Filme do Dia: Bobby Kennedy for President (2018), Dawn Porter

 


Bobby Kennedy for President (EUA, 2018). Direção Dawn Porter. Fotografia Robert Richman. Música Paul Brill. Montagem Joshua L. Pearson.

A New Generation. Os anos iniciais de imersão de Bob Kennedy na vida pública passam muito de escanteio pela sua colaboração com o Senador Joseph McCarthy, na conta do ferrenho anticomunismo de Kennedy, embora um dos já anciões depoentes, dentre os sobreviventes, seja o único que não parece ter modificado muito – ou ao menos, assim não o expressa – sua desconfiança em relação a Bob, tido por ele como duas caras e personalidade fortemente agressiva e policialesca, responsável pela escuta clandestina de Martin Luther King. Outros, afirmam que as barreiras foram descongelando com o tempo, assim como sua personalidade carismática.  Caso do ator e cantor Harry Belafonte que, após intervenção pessoal de Bob para a soltura de Martin Luther King Jr., então na prisão, passa a se tornar uma pessoa próxima do político, frequentando sua casa e, como o escritor James Baldwin, interessados em aproximar um grupo de negros do procurador-geral da república, cargo que polemicamente lhe foi concedido pelo irmão. Inicia com as imagens impressionantes (e em cores) da maré humana a cumprimentar (novamente em carro aberto como o irmão) o candidato à presidência na Califórnia, em 1968, com seu discurso sobre a questão racial e a necessidade de uma postura antiguerra no Vietnã. A decisão de John de chamar Lyndon Johnson para vice, considerada equivocada por Bob, por Johnson ser um representante dos democratas conservadores do Sul, e ter uma postura em tudo diversa da do presidente. E é interessante o quanto se afasta dos perfis hagiográficos fáceis para apresentar a pressão que teria chocado Bob Kennedy, quando um ativista negro, sobrinho do escritor James Baldwin, impacientou-se com a pergunta de Kennedy sobre se os negros estariam dispostos a servir no Vietnã. Algo comentado na televisão pelo próprio Baldwin e por Harry Belafonte, demonstrando o abismo mais que gigante, de visões de mundo. Assim como uma das crises políticas mais importantes da história, a crise da Baía dos Porcos e o risco de uma guerra nuclear com a União Soviética. Os áudios de uma conversa de Kennedy com o governador de seu partido, no Alabama, George Wallace, são surreais no apego do último com unhas e dentes, ao segregacionismo racial, afirmando não ter nada contra negros, pois os filhos dele são cuidados por babás negras e coisas do tipo, material este que não chegou a ser registrado em imagem no ótimo Crise: Por Trás de um Compromisso Presidencial, do qual aproveita imagens. Quem também é entrevistado é D.A. Pennebaker, sobre o documentário. e quem passa os detalhes da operação que permitiria o ingresso de estudantes negros na universidade, situação que Wallace afirma que não ocorrerá, que a instituição não será profanada, é Bob Kennedy, como a confirmar a narração sobre ele ser o segundo homem mais poderoso do país, e que o irmão sempre o chama em decisões cruciais – a situação da crise dos mísseis cubanos teve forte intervenção diplomática de Bob. É muito valioso se observar que apesar de extremamente ingênuos em relação a divulgação de imagens de uma reunião tão delicada, após Bob afirmar que afastariam um pouco o governador se fosse necessário ou deixariam  alguém deles em uma das três portas de entrada, John pede para que seja interrompida a filmagem, o que prontamente é seguido, observando-se a câmera descendo dos ombros de Pennebaker e o gravador de áudio também sendo desligado. O encontro das oito lideranças negras após a Marcha pela Liberdade em Washington, em 1963, foi mais um passo no aprendizado dos Kennedy sobre a questão racial. E nas imagens em cores (há apenas uma alusão a esta reunião no ficcional Rustin) do encontro. E, lado a lado, estão Luther King e Bob Kennedy, ambos assassinados com poucos meses de diferença, em 1968. Sobre o assassinato do presidente, foge-se das imagens de Zapruder (Zapruder Film of Kennedy Assassination) ou outras quaisquer de Dallas, e são mostradas imagens do caixão sendo levado a uma ambulância e Bob Kennedy e Jacqueline Kennedy descendo de um caminhão de piso bastante elevado, com auxílio de alguns próximos. I’d Like to Serve. A Lei pelos Direitos Civis, e outras que privilegiaram populações em pobreza, foram ironicamente decretadas sob o governo de Johnson, um sulista que não tinha aparentemente compromisso com tais causas. Há um áudio de Bob Kennedy falando somente coisas ruins de Johnson, mesmo após reconhecer as coisas que haviam sido feitas após sua posse, e chegando a descrevê-lo como “quase um animal”. A lição de John parece não ter servido ao irmão, que é visto desfilando na capota do carro com a mulher e os filhos, na Indonésia, e recebendo enorme acolhida – ao menos no que é apresentado no documentário; e o mesmo se repetirá, em pleno estado de Nova York, quando de sua candidatura ao senado. Há uma entrevista dele, afirmando estar apenas esperando terminar seu mandato como procurador geral para decidir o que fazer, e entre as cogitações está, inclusive, ser professor ou escritor. Bobby constrangido diante da ovação que recebe nas primárias de Nova York do partido, e sem conseguir iniciar seu discurso. Ele se anuncia candidato ao senado, sendo chamado inclusive de oportunista, pois só então fixa residência no estado. Um futuro político demonstra sua primeira impressão nada positiva de Bobby quando subiu uma estação de metrô e se deparou com ele (baixo, de cor acinzentada, aperto de mão hesitante), mas com olhos azuis hipnóticos, de uma tristeza que nunca vira. Não possuía nada do carisma do irmão, segundo ele. E um pingue-pongue de declarações dele à imprensa atacando seu concorrente ao senado, entremeadas por negações daquele. Pennebaker identifica o exato momento no qual Bobby está com um olhar perdido, e ele acredita que esteja pensando no irmão morto. A quantidade de causas e viagens que Bobby Kennedy se envolve (na África do Sul condenando o apartheid que afirma também existir em seu país, no Brasil se pronunciando em relação ao direito das pessoas se manifestarem em uma ditadura ironicamente apoiada pelo governo do seu país), ao mesmo tempo que manda dedetizar um apartamento de uma mãe que diz que os dedos de seus filhos estão sendo comidos pelos ratos, da uma ideia de alguém que tem planos além do de ser senador. Sobretudo quando visita situações de pobreza no Kentucky e alhures, longe do estado pelo qual é senador. A ativista pelos direitos dos agricultores age na região de Delano, Califórnia, onde os trabalhadores vivem em situação de semiescravidão. Kennedy surge em debate com um senador e xerife locais, em 1966, aos quais recomenda ler a Constituição. Mesmo sem querer romper com Johnson ou fazer críticas diretas a ele sobre o crescente envolvimento do presidente no Vietnã, acaba por criticar este envolvimento e as perdas de ambos os lados. E os protestos pacíficos pelos direitos civis cederam lugar a protestos violentos em várias cidades americanas. O envolvimento de Bobby Kennedy com um gueto negro é observado com desconfiança pelos líderes comunitários. Mas um deles comenta, para o documentário, que ele era um visionário. Ele lança um projeto de construção e remodelação de centenas de blocos de apartamentos, construídos por homens da própria comunidade que estavam desocupados. Uma líder social afirma ao documentário não ser simpática a Kennedy por conta de seu passado de envolvimento com McCarthy e escutas telefônicas de Luther King. A mesma ativista fala que Kennedy não era quem imaginava que fosse. Que era capaz de aprender com o que via. Os famintos que ele vê numa região de seu próprio país, diz não ter visto em suas viagens ao redor do mundo. You Only Get One Time Around . Após visitar César Chavez, líder hispânico que havia acabado de interromper sua greve de fome pela paz- interrupção que somente se daria com a presença de Kennedy – Bobby anuncia sua candidatura à presidência, para zero surpresa, e após um insistente discurso que apoiaria aà reeleição de Johnson. O país vivencia uma onde de violência política disseminada, como mostram as imagens iniciais, inclusive as da célebre manifestação no Lincoln Park ao lado da Convenção Democrata. No meio de toda a confusão entre os democratas, com o senador Eugene McCarthy sendo a voz de oposição à Guerra do Vietnã, a entrada de Bobby no páreo faz dividir o eleitorado democrata, já dividido, com os mais conservadores ao lado do presidente – Paul Newman, apoiador de McCarthy, demonstra sua insatisfação com a chegada de Kennedy à competição. Seguido da surpreendente decisão de Johnson de renunciar a reeleição. No dia 4 de abril de 1968, quando Bobby irá participar do primeiro debate com McCarthy, nas prévias em Indianapolis, fica-se sabendo da morte de Martin Luther King. No seu discurso, habitualmente recortado apenas o trecho que noticia a morte de King para um público que demonstra o choque (no documentário se fica sem o plano de reação do público, observado em outros), aparentemente de improviso, Kennedy lembra que também teve um irmão assassinado, ainda que também por um homem branco. Foi um dos poucos políticos brancos a poder desfilar sem problemas pelas ruas de Atlanta, durante o funeral de King, segundo o ativista tornado político profissional John Lewis. Rose Kennedy, a matriarca da família, fala do filho como a única possibilidade de unir novamente o país. Ela ajudara na campanha de eleição de John. Embora estando plenamente consciente do risco de atentados, desfilando em cima de carros por todos os cantos, ele não se furtava a fazê-lo e se esquivar, em casos como de bombas chinesas a espoucarem sobre o chão que será atravessado pelas rodas do veículo onde se encontra. Curiosa sua aproximação não apenas de alguém do cinema, mas de John Frankenheimer, realizador de alguns dos thrillers políticos mais expressivos de Hollywood em toda a década. Juan Romero, empregado do Ambassador Hotel, que se tornaria base da campanha do senador, e no qual eventualmente seria assassinado poucas horas após fala, de forma tocante, o quão acolhido se sentiu, quando entrou no quarto, e o quão americano. E seria justo ele a segurar a cabeça de um Bobby Kennedy ensanguentado, em icônica foto. No geral comedido, o documentário faz uso de uma montagem de imagens, em distintas situações, de Bobby Kennedy, logo após a notícia de seu falecimento, com claro intuito de manipulação emocional. Bem mais tocante é se ver as homenagens à beira dos trilhos do trem que levou o caixão de Nova York para Washington, por pequenas multidões, desde jovens vestidos com trajes de beisebol até crianças com a bandeira americana, passando por homens maduros em sinal de continência. O militante negro John Lewis, posteriormente deputado, último sobrevivente do célebre grupo dos oito, que foi chamado para um encontro com o presidente Kennedy após a Marcha pela Liberdade, e morto dois anos após este documentário, ainda chora quando relembra a morte de Bobby.  É o único que é filmado (ou pelo menos consentiu) chorando abertamente e exclamando sobre o absurdo de se ter em dois meses as mortes de Luther King e Kennedy. Seguem imagens da missa de corpo presente, na catedral de St. Patrick, em Nova York, com discurso do irmão Ted, afirmando que o irmão não precisava ser idealizado e de Ethel extremamente triste, mas relativamente sóbria.  Justice for Bobby. Curioso observar a reação de um negro e um branco sendo entrevistados sobre a morte então recente do candidato à presidência. O negro afirma que basta ser a favor dos pobres que é morto, enquanto o branco fala sobre ser candidato a presidente, como se fosse meramente uma questão de ser um político em destaque. Munir, irmão de Sirhan, o autor do atentado, fala sobre sua reação ao saber da morte. A xenofobia transparece na inconformidade com o ocorrido por parte de um dos assessores mais próximos de Bobby, que fala que “este país” podia ir para o inferno, pois ele não sabia nem pronunciar o nome de seu assassino, como se a imigração maciça fosse responsável pela situação. Segundo um comentário retrospectivo, os eventos turbulentos da Convenção Democrata lhe custaram a eleição de Nixon. Mesmo em menor escala, a morte de Bobby Kennedy não teve como não gerar indagações. Quem era a garota de vestido de bolinhas que gritou que havia matado e ninguém se interessou em sequer investigar/interrogar? E imagens do chefe de polícia de Los Angeles afirmando que era um caso fácil de ser resolvido desde o início. Sete anos depois, as provas coletadas quando do assassinato voltam a ser periciadas. Paul Scharade, um dos assessores mais próximos dele e um dos principais incentivadores da reavaliação das provas, em meados dos anos 70, investiga os arquivos abertos a consulta, vinte anos após o atentado,  mesmo com a destruição de muitas provas, como milhares de fotos.  A advogada de Sirhan Sirhan não acredita que seu cliente virá a ser solto um dia, mas tem expectativa que um dia a verdade do que aconteceu venha à luz. Juan Romero, o então empregado do hotel da clássica foto, reencontra Schrade desde muito tempo. Schrade consola Romero meio século após, dizendo ter sido ele o apoio final antes que Bobby Kennedy se tornasse inconsciente. O antigo hotel Ambassador agora é uma escola de nome Robert F. Kennedy, erigida numa propriedade então pertencente a ninguém menos que Donald Trump (ao menos segundo Scrhade). E é interessante nesta revisita a cena do crime, que Romero se espante deles a terem preservado, quando muito pouco do novo ambiente sequer indica a existência prévia de um hotel. Romero se emociona ao perceber sua presença no mural dedicado a Kennedy, e alertado por Schrade, que também reconhecia previamente a si próprio e Dolores Huerta. De todos os depoentes mais expressivos se pretende vinculá-los a uma continuidade com a luta por maior equidade de então – e com Bobby Kennedy como um dos maiores, senão o maior, dos exemplos. Finda com uma convocação do próprio Bobby Kennedy a agir para mudar o mundo.   Série em quatro episódios para a TV, lançada no cinquentenário da morte de seu retratado. No geral sua força maior reside no quão didaticamente entretece dois pontos fundamentais: o aprendizado de Kennedy com as injustiças que testemunhou, inclusive a questão racial (por mais que também houvesse um cálculo político nesta equação); o delineamento da complexa eleição de 1968, talvez a mais singular da história estadunidense, tal a quantidade de peripécias, algumas delas completamente imprevisíveis, do lado democrata, como é o caso da renúncia de Johnson ou da morte trágica de Kennedy. E o faz com muito mais clareza do que mesmo livros dedicados especificamente a este tema. Talvez soçobre em seu conjunto, menos o extenso material dedicado ao candidato, antes de se lançar candidato – já muito próximo do episódio que dará cabo a sua vida – o último, situado após a morte deste e as possibilidades, frustradas, de se investigar o episódio em si do assassinato.|RadicalMedia para Netflix. 245 minutos.

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