O Dicionário Biográfico de Cinema#352: Sir Peter Brook

 



Sir Peter Brook, Londres, 1925*

1953: The Beggar's Opera [Ao Pé do Cadafalso]. 1960: Moderato Contabile [Duas Almas em Suplício]. 1962: Lord of the Flies [O Senhor das Moscas]. 1966: Marat/Sade. 1967: "Red, White and Zero", episódio de The Ride of the Valkyries (não lançado). 1968: Tell Me Lies. 1969: King Lear [Rei Lear]. 1978: Meetings with Remarkable Man [Encontro com Homens Notáveis]. 1983: La Tragédie de Carmen. 1989: The Mahabharata [O Mahabharata]. 2002: The Tragedy of Hamlet (TV).

Muitos poucos homens que trabalharam como diretores no cinema britânico falaram tão penetrantemente sobre a experiência de realizar e assistir filmes como Peter Brook. E é um infortúnio para o cinema que nunca tenha sido superado seu compromisso primeiro com o teatro. De fato, há uma razão óbvia para o modo que o interesse persistente de Brook no potencial da relação entre performance e público encontrou um espaço mais criativo no teatro que poderia no cinema britânico. Somente Ao Pé do Cadafalso foi realizado de dentro da indústria. E isso foi atenuado recorrendo ao patrimônio teatral e pela presença prestigiosa, porém distrativa, de Olivier como MacHeath. Moderato Contabile é um filme francês, realizado parcialmente sem fé na possível "impressão mais densa da realidade" do novo cinema francês. O Senhor das Moscas foi, a determinado momento, pretendido ser uma produção de Sam Spiegel. Mas o grande capital ficou temeroso do projeto e foi afinal filmado a baixo custo, em uma parceria colaborativa independente. Desde então, à parte um episódio bastante curto no abortado Ryde of the Valkyries, os filmes de Brooks tem sido transposições de notáveis produções teatrais. Seu Rei Lear, com Paul Scofield, está na sombria tradição dos registros do cinema de grandes momentos do teatro - desajeitados, parecendo meio sujos, e servindo para expor atores teatrais como exagerados vulneráveis. Não tão extravagante quanto o Othello, de Olivier, sendo ainda um triste descarte de um homem que teve tanto cuidado com as câmeras quanto Brook teve em Moderato Contabile. Os filmes de Marat-Sade e Tell Me Lies (da produção teatral estadunidense), são notáveis, a despeito da inevitável diminuição de uma tensão essencialmente teatral, na qual o espectador é endereçado ou ameaçado do palco.

Em ambos os casos, os filmes parecem inspirados por um propósito intelectual e político com o material, mais que a concepção inicial destes em termos fílmicos. Marat-Sade possui uma leveza deslumbrante em suas imagens, porém somente enquanto o contraste simplório com a comunidade de insanos. A carreira de Brook ainda parece como a de um homem inteligente e criativo, interessado no cinema, mas não possuído por ele. Ele responde ao material estimulante, mas parece incapaz de gerá-lo dentro de si próprio ou encontrar uma forma de expressá-lo, no qual a forma e o conteúdo sejam inseparáveis. Assim como, enquanto na universidade, fez um filme do Sentimental Journey, de Sterne, que é verdadeiramente uma admiração e interpretação desta grande obra, seu O Senhor das Moscas brota do desejo de trazer à tela um "grande romance moderno", enquanto a tela revela-o como uma alegoria pretensiosa e não convincente. 

Isto aparenta ser a abordagem tradicional intelectual britânica do cinema, preocupada pelo tema e observando a imagem em movimento enquanto simples transporte para ele. Mas Brook claramente aprecia muitas das qualidades do filme enquanto linguagem. Em 1963, deu uma entrevista na qual identificava categoricamente Godard como o mais importante cineasta contemporâneo, e reconhecia o modo que a improvisação e um sistema mais fácil de trabalho apoiava Godard. Por exemplo, destacou duas grandes falhas britânicas. "Os filmes britânicos são financiados, planejados e controlados de tal forma que tudo gira em torno desse conceito paralisante de roteiro." E uma ruptura somente poderia advir completa e satisfatoriamente se as condições de trabalho pudessem ser livres. Assim, equipes menores e orçamentos mais baixos dariam às pessoas a oportunidade de levar mais tempo e de voltar atrás, se necessário, sem que ninguém as pressionasse"; e "[f]omos prisioneiros por anos de uma simplificação ingênua do que o realismo significa, daí a visão do cinema britânico de que tudo  é questão de direção de arte, algo a ser alcançado sendo mais honesto do que os americanos na quantidade de chuva que cai sobre uma heroína."

O interesse com a verdade interior, com camadas de realismo de Godard, e um sentido de criação de imagem em movimento disso são qualidades frequentemente ausentes nos filmes britâdessenicos. Moderato Contabili foi uma tentativa deliberada de escapar ao academicismo, e realizar um filme de um tema que nenhum dinheiro britânico teria sustentado. Infelizmente, é um filme aborrecido, a despeito da sensível exploração em tela ampla de um vilarejo provinciano francês, a despeito da presença de Jeanne Moreau. E é uma história sobre paixão, e ainda que Brook, como diretor de atrizes, pudesse ter compreendido isso,  sua câmera continua educada e contida. O filme, em consequencia, é elegante e reticente, quando deveria ter sido doloroso. 

Escreveu e colaborou com seu filho Simon em The Tightrope (2012), um documentário sobre seu processo teatral.

Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 332-35.

(*) N. do E: falecido em 2022. 

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