Filme: Golda - A Mulher de uma Nação (2023), Guy Nattiv

 


Golda – A Mulher de uma Nação (Golda, Reino Unido/EUA, 2023). Direção Guy Nattiv. Rot. Original Nicholas Martin. Fotografia Jasper Wolf. Música Dascha Dauenhauer. Montagem Arik Lahav-Leibovich. Dir. de arte Arad Sawat & Andrew Munro. Cenografia Celia De La Hey. Figurinos Sinéad Kidao. Maquiagem e Cabelos Ashra Kelly-Blue & Karen Hartley. Com Helen Mirren, Camille Cottin, Rami Heuberger, Liev Schreiber, Lior Ashkenazi,  Emma Davies, Zed Josef, Ohad Knoller.

1973. A então primeira-ministra Golda Meir (Mirren) depõe diante da comissão que investiga suas decisões na Guerra do Yom Kippur, quando se depara com a maior crise de sua carreira política: o iminente ataque inimigo a ser empreendido por vários países árabes sob o comando do Egito e da Síria. Após diversas perdas e o avanço das tropas egípcias sobre a Península do Sinai, Golda observa o seu braço direito, o comandante máximo do exército Moshe Dayan (Heuberger) fraquejar e passa o comando, na prática, a Dado (Ashkenazi), ao mesmo tempo recebendo o secretário de estado americano Henry Kissinger (Schreiber) que, no entanto, teme emprestar apoio público a Israel, comentando sobre a multiplicação por oito do preço do litro de gasolina no país desde o início da crise. E em um momento no qual o presidente, Nixon, encontra-se completamente capturado por Watergate.

Embora tenham conseguido “judeizar” Mirren quase ao ponto do irreconhecível, e tenham conseguido um majoritário elenco de apoio israelense, assim como um diretor, evidentemente não foi falado prioritariamente em hebraico. E Golda, outrora vivida por outra atriz célebre, Ingrid Bergman, fez Mirren fumar demasiado, se contarmos um número mínimo de tomadas para uma cena satisfatória. Trata-se de um uma observação de bastidores sobre o conflito fulcral para a nação israelense, e Golda sua figura emblemática. Os sinais de cansaço físico de Golda parecem metastizar o filme, felizmente mais em sua primeira metade que sua parte final, menos aborrecida. Seria certamente pedir demais a este tipo de encenação que findasse com a saída de Golda do comitê que avaliou sua participação na guerra – e da qual foi inocentada, como faz noticiar os créditos. E se teria igualmente mais sentido, em termos de Golda como narradora interna dos eventos – embora certamente tivesse que ter melhores atores de apoio e uma proposta mais independente para se fixar no encontro que serve como história-moldura, a exemplo do incomum contemporâneo A Conferência. E também mais orgânico com sua relativa contenção dramática, um tanto dilapidada por seu desnecessário e vulgar final, de Golda no leito de morte assistindo as imagens na TV de seu encontro com Sadat. Aliás, há inserções regulares de imagens de arquivo, todas interessantes, o que nos faz pensar imediatamente em se buscar algum documentário sobre Golda. Uma presença bem mais incômoda são seus comentários direcionados ao ano de seu lançamento, de uma Golda a demonizar a Rússia pelo antissemitismo sofrido em sua infância, na Ucrânia. E, em menor medida, porque menos clara a mensagem, sobre o então jovem e impetuoso militar Ariel Sharon. E também por Sharon já ter morrido há quase uma década de seu lançamento. Por alguns segundos se poderia jurar que haviam judeizado igualmente Kristin Scott-Thomas como Lou Kaddar. As grandes lideranças também choram, vomitam e o escambau, sob o peso da pressão e dos mortos e o quanto Meier é descrita como tenaz, apesar das fragilidades de saúde, e de suas próprias incertezas, seu braço direito Moshe Dayan o é no sentido oposto. Um dos poucos alívios cômicos são umas breves tiradas trocadas com o então secretário de estado (e de origem judaica) Henry Kissinger. Se se pretendia provocar efeito dramático com as escutas de cenas de conflito, boa parte delas trazendo baixas coletivas para o exército israelense e provocando lágrimas e temores dos ouvintes de brutais lances de guerra ao vivo, o obus saiu pela culatra. E muito pior se pode dizer das inúmeras reuniões e diálogos cruzados com seus assessores. E é difícil reconhecer a Golda brincalhona e sorridente na máscara única de angústia imposta a Mirren. Pode-se alegar que os 18 dias acompanhados não eram para sorrisos e brincadeiras, mas mesmo quando consegue sua vitória, o contracampo da mesma é a morte. Resta os dizeres espirituosos endereçados a Kissinger. É pouco. E talvez diga muito de certo acabrunhamento de Nattiv e seu roteirista em relação a uma figura materna de nação tão grandiosa. E paradoxalmente tão rígida?|Maven Screen Media/New Native Pictures/Piccadilly Pictures/Qwerty Films/ShivHans Pictures.  100 minutos.

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