O Dicionário Biográfico de Cinema#353: Thomas H. Ince
Thomas Harper Ince (1882-1924), n. Newport, Rhode Island
Deveria Ince ser tratado como diretor, ou como produtor? Ou sua relevância é simplesmente uma questão de contraste histórico a oferecer a D.W. Griffith? Ince não é um nome que badale muitos sinos hoje; na verdade, teve uma carreira bastante ativa e, nos primórdios dos anos 20, foi pensado como um dos mais importantes e presunçosos dos homens. Foi Buster Keaton, em The Playhouse [O Teatro] (21), que zombou da arrogante reinvindicação de Ince de escrita, produção e direção nos filmes realizados por sua companhia. A piada de Keaton parece ter feito tal ostentação retroagir, e a pesquisa descobriu poucos filmes de longas-metragens completos que Ince dirigiu sozinho.
Apesar disso, foi um pioneiro no modo como se insinuou na produção cinematográfica e começou a organizá-la. Em acréscimo, em 1916, construiu novos estúdios em Culver City, que se tornariam a base do complexo da MGM (sua segunda casa - logo abaixo na rua - que posteriormente seria a casa de David O. Selznick e, portanto, a famosa imagem da logomarca). "Thomas H. foi minha 'Incespiração", disse Keaton em O Teatro. Mas, na verdade, o desavergonhado auto-engrandecimento de Thomas H. parece o original de uma marca da ambição central dos filmes americanos. Neste sentido, foi o primeiro magnata, mais homem de negócios que Griffith, e muito mais próspero. Lembrem-se que ele morreu na tenra meia idade, e é possível supor que se tornaria um dos magnatas dos anos 30.
Suas próprias origens eram teatrais. Foi de trupe teatral e do vaudeville por cerca de dez anos antes de entrar na infante indústria cinematográfica, provavelmente por conta da ação de sua esposa, Eleanor Kershaw, que foi atriz na companhia de Griffith. Ince esteve brevemente na Biograph, antes de se mover para a Independent para dirigir. De 1911 a 1914 dirigiu centenas de filmes de um ou dois rolos. Mas parecia menos interessado no produto que em propagandeá-los. Uniu-se a New York Motion Picture Company e foi a Califórnia realizar westerns, contratando um show do Oeste Selvagem pela autenticidade e comprando terra para uma variedade de celulóides. O "western" enquanto espetáculo deve muito ao labor de Ince como fez William S. Hart, cujos filmes Ince supervisionou. Em 1914 dirigiu seu primeiro longa, The Battle of Gettysburg - e, provavelmente, seu último, pois ele mergulhou na produção e supervisão.
Em 1915, com Griffith e Sennett, formou a Triangle, clara precursora da United Artists. O próprio Ince produziu The Coward (15, Reginald Barker) e Civilization [Civilização] (16), que reputadamente co-dirigiu com Barker. Civilização foi tão bem sucedido quanto Intolerance [Intolerância] foi um fracasso. E é ambientado em um país mítico, lidando portentosamente com a ameaça da guerra e é dedicado às "mães dos mortos". Ninguém sugere que Ince pensou ou sentiu profundamente tais sentimentos descaradamente agitadores. Nâo que fosse tímido em observar a si próprio como o patrono benigno da civilização.
Nos últimos anos da guerra, continou a produzir os filmes de William S. Hart e seu plantel de diretores, incluindo Barker, Irwin Willat, Frank Borzage, Arthur Rossen, Victor Schertzinger e Jack Conway. Abandonou a Triangle em 1918 e produziu filmes para Adolph Zukor distribuir. Em 1919 uniu-se a Sennett, Maurice Tourneur, Allan Dwan e Marshall Neilan na Associated Producers. Ince continuou a ser lançado através de Zukor até o final de 1921, produzindo filmes como Beau Revel (21, John Griffith Wray); The Bronze Bell (21, James Horne); The Cup of Life (21, Rowland V. Lee); Mother o'Mine (21, Fred Niblo); e Passing Thru (*) (21, William A. Seiter). Quando rompeu com Zukor, a Associated Producers foi para a First National, e nos seus últimos anos Ince manteve sua "supervisão pessoal" sobre The Hottentot [O Hottentot] (22, Horne); Skin Deep [Beleza] (22, Lambert Hillyer); Anna Christie (23, Wray); Bell Boy 13 (23, Seiter); Her Reputation (23, Wray); A Man of Action (23, Horne); Scars of Jealousy (23, Hillyer); Soul of the Beast (23, Wray); The Sunshine Trail (23, Horne); What a Wife Learned (23, Horne); Barbara Frietchie (24, Hillyer); Christine of the Hungry Heart (24, George Archainbaud); Idle Tongues [O Estigma] (24, Hillyer); The Marriage Cheat [Amor e Desengano] (24, Wray); e Those Who Dance [Os que Dançam] (24, Hillyer).
Ince contribuiu algo à lenda de Hollywood - o mistério de sua morte - e é provavelmente o aspecto de sua carreira que é mais interessante hoje. Em novembro de 1924, William Randolph Hearst, deu uma festa em seu iate, o Oneida, navegando do sul da Califórnia. Os passageiros incluíam Marion Davies, Chaplin, Ince, Elynor Glyn e a jovem Louella Parsons. Ince foi retirado do iate em San Diego. Ele morreu dois dias depois, e a causa oficial de sua morte foi falência cardíaca seguindo o que havia sido uma severa indigestão. Mas rumores se espalharam de que estavam bebendo na embarcação, que tiros haviam sido disparados, que Chaplin (e/ou Ince) haviam dado em cima de Marion Davies. Persiste como um dos grandes enigmas hollywoodianos, naquele momento ricamente escandaloso dos primórdios dos anos 20. E certamente não há solução agora.
Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 1312-15.

Comentários
Postar um comentário