Filme do Dia: O Último Azul (2025), Gabriel Mascaro

 


O Último Azul (Brasil/México/Holanda/Chile, 2025). Direção Gabriel Mascaro. Rot. Original Gabriel Mascaro, Tibério Azul & Murilo Hauser. Fotografia Guillermo Garza. Música Memo Guerra. Montagem Omar Guzmán & Sebastián Sepúlveda. Dir. de arte Dayse Barreto. Figurinos Gabriella Marra. Maquiagem Juliana Bolze. Com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarras, Adanilo, Rosa Malagueta, Clarissa Pinheiro, Dimas Mendonça, Daniel Ferrat.

Em uma sociedade onde o governo controla os idosos, levando-os para campos de exclusão social coletiva, Tereza (Weinberg), às vésperas de ser encaminhada para um destes campos, decide fugir e viajar pela Amazônia, com o intuito de voar pela primeira vez, antes de retornar e se entregar às autoridades. Ela encontra um capitão de barco, Cadu (Santoro), com traumas amorosos e que lhe apresenta um caracol que solta uma tinta azul, capaz de provocar uma expansão ou modificação da consciência a respeito do futuro. Tudo isto ocorre porque o barco se encontra impedido temporariamente de avançar. Tereza retorna a sua casa, e é encaminhada  para um dos campos. Uma das obrigações é a de usar fralda. Tereza consegue driblar o esquema de segurança, afirmando estar  a fralda com problemas. E não mais retorna, refugiando-se em um dos banheiros químicos utilizados em um momento anterior da operação. Ela busca ajuda no bosque onde repousa e é encontrada por duas crianças. Que a levam até uma “freira”, que vende bíblias digitais em um barco, Roberta (Socarrás), levando ao surgimento de uma grande amizade e novas experiências.  Roberta disse que conseguiu comprar sua própria liberdade.

Mascaro volta a senda da ficção científica distópica que já havia enveredado em Divino Amor. Quando se compara a aventura dos personagens, e sobretudo do próprio filme, em relação a outra viagem pela Amazônia, Iracema, uma Transa Amazônica, o modo digressivo e diluído com que a narrativa se desenvolve, também interagindo, em bem menor monta, com moradores locais, poderia servir como um sinal de seu tempo, como a alegoria de Bodanzy & Senna o fora do seu. Esta desconstrução de discursos mais fechados sobre tudo, do qual parece partir, tangenciado de forma irregular por tópicos de ficção científica, torna-o pouco instigante e até mesmo cansativo, com muito pouco a ser extraído das situações e personagens, de forma proposital.  E tanto o é que sequer conseguimos encaixar na sinopse o personagem vivido por Adanilo, que como o de Santoro, é inócuo, mais uma menção ao que seria um personagem que uma elaboração repleta de um caldo pós-modernista, em que a farsa parece se encontrar sempre latente, como em boa parte da pior obra de Wenders. O de Roberta parece bem mais interessante, embora tragado, em última instância, pelo mesmo páthos. E o realizador é demasiado alerta, demonstrando sua compreensão de algumas recorrências na produção contemporânea internacional, como o da exibição de corpos e desejos de idosos, tema que busca ser capturado pelo filme – e de certo modo o é, contando para isso com a interpretação de Weinberg, com seu sotaque igualmente desenraizado do local, a trabalhar inicialmente em uma fábrica de tratamento da carne de jacarés. Por mais que saudavelmente simbólica a ser esta crítica ao descaso com uma velhice, protagonizada por sua atriz principal, ao observarmos nesta realidade distópica tantos traços de semelhança com  a realidade ribeirinha brasileira quanto os de uma Paris noturna em meados dos anos 60 na ficção distópico-futurista de Godard (Alphaville), detalhes à parte como o da bíblia em suporte de alta tecnologia, só nos resta indagar como não entra nesta conta, em um mundo crescentemente envelhecido, as próprias formas capitalísticas de faturar em cima deste segmento da população, até por serem potencial de reserva monetária, sobretudo em famílias de baixo poder aquisitivo; ou ainda, o quanto não seria mais importante para este modelo de capitalismo menos o modo baseado na produção industrial em série fordista – observado na fábrica de processamento de jacarés – que o consumo a ser gerado com o dinheiro minimamente acumulado por estes aposentados; sem cair na mesquinhez de indagar, por exemplo, o estranhamento (bem vindo em tal tipo de diálogo com a ficção científica), uma vez mais, do sotaque e origem de Weinberg. Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim. |CineVinay/Desvia Filmes/Quijote Cine/Viking Films. 85 minutos.

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