Filme do Dia: Um Lindo Dia na Vizinhança (2019), Marielle Heller

 


Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighbourhood, EUA/China, 2019). Direção Marielle Heller. Rot. Adaptado Micah Fitzerman-Blue & Noah Harpster, inspirado no artigo Can You Say...Hero?, de Tom Junod e na obra de Fred Rogers. Fotografia Jody Lee Lipes. Música Nate Heller. Montagem Anne McCabe. Dir. de arte Jade Healy & Gregory A. Weimerskirch. Cenografia Merissa Lombardo. Figurinos Arjun Bhasin. Maquiagem e Cabelos Cyndilee Rice & Donita Miller. Com Matthew Rhyes, Tom Hanks, Chris Cooper, Susan Kelechi Watson, Maryann Plunkett, Enrico Colantoni, Wendy Makkena, Tammy Blanchard, Noah Harpster.

Floyd (Rhyes), jornalista da Esquire, recebe de sua editora, Lorraine (Makkena), a incumbência de entrevistar o apresentador de programa infantil, conhecido como Mr. Rogers (Hanks). Durante a escrita de um ensaio muito mais longo que o encomendado, e vários encontros com Rogers, Floyd tem que lidar com o grande recalque emocional de sua vida, o pai Jerry (Cooper), que abandonou a ele, a irmã e, sobretudo a mãe, quando esta se encontrava em situação terminal. Após uma discussão acalorada, ao encontrá-lo em sua casa, com sua nova companheira, Dorothy (Makkena), este passa mal e vem a ser internado. Floyd abandona o pai e sua companheira com filho pequeno, Andrea (Watson), para continuar seu trabalho. Ao retornar, no entanto, encontra-se modificado, disposto a conversar sobre os seus sentimentos e com seu pai.

Estadunidenses não são exatamente conhecidos por sutilezas no cinema (sobretudo o mainstream). Assim pouco tempo após Mr. Rogers dizer que ele pretende fazer com que as crianças lidem melhor com seus sentimentos, já observamos o paralelo criado com a própria tempestade emocional vivenciada recentemente por Lloyd. Mas imaginamos que seria demasiada ousadia em termos de falta de sutileza o que se segue, ou seja, Rogers inquirir sobre de onde viera o nariz com hematomas de seu entrevistador e este afirmar, com a candura frágil de uma criança ferida, que havia sido numa briga com seu pai. Pior que tudo isso é ter que aguentar a mescla de humildade e soberba moral de Hanks/Mr. Rogers. Ou ainda a velha política – ou se deveria dizer ditadura – dos sentimentos, a se sobreporem sobre tudo o mais no mundo e criarem homens como Mr. Rogers, a despertar o canto espontâneo de crianças e adultos, brancos e negros, em um vagão de metrô de Nova York. E as camadas de redundância se aglutinam. A escolha de Hanks para viver Mr. Rogers. O fato do personagem não observar uma distinção entre o ser e o parecer, por mais canais e grupos sociais aos quais sua mensagem/programa atinja. Tudo isto em contraponto ao “cinismo pretensamente intelectual” da qual parte seu interlocutor. Alguém que é definido pelo produtor de Rogers como cultivando escancaradamente a misantropia. Nesta hipertrofia dos sentimentos sobre a realidade, uma cena emblemática é a dos frequentadores do restaurante sofisticado ao qual Mr. Rogers leva Floyd por um minuto para, em silêncio, pensar sobre os entes que amaram a cada um deles. O que Mr. Rogers acabara de pedir ao seu pupilo, em tom de voz normal, rapidamente contagia a todos. No caso de Floyd, é como se um herege fosse se rendendo aos poucos “à palavra”. Cedendo perigosamente a barreira de proteção que o cinismo nosso de cada dia erigiu. E não é incrível que o minuto de silencio dure mais que o minuto real, ao contrário dos 50 segundos que o representam em O Eclipse? E já houve acertos de contas mais duros, menos açucarados entre pai fisicamente limitado e filho (Cada Um Vive como Quer). Porém, outra chave neste caso representaria um corpo estranho no metabolismo do filme. E sendo os Estados Unidos (ou como eles costumam equivocadamente dizer a América) como são, a história extraída desta experiência de dor e redenção não apenas é amada pela esposa, mas igualmente pela editora, e se transforma em matéria de capa da Esquire, a revista para a qual Lloyd escreve. O mesmo artigo de Esquire que gerou a narrativa do filme. Tudo intercalado por maquetes de uma cidade, com pontes, carros, uma evocação do WTC, e até aviões aterrissando e partindo. Destaque para o papel bastante secundário reservado às mulheres neste drama de triangulação paterno-filial; as companheiras de Mr. Rogers, Floyd e seu pai são bastante compreensivas e apoiadoras de seus maridos, assim como no caso da esposa de Floyd  e de Jerry simpáticas desde o início à reaproximação entre pai e filho; o mesmo pode ser dito da irmã de Floyd.  |Tencent Pictures/Big Beach para TriStar Pictures. 109 minutos.

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