Filme do Dia: O Quarto ao Lado (2024), Pedro Almodóvar

 


O Quarto ao Lado (The Room Next Door, EUA/Espanha, 2024). Direção Pedro Almodóvar. Rot. Adaptado Pedro Almodóvar, a partir do romance What Are You Going Through, de Sigrid Nunez. Fotografia Eduard Grau. Música Alberto Iglesias. Montagem Teresa Font. Dir. de arte Inbal Weinberg & Gabriel Liste. Cenografia Kendall Anderson, Carlota Casado & Ilker Elias. Figurinos Bina Daigeler. Maquiagem e Cabelos Uxue Laguardia & Inma Azorin. Com Julianne Moore, Tilda Swinton, John Torturro, Alex Høgh Andersen, Alessandro Nivola, Raúl Arévalo, Victoria Luengo, Sarah Demeestere.

No lançamento de um livro de sua autoria, Ingrid (Moore), fica sabendo através de uma amiga em comum, Stella (Demeestere), que uma outra amiga de longa data, Martha (Swindon), encontra-se com câncer em estado agressivo. Ela a visita no hospital, e Martha lhe afirma estar esperançosa com uma nova técnica de combate à doença. Elas trocam lembranças do passado. Martha fala sobre a relação difícil que teve a vida toda com sua filha, fruto de um relacionamento já findo com Fred (Andersen) e do sexo casual provocado pelo reencontro com o ex-companheiro, que voltou bastante mudado do Vietnã. Tempos depois, Ingrid reencontra Martha em estado de espírito bastante diverso. O tratamento não funcionou, o câncer se espalhou pelo corpo e ela decidiu que irá efetuar um procedimento ilegal de eutanásia, e quer que Ingrid esteja no quarto ao lado quando ela partir.

Este primeiro longa em inglês do realizador parece em sua maior parte soar um tanto em falso. A finitude é invocada e jaz sobre o filme do início ao final e é trabalhada de forma anti-sentimental, mas seu arranjo, a depender do olhar que é convocado a testemunhar as peripécias que antecederão e procederão a esta morte, não é propriamente um convite a imersão no drama retratado. É conhecida a dificuldade do cinema de lidar com temas como a morte, e ela tem sido utilizada como fácil recurso ao longo de décadas por todo tipo de gênero, incluindo a produção autoral que por vezes pretendia escapar dos mesmos. No caso em questão esta dificuldade se traduz em uma rigidez, sem trocadilho infame, a pretender aliciar intersecções de alguma profundidade através de um repertório que depõe contra. E que atinge tanto o estilo, demasiado “elegante” mas vazio, representado pela sofisticação do mundo elitizado frequentado pelas duas protagonistas, quanto o próprio seio da narrativa, um tanto dispersa em evocar histórias do passado que muitas vezes pouco agregam ao drama em questão. E o desgastado recurso à cinefilia, seja invocando o Rossellini de um filme-chave para a cinematografia modernista, Viagem à Itália, o nome da personagem, mais uma referência (Ingrid Bergman) ou o Joyce de Os Vivos e os Mortos, acrescido ainda de uma adaptação audiovisual do mesmo, não modificará o panorama geral, pesando antes pelo oposto. É como se assistíssemos um filme de Woody Allen no início, tivéssemos a pretensão de algo bergmaniano em alguns momentos – outra investida de Moore em um projeto de colorações bergmanianas, tendo em vista ainda mais o anterior Segredos de um Escândalo – e houvesse algo do melodrama almodovariano, inclusive com tinturas buñuelescas, no drama entre mãe e filha. Mas o que significa mesmo a filha, uma das surpresas do filme, ter dito que o pai estava atrás dela na casa em chamas na qual encontrará a morte? E a pressão posta pelo policial que confunde seu trabalho com certo messianismo religioso? E a digressão que vai até os frades que resistem saírem de Bagdá e provavelmente são um casal? Não esqueçamos se tratar de uma adaptação, mas ainda assim ficamos com pontas soltas e uma história emocionalmente nada envolvente. A relação da filha com a mãe, a que renderia de fato, caso houvesse sustância e foco suficientes, surge como a possibilidade negada, pois já aparece ao final. Quando se critica o neoliberalismo e a extrema-direita, na voz do intelectual de esquerda apocalíptico de Turturro, o filme parece não se dar conta que o primeiro já contaminou o mundo ao ponto da própria produção visual do filme ser um atestado disso – vai longe o tempo em que os filmes de Almodóvar lidavam com representantes mais modestos na hierarquia social espanhola; agora nem mesmo nacionais são, mas sim “globalizados”;  tudo aqui parece atestado de “bom gosto” descolado, dos produtos de papelaria, aos móveis e a gigantesca e arquitetonicamente arrojada casa onde esta fotógrafa de guerra resolve findar seus dias. E a neve caída sobre os vivos e os mortos do conto de Joyce, também visualizada na sua adaptação, emerge avermelhada em Nova York, um atestado das mudanças climáticas que podem substituir – ou não, se somar – a hecatombe nuclear como o pesadelo pensante do Sacrifício de Tarkovski. Leão de Ouro em Veneza. |El Deseo/Moviestar +/Pathé/Sony Pictures Classics/Washington Square Films para Warner Bros. 107 minutos.

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