Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#170: Qué Tan Lejos

 



QUÉ TAN LEJOS. (Equador, 2006). Um envolvente road movie, Qué tan Lejos, foi o primeiro longa-metragem da diretora-roteirista Tania Hermida. Com sua extensiva apresentação de paisagens pitorescas do país, inclusão de personagens de diferentes classes sociais e origens étnicas, e inédito sucesso popular e de crítica, Qué tan Lejos tem sido chamado da quintessência do cinema equatoriano. 

A história segue a jornada de Esperanza (interpretada por Tania Martínez), a alegre agente de viagens espanhola de vinte e sete anos, em férias, e Tristeza (interpretada por Cecilia Vallejo), estudante universitária esquerdista, que possui vinte e quatro, mas aparenta menos, que se encontra em missão de "salvar" seu namorado de um casamento burguês, que ela pensa ele se encontra forçado a realizar. Elas se encontraram em um ônibus partindo de Quito para a cidade sulista de Cuenco, mas uma greve que bloqueia a rodovia em breve as forçará a pedirem carona. Isto transforma uma caminhada de quatro horas em uma maratona de dois dias, permitindo ao filme visitar variadas regiões do país, indo de montanhas à praias, passando por vilas, tocando levemente em uma série de questões sociais e políticas, da infra-estrutura do país em pedaços às tensões raciais, greves crônicas, divisões de classe e sexismo ao governo inútil e desconectado da realidade (há um golpe presidencial durante a viagem, que é recebido com um levantar de ombros).

As duas mulheres formam um casal improvável, com as otimistas expressões de prazer de Esperanza à beleza do campo sendo interrompidas pelos impacientes comentários de Tristeza sobre os muitos fracassos do país. Ainda que nem Tristeza, nem tampouco o filme, sejam, em última instância, críticos do Equador, celebrando a bagunçada realidade a jazer para além da superfície e orientem o público e Esperanza a conclusões bem mais importantes que o Equador ser belo ou disfuncional, mas que é legal. Este "ser legal" é descoberto ao longo do caminho, com uma voz over esporadicamente citando de um guia de viagens, em contraste com a contundente beleza da parcamente povoada paisagem montanhosa, pontuados pelo encontro com uma loja de conveniências feminina, cuja proprietária é viciada em telenovelas, um casal de crianças que passa sem uma palavra, com seu rebanho de ovelhas, uma dupla de desinformados repórteres televisivos, um amistoso jovem indígena em uma motocicleta e um falante bartender de praia negro. Mesmo a um playboy elitizado é dado um momento de simpatia, quando para o carro e dança no meio de uma estrada deserta para celebrar a vitória de seu time de futebol. 

O mais importante encontro vem a ser com um homem alto e magro, barbado, com inclinações filósoficas, chamado Jesús (um nome comum na América Latina, mas escolhido deliberadamente, assim como os das mulheres). É ator e poeta, e algo como um fugitivo da sociedade estabelecida, a proporcionar palavras de sabedoria e orientação. Irá eventualmente desaparecer sem avisar, revelando-se ele próprio igualmente, em última análise, tão pouco confiável quanto os outros homens no filme. Que os homens encontrados na estrada sejam todos amistosos, em alguma medida úteis e de uma maneira geral inofensivos, mas com quem não se pode contar, é um interessante comentário sobre os homens latino-americanos; e como na cena em que as protagonistas femininas criam um vínculo ao compartilharem um absorvente interno, é indubitavelmente fruto do filme ser realizado por uma roteirista-diretora. Este ponto de vista traz um certo frescor ao material, e juntamente com o humor sutil, bela fotografia (de Armando Salazar) e locações incomuns, tornam o filme memorável.

Qué tan Lejos foi enormemente popular no Equador, ficando em cartaz nos cinemas por vinte  e quatro semanas e sendo visto por mais de 200 mil pessoas, cifra nunca ouvida por parte de algum filme doméstico. Participou de diversos festivais internacionais e venceu prêmios no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana, e no Festival do Mundo, de Montreal. Foi um inesperado sucesso também na Espanha, onde uma grande comunidade de equatorianos expatriados encheram as salas de arte onde estava sendo exibido, tornando-o um fenômeno comercial. Na época da descoberta de um público para o cinema equatoriano foi pensado como uma oportunidade de proporcionar sucessos futuros, e talvez isto tenha finalmente se materializado, com uma série de filmes do país tendo sido exibido em festivais internacionais em 2011, incluindo o longamente aguardado segundo longa de Hermida, El Nombre de la Hija, exibido nos festivais de Havana e Roma. 

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David Hanley

Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 469-70.

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