Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#169: Ricardo Darín
DARÍN, Ricardo. (Argentina, 1957). Versátil e duradouro protagonista argentino no teatro, televisão e cinema, Ricardo Darín ganhou primeiro fama como galã jovem de uma série de novelas e então se tornou o mais popular ator argentino por mais de uma década, desenvolvendo parcerias criativas com diretores-roteiristas como Juan José Campanella, Eduardo Mignona, Fabián Bielisnky e, mais recentemente, Pablo Trapero e Sebastian Borensztein. Desde 1990, estrelou uma série de filmes que conquistaram grande sucesso de crítica e de público na Argentina e ao redor do mundo, tornando-se a face internacional do cinema argentino contemporâneo. Ainda Darín tendo feito sucesso em diversos gêneros, tornou-se particularmente identificado com filmes de crimes urbanos, interpretando um amarrotado homem comum que pensa que sabe todas as perspectivas, mas que geralmente demonstra ser um operador não tão bom quanto acredita.
Nascido em Buenos Aires, em 1957, Darin começou a atuar nos palcos aos dez anos, inicialmente em peças estreladas por seus pais, Ricardo Darín Sr. e Renée Roxana. Apareceu em seu primeiro filme, La Culpa, em 1969, aos 12, ganhando destaque juvenil em telenovelas tais como El Tema es el Amor (1977) e Vos y Yo, Todo la Vida (1978), e interpretando Ivar Helmar em Casa de Muñecas (1980), uma adaptação bastante livre do Casa de Bonecas, de Ibsen, sendo a primeira minissérie argentina produzida em cores. Continuou a aparecer nos palcos, na TV, e em filmes, ao longo dos anos 70 e 80, mas o divisor de águas que o levaria ao estrelato adveio em 1993, quando passou a interpretar a co-estrela em uma popular série de TV, Mi Cuñada, que se manteve no ar por três anos e recebeu excelentes resenhas por estrelar no filme Perdido por Perdido. O primeiro filme após o final de Mi Cuñada foi a co-produção hispano-argentina El Faro (The Lighthouse, 1998), escrito e dirigido por Eduardo Mignona. Nele Darín interpreta o par romântico da estrela espanhola Ingrid Rubio. O filme foi sucesso de público e crítica na Argentina e Espanha e esteve na tela de diversos festivais importantes. Ano seguinte, Darín começou sua mais importante relação de colaboração criativa com El Mismo amor, la Misma Lluvia (O Mesmo Amor, A Mesma Chuva, 1999), o primeiro dos quatro filmes (até aqui) em colaboração com o diretor-roteirista Campanella. Foi um sucesso na Argentina e ganhou o Condor de Prata da Associação de Críticos de Cinema Argentinos para Darín como melhor ator. Foi o início de um período notável de treze anos (até o momento desta escrita) no qual Darín ganhou 5 condores de melhor ator e foi indicado cinco outras vezes. Também fez bem nos mais recentemente estabelecidos prêmios da Academia Argentina de Artes e Ciências. Desde que estes prêmios da indústria foram estabelecidos em 2006, conseguiu quatro indicações, vencendo duas.
Em 2000 estrelou Nueve Reínas (Nove Rainhas), a história repleta de reviravoltas de um golpista, do escritor-roteirista Fabián Bielinsky. Em um mercado tradicionalmente dominado pelos filmes hollywoodianos, Nove Rainhas foi um grande sucesso, sendo o quarto filme mais popular do ano (e o segundo do mercado doméstico), e Darín novamente recebeu o Condor de Prata de melhor ator. O filme também foi sucesso internacional, recebendo lançamento comercial ao redor do mundo, vencendo diversos prêmios, inclusive o de melhor ator para Darín no Festival de Biarritz, antes de receber a dúbia honra de ser refilmado em Hollywood como Criminal (2004), com John C. Reilly. No ano seguinte, Darín reuniu-se com Mignona para La Fuga (The Escape), um drama criminal sobre uma fuga da prisão em 1928, outro sucesso, ganhador de vários prêmios domésticos e internacionais, incluido melhor ator estrangeiro no Festival de Barcelona. Mesmo bem sucedido, La Fuga foi ofuscado por outro filme de Darín de 2001, El Hijo de la Novia (O Filho da Noiva). Esta segunda colaboração com Campanella, foi um drama cômico sentimental, no qual Darín interpreta um acuado proprietário de restaurante, cujos problemas familiares e de negócios tornam-o uma figura emblemática da tentativa da classe média argentina, enquanto tentava lidar com o colapso econômico do país. Foi o filme mais popular do ano na Argentina e recebeu um lançamento comercial mundial. Venceu oito condores de prata, inclusive o terceiro consecutivo para Darín como ator. Internacionalmente, foi indicado ao Oscar de Língua Estrangeira e venceu prêmios do público em festivais ao redor do mundo. Confirmado o apelo de Darín junto às bilheterias, o terceiro filme mais popular do país neste ano foi La Fuga.
Em 2002 Darín estrelou o modesto sucesso Samy y Yo, e como chefe de uma família que foge da junta militar, durante a "Guerra Suja", em Kamchatka, o segundo filme doméstico mais popular e o indicado oficial para os prêmios da Academia. Darín foi também indicado ao Condor de Prata, mas não venceu. Em 2004, retornou com Luna de Avellanela (Clube da Lua), seu terceiro filme com Campanella, uma comédia dramática capriana sobre os membros de um clube operário lutando para sobreviver em uma Buenos Aires contemporânea. Foi o filme doméstico mais popular do ano, e recebeu 14 indicações nos condores de prata, inclusive a inevitável para Darín. Em 2005 Darín realizou seu segundo filme com Bielinsky (que infelizmente dirigiria somente dois longas, antes de sua morte em 2006), o onírico thriller El Aura (Aura), conquistando sucesso crítico e de público internacional. Na Argentina foi o segundo filme doméstico mais popular, vencendo seis condores de prata, incluindo Darín como melhor ator. Em 2007 veio XXY, grande sucesso de crítica, mas pequeno comercial e La Señal (O Sinal), um thriller criminal urbano que Darín co-dirigiu (com Martín Hodara), também interpretando um detetive particular decadente, baseado em um romance de Eduardo Mignona. Foi o terceiro filme doméstico mais popular e indicado para 14 condores de prata, incluindo Darín como ator e diretor, mas perdeu para XXY para melhor filme, ficando com apenas quatro prêmios.
Em 2009 veio sua quarta e mais conhecida colaboração com Campanella, El Secreto de sus Ojos (O Segredo de seus Olhos), uma mistura fenomenalmente popular de drama criminal, romance, e política, que também o reuniu a sua co-estrela de O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, Soledad Villamil. Tornou-se o filme argentino mais popular da história e varreu os condores de prata, trazendo 13 estatuetas para casa, incluindo a de Darín como ator. Também venceu vários prêmios internacionais, incluindo o Oscar de Filme em Língua Estrangeira. Foi seguido em 2010 pelo brutalizado noiresco Carancho (Abutres), no qual Darín interpreta novamente um anti-herói, um advogado cassado que se mete em uma situação maior do que consegue lidar, mantendo a simpatia do público, apesar de cometer atos bastante condenáveis. Foi o segundo filme argentino mais popular do ano e recebeu 11 indicações ao Condor de Prata, incluindo Darín como ator. O ano seguinte trouxe-lhe outro sucesso com Un Conto Chino (Um Conto Chinês), no qual Darín interpreta um solitário e amargo pequeno empresário a formar uma inesperada amizade com um jovem imigrante chinês. Uma comédia magoada que toca levemente em certos temas como as consequencias da desastrosa guerra nas Malvinas (Ilhas Falkland) e ascensão da imigração asiática, sendo o filme doméstico mais popular do ano no país, capturando outra indicação para Darín ao Condor de Prata, e demonstrando que o estrelato de Darín não demonstra sinais de cansaço.
Seus filmes mais recentes foram Elefante Blanco (Elefante Branco), uma segunda colaboração com Pablo Trapero, exibida na mostra Un Certain Regard, de Cannes, e Tesis Sobre un Homicidio (Tese Sobre um Homicídio), dirigido por Hermán Goldfrid, outro grande sucesso local. Paralelo ao seu sucesso no cinema, Darín também dirigiu e estrelou uma série de peças e fez uma turnê pelo mundo em 2005, com uma produção de Art, de Yasmina Reza. É uma interessante e sugestiva coincidência que a ascensão ao estrelato de Darín coincida com o início da crise econômica argentina e é muito provável que sua persona - a de um homem atraente, mas imperfeito, confrontado por forças maiores que ele - tenha ressoado junto ao público argentino, que enfrentava tempos difíceis, e continua a fazê-lo.
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David Hanley.
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 197-99.

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