Filme do Dia: Fruto Proibido (1940), Jack Conway
Fruto Proibido (Boom Town,
EUA, 1940). Direção Jack Conway. Rot. Adaptado John Lee Mahin, a partir do
conto de James Edward Grant. Fotografia Harold Rosson. Música Franz Waxman.
Montagem Blanche Sewell. Dir. de arte Cedric Gibbons. Cenografia Edwin B.
Willis. Figurinos Adrian. Maquiagem e Cabelos Robert J. Schiffer & Sidney
Guilaroff. Com Clark Gable, Spencer Tracy, Claudette Colbert, Hedy Lamarr,
Frank Morgan, Lionel Atwill, Chill Wills, Marion Martin.
John
MacMasters (Gable), o Big John e John Sand (Tracy), o Shorty (segundo Big John,
apelido que detesta) tentam resumir os
desentendimentos e se jogarem no empreendimento de prospecção de petróleo
contando com equipamento do inicialmente cético Luther Aldrich (Morgan). Eles
conseguem pagar apenas parcialmente pelo equipamento alugado, mas convencem uma
participação nos lucros em uma segunda investida, que os transforma em homens
ricos. Big John se enamorou do amor da vida de Sandy, Betsy (Colbert), a quem
havia nomeado os poços iniciais. Mesmo decepcionado, Shorty não rompe com os
dois. Casados há um ano, ele surpreende MacMasters nos braços da cantora do
saloon local, Whitey (Martin). Indignado, Sand rompe sua associação com
MacMasters e num jogo de cara/coroa fica com praticamente todos os negócios.
Betsy, que havia se separado do marido, retorna ao sabe-lo empobrecido.
MacMasters se muda para Nova York, onde consegue reerguer um império, a partir
de informações privilegiadas de seu rival, trazidas por sua amante, Karen
(Lamarr). Já John Sand perde tudo com uma reviravolta política na América do
Sul. Os dois se reencontram em um congresso sobre petróleo, e Betsy fica
encantada de reencontrar o antigo namorado e saber que reataram amizade. Porém,
logo tensões reemergirão quando Sand percebe MacMasters traindo a esposa na
frente de todos, e os abandonando em uma visita ao seu complexo industrial para
sair com Karen. Ele se oferece para casar com Karen, tentando evitar o sofrimento
de Betsy, que tentara o suicídio e se encontra acamada. Esta, desconfiada de
suas intenções, recusa a proposta. Sand intervém junto a MacMasters, afirmando
que Betsy tem um pedido de divórcio. Retornando à casa, este jura amor à
esposa, que o aceita novamente. Ambos terão que lidar agora com um processo contra ele, por monopólio, cujo
desfecho tem uma participação importante de Sand, que há pouco tempo estava
entre os murros com ele. Novamente pobres e esperançosos, MacMasters e Betsy
retornam ao campo, e lá reencontram Aldrich e Sand.
Quando o
personagem de Tracy fica um longo tempo de molho, e apenas acompanhamos os de
Gable e da recém-aparecida Claudette Colbert (tirando partido da dupla amorosa
do enorme sucesso de meia década antes em Aconteceu Naquela Noite) já se
antecipa que o elo de ligação da última, caída de paraquedas na história, é ter um envolvimento afetivo
justo com o melhor amigo e sócio de “Big John”, o “Square John” de Tracy.
Assim, este fica menos deslocado no longo trecho que permaneceu ausente,
podendo ser recuperado, ainda que retrospectivamente. Quando observamos o
personagem de Tracy assentir muito civilizadamente para a época e para o cinema
a retratá-la, de braços dados com Betsy e esta de braços dados com o marido e o
financiador das aventuras petrolíferas, Aldrich, imaginamos que há um recalque
em meio a tanta civilidade. Geralmente dramas envolvendo o “ouro negro” sobre o
qual se canta tantas loas em sua introdução, sobre um fundo pintado de
incontáveis torres de prospecção de petróleo, mesmo que possam ter um ar
rancheiro-texano (a exemplo de um dos mais famosos, Assim Caminha a
Humanidade) estão longe de serem westerns; com direito a todo o cabedal
imagético deste (carruagem, mocinha recém-chegada a cidade, saloon e
mulher de vida fácil, tiroteios, muitos cavalos, não faltando sequer o tipo
gaiato, aqui tão ou mais rápido no gatilho que a dupla principal, que se
resolve com os punhos). Embora o imaginário western fique perdido no passado
pioneiro. E claro, o bromance está acima da triangulação amorosa. Big John não
apenas deixa de encontrar a belíssima e endinheirada Karen de Lamarr por ter
reencontrado o Shorty de Tracy, como ainda o veste com uma elegância inédita
que desarma por completo sua esposa. Que os dois estejam vestidos de preto é
mais um sinal de sintonia, enquanto Gable está quase da mesma tonalidade de seu
pequeno filho nos braços – uma evocação de que sua sexualidade impetuosa e
sempre disponível remete à leveza imatura dos jogos amorosos infantis? A
insinuação da relação extraconjugal de Big John com Karen chega ao ponto de
apresentá-los saindo em meio a uma visita social ao trabalho, e diante de
Shorty e Betsy, sua abnegada esposa. Os olhares deste em direção à reação dela
são de uma indiscrição típica da época. Não necessitam ser traduzidos em
diálogos e driblam a censura. E há um final mais próximo do espírito – sem
trocadilho – de Dona Flor e Seus Dois Maridos, sendo que os dois homens
que ladeiam Betsy...um terceiro como figura parental apenas...se encontram
vivos! É interessante o personagem vivenciado por Tracy, um raro exemplo de
continuado auto sacrifício masculino pela mulher amada. E há igualmente o descaso
com o tempo. A história começa décadas antes, há perdas e ganhos de fortuna, na
mesma proporção dos afastamentos e reaproximações dos dois amigos. Eles
continuam com os mesmos rostos, o que vale ainda mais para Aldrich, já velho ao
início da história. Dado o ciclo de repetições no qual a história se move, as águas do moinho parecem retornar sempre a
sua configuração inicial, não sendo necessário um grande exercício de
imaginação para a projeção de novas querelas entre os sócios e o envolvimento
de Big John com outras garotas. O mais próximo, por outro lado, que Sand chega
de ter de uma reaproximação com Betsy é um “quase beijo na boca” na
convalescença dela da tentativa malsucedida de se matar. O conto no qual o
filme se baseia havia sido lançado no ano anterior. |MGM. 119 minutos.![]()

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