Mina), enquanto “revelação de um mundo oculto” que mais caberia a este. A cena do padre no púlpito pregando a uma plateia de detentos de reações bastante distintas é uma das melhores – e, mais uma vez, prenhe de mais insinuações que qualquer evidência de Franz se relacionar com o companheiro de cela, por mais que apresente o enlevo deste.  Nem mesmo o toque de mãos à noite, entre Franz e seu companheiro insone é plenamente sexuado – Alfred afirma estar acordado por pensar na mãe solitária! Versão francesa de um filme que, por sua temática, viria a sofrer cortes e ser reconstruído somente, aparentemente, nos anos 1990, a partir de cópias de diversas cinematecas. Poder-se-ia alegar que sendo provavelmente esta cópia, com legendas em português, com quase vinte minutos a menos, parte desta censura, porém as cenas rapidamente observadas nas outras que poderiam suscitar alguma referência mais explícita se encontram da exata forma que estão presentes nesta. |Essem Film-GmbH/Vereinigte Star-Film GmbH para Nero-Film AG. 90 minutos.

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