Filme do Dia: Rua sem Sol (1954), Alex Viany
Rua Sem Sol (Brasil, 1954). Direção
Alex Viany. Rot. Adaptado Viany, Carlos Alberto de Souza Barros, Mario del Río,
a partir do conto de Eduardo Borrás. Fotografia Mário Pagés. Música Henrique
Gandelman. Montagem Mario del Río, Rafael Justo Valverde, Alberto Shatovsky
& Alex Viany. Cenografia Alcebíades Monteiro Filho & Manoel Lopes. Com
Glauce Rocha, Carlos Cotrim, Dóris Monteiro, Modesto de Souza, Gilberto
Martinho, Carlos Alberto, Sérgio de Oliveira, Fregolente, Raimundo Higino, Dary
Reis.
Marta
(Rocha), moça de família rica, vê todo o seu patrimônio se ir após a morte do
pai, para saldar suas divídas. Sua irmã mais jovem, Maria (Monteiro) é cega e
por influência do amigo da família que faz as vezes de figura paterna, Floriano
(Fregolente), passa a ser cuidada por um jovem médico, Fernando (Carlos
Alberto). Marta, que nunca observara a necessidade de trabalhar em seu
horizonte mesmo distante, faz alguns bicos com costura e outros, mas continua
sem conseguir saldar seus compromissos. Após a abordagem do rude Ruiz (Souza),
ela fica conhecendo uma boate da propriedade de Nuno (Cotrim), na qual as
garotas recebem por suas danças com os clientes e passa a ser uma das
dançarinas, mesmo que sempre freando os avanços mais ousados dos homens,
inclusive do próprio Nuno. Sua prova de fogo acontece quando fica sabendo que
Maria, que agora se relaciona com seu ex-médico, pode ser operada e enxergar. Ela tenta
conseguir o dinheiro com Nuno e se envolve em um homicídio.
Navegando
nas ondas do melodrama e do noir, Viany se sai bem pior que algumas
incursões de Burle roteirizadas por Alinor Azevedo (caso do bastante razoável Também
Somos Irmãos). Aqui, entre as figuras do eixo do bem (Fernando) e do Mal
(Nuno), passando pelo cafajeste de menor cacife (Ruiz), encontra-se a
atualização da pobre donzela em apuros, vivida por uma Glauce Rocha bastante
jovem, embora com alguns créditos de interpretação prévios. Martinho consegue
emprestar ao seu vilão, algo de cafajeste desprezível, de forma mais caricata
que o cafajeste-mor do cinema brasileiro Jece Valadão, conseguiria com maior
naturalidade, mas servindo aos propósitos aqui buscados, e talvez até indo além
da média do elenco – seu tipo físico sugere uma aproximação maior, desde sua
aparição, com o vilão-mor da Atlântida da época, José Lewgoy. Porém se há
elementos do noir, como é o caso do flashback com o qual ficamos
sabendo de tudo, e convencendo sem surpresa o delegado, assim como de alguns
tipos e situações, falta o cinismo amoral daquele e sobra as facilidades do
melodrama. Assim mesmo roubando em mais de uma ocasião e contribuindo para a morte de um sujeito, a
índole de Marta nunca é posta em dúvida. E, estranhamente, mesmo sendo a que
mais fatura na noite, é a única que não faz sexo com seus clientes, em tirada
menos indisposta contra certa hipocrisias sociais, como é o caso de vários noirs,
que as reforçando. Para os intentos de esquerda de seu realizador, o filme não
vai além de uns poucos e vagos diálogos, como o de Floriano, ao afirmar no
início que Fernando vem de baixo e não de cima, não por acaso sendo o mocinho
e, forçando um pouco, destacar-se que a pose de classe se encontra associada a
nada além do que o dinheiro, o que nem chega a ser totalmente verdade, pois a
Marta de Rocha continua posuda mesmo no emprego próximo do meretrício. A
condução da personagem feminina é o da antípoda de qualquer emancipação e
assim, mesmo contando com um modelo protético de pai na figura de Floriano, que
não lhe furtará em desfiar conselhos quando descobre de sua vida secreta, seus
esforços rapidamente esbarram com a rápida constatação de que nada sabe fazer
além de dançar. E na conta de suas escolhas, Marta também será punida com o
desvio do que se imaginava seria sua recompensa, o mocinho, sequestrado
rapidamente por uma daquelas declarações de amor sinceras ao extremo, já que
desconhecedoras de que seu objeto de amor se encontra presente (algo que é
reatualizado com maior sutileza, no século seguinte, mas envolvendo igualmente
a cegueira, em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho), na única verdadeira
surpresa trazida pelo filme, e anunciada já bem antes de seu final. Como se
tornou clichê nas reconstituições orais de crimes, observamos o assassinato
também de outro ângulo que o da primeira narração. O tema auto-sacrificial da heroína
é seguido praticamente do início ao final, mas também seu reconhecimento social
e por parte da irmã, e um discurso que traz laivos utópicos que lhe é entregue
por Floriano, a figura cuja função na narrativa não é outra que articular
vários segmentos. E que é vivida com a habitual desmesura por Fregolente. Uma
nota curiosa em relação aos créditos iniciais, é o da direção das cenas de
delegacia a um outro que não Viany.
Brasil Vita Filmes/Cinedistri para Cinedistri. 86 minutos.

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