O Dicionário Biográfico de Cinema#348: Paul Newman
Paul Newman (1925-2008), n. Cleveland, Ohio.
Desde que tantas pessoas ao redor do mundo acharam Newman tão atrativo, importa muito pouco que eu seja cético de tal simpatia de olhos azuis. Ele parece-me uma personalidade tão apreensiva e auto-estimada, como se a beleza o deixasse culpado. Como resultado, foi mais maneirista que Brando como jovem, enquanto seu sorridente bom-humor sempre pareceu mais apropriado a anúncios sofisticados mais que bons filmes. O filme crucial em sua carreira foi The Hustler [Desafio à Corrupção] (61, Robert Rossen) em que George C. Scott o analisa e o descarta como um perdedor nato, um atleta vistoso, mas sem resistência ou caráter. Assistir repetidamente Desafio à Corrupção somente apresenta os músculos "sensíveis" do papel de Newman. O antagonista pretendido por Scott se torna cada vez mais interessante e atraente, e me pego rejeitando o drama sentimental de Rossen, cercado como está por bolas de bilhar, ansiando para que a percepção de Scott seja confirmada. Hawks, certamente, teria ficado com Desafio no final, e esfregado o nariz de Newman no cal.
Dito isso, Newman foi muito bom encarnando Rocky Graziano em Somebody Up There Likes Me [Marcado pela Sarjeta] (56, Robert Wise), um comediante razoável em Rally Round the Flag, Boys! [A Delícia de um Dilema], de McCarey (58), perfeitamente, ainda que inconscientemente, bem utilizado em Desafio à Corrupção, e reduzido a um entusiasmo animal meio artístico por Arthur Penn em The Left-Handed Gun [Um de Nós Morrerá] (58), ainda que seu Billy the Kid fosse muito mais um nobre selvagem de intelectual, um personagem que traiu seriamente a seriedade de Newman em outros papéis. Seus milhões de fãs apontariam para seu encadeamento de prestigiados sucessos de bilheteria - interpretando os heróis de Tennessee Williams para Richard Brooks em Hot in a Cat Thin Roof [Gata em Teto de Zinco Quente] (58) e Sweet Bird of Youth [O Doce Pássaro da Juventude] (60); como Hud [O Indomado] (63) para Martin Ritt; como o herói em Exodus (60), de Preminger; como Harper [O Caçador de Aventuras] (66, Jack Smight) e suspenso para sempre à beira do precipício da meia-idade em Butch Cassidy and the Sundance Kid [Butch Cassidy] (69, George Roy Hill). Responderia que ele, nestes filmes frauda a fotografia real de insegurança e oportunismo que Tennessee Williams oferece; que seu Hud é genuinamente desalmado; que seu desprezo por Exodus demonstra sua compreensão empobrecida do cinema, que em O Caçador de Aventuras soa como um adolescente imitando Bogart, e que Butch Cassidy é um western castrado.
Voltando aos primórdios, após o serviço de guerra no Pacífico, Newman estudou na escola de drama de Yale e no Actor's Studio, aparecendo na Broadway em Picnic - onde encontrou sua segunda esposa, Joanne Woodward e, posteriormente, Sweet Bird of Youth. Fez sua estreia no cinema no sem sentido The Silver Chalice [O Cálice Sagrado] (55), de Victor Saville e em The Rack [Deus é Meu Juiz] (56, Arnold Laven), antes de assumir o papel pretendido para James Dean em Marcado pela Sarjeta e erigir seu apelo suave e romântico em Until They Sail [Famintas de Amor] (57, Wise), The Helen Morgan Story [Com Lágrimas na Voz] (57, Michael Curtiz), The Young Philadelphians [O Moço de Filadélfia] (59, Vincent Sherman) e From the Terrace [Paixões Desenfreadas] - um pacote de maus filmes.
Um astro maior nos primórdios dos anos 60, Newman trabalhou duro para ser algo mais que o veículo para as fantasias de outras pessoas. Em 1968 dirigiu Rachel, Rachel, um filme bastante digno, embora realizado solene e ostensivamente para proporcionar a Woodward um papel decente. Depois disso, Newman também co-dirigiu Sometimes a Great Notion [Uma Lição para Não Esquecer], com Richard Colla, e dirigiu sua esposa novamente em The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds [O Preço da Solidão] (72). Como diretor, foi cheio de boas intenções, gravidade temática e o desejo de fomentar atuações sensíveis. Mas não muito além disso; não o suficiente, certamente, de prevenir o sentimento de um diligenge, inteligente e recuperado vigarista, tentando trabalhar para o bem da comunidade.
Esta poderia ser uma caracterização injusta. Mas existem primeiros e inconfundíveis traços de um jovem homem de meia idade desejando o que poderia deslocar sua beleza. Assim como sua incorporação de "selvagens" e durões nunca foi totalmente convincente - The Long Hot Summer [O Mercador de Almas] (58, Ritt); como o boxeador bêbado em Hemingway's Adventures of a Young Man [As Aventuras de um Jovem Homem] (62, Ritt); O Indomado; The Outrage [Quatro Confissões] (64, Ritt); Hombre (67, Ritt); Cool Hand Luke [Rebeldia Indomável] (67, Stuart Rosenberg); Pocket Money [Meu Nome é Jim Kane] (72, Rosenberg); The Life and Times of Judge Roy Bean [Roy Bean - O Homem da Lei!] (72, John Huston) - então, também seus papéis "másculos" soam castrados e derivativos: Torn Curtain [Cortina Rasgada] (66, Alfred Hitchcock); Winning [500 Milhas] (69, James Goldstone); WUSA [A Sala dos Espelhos] (70, Rosenberg); The MacKintosh Man [O Emissário de MacKintosh] (73, Huston); um estudante em conserva pretendendo ser um homem confiante em The Sting [Golpe de Mestre] (73, Hill); The Towering Inferno [Inferno na Torre] (74, John Guillermin). Será que Newman sempre se sentiu desconfortável com seus atributos naturais - sua beleza - e nunca se sentiu convencido por eles? Isto seria responsável pela mistura incerta de insolência porosa e naturalismo balbuciado, assim como se acomoda com sua insistência em se provar como um cidadão sério. Esteve com sua mulher uma vez mais em The Drowning Pool [A Piscina Mortal] (75, Rosenberg); esteve fascinante em meio ao fracasso de Buffalo Bill and the Indians [Oeste Selvagem] (76, Robert Altman), certamente mais identificado que nunca antes com a fraude de cabelos longos, e encontrando páthos na embriagada lenda viva - a interpretação necessitou de mais apoio do filme e de seu diretor. O impulso de desiludir os fãs devotados e de meia-idade ficou evidente mais uma vez em Slap Shot [Vale Tudo] (77, Roy Hill), onde interpretou um estridente, ríspido e inescrupuloso treinador de hockey -um bom e velho rapaz, fazendo uso da adolescência tardia de Newman. Ainda permanecia manhoso e astuto, mas a sordidez preencheu esta face muito mais interessantemente que a nobreza.O raso tour de force de Vale Tudo pode ter sido uma primeira lembrança que Newman ainda não havia coletado seu Oscar.
Mas Quintet [Quinteto] (79, Altman) nos deixou com um sentimento que estava raspando o caminho de todo o charme prévio, tornando qualquer prêmio menos provável.
Newman levou seu Oscar, ao final, como o personagem de Desafio à Corrupção vinte e cinco anos mais velho em The Color of Money [A Cor do Dinheiro] (86, Martin Scorsese). Não por conta de Newman, mas Desafio à Corrupção é um filme tão melhor que a piedade da Academia se assemelha a um modelo para o declínio dos filmes. Newman teria merecido mais como o advogado alcóolatra em Verdict [O Veredito] (82, Sidney Lumet), um filme no qual a ação e a luz de inverno de Boston atravessa sua máscara e uma alma crua, mas Newman perdeu este ano para Ben Kingsley como Gandhi. O Veredito é um filme perturbador porque demonstra de que Newman é capaz uma vez sua aversão à intimidade seja quebrada. Poderia ter sido um ator para grandes papéis - a arrogância havia se ido - mas de algum modo parecia amargo e inabálavel sobre sua própria arte.
Também apareceu em When Time Ran Out [O Dia em que o Mundo Acabou] (80, James Goldstone), Fort Apache, The Bronx [41 DP: Inferno no Bronx] (81, Daniel Petrie); Absence of Malice [Ausência de Malícia] (81, Sydney Pollack); como General Groves em Fat Man and Little Boy [O Início do Fim] (89, Roland Joffé); severamente inibido em Blaze [Blaze, o Escândalo] (89, Ron Shelton) - não era o tipo de ator para deleite sexual, muito menos para o abandono. Foi bem elencado como o marido fechado em Mr. and Mrs. Bridge [Cenas de uma Família] (90, James Ivory); como o magnata em The Hudsucker Proxy [Na Roda da Fortuna] (94, Joel Coen).
Ao mesmo tempo, continuou a dirigir: o bastante comovente The Shadow Box [A Caixa de Surpresas] (80), para a TV, estrelado por sua esposa; Harry and Son [Meu Pai, Eterno Amigo] (84), no qual atuou com Robby Benson e Joanne Woodward; e o digno e descontrolado The Glass Managerie [Algemas de Cristal] (87), estrelado por Woodward, John Malkovich, Karen Allen e James Naughton.
Depois disso, realizou seis retratos na rude velhice - mais relaxado, mais mal-humorado e verdadeiramente simpático: o excelente Nobody's Fool [O Indomável: Assim é Minha Vida] (94, Robert Benton), mostrando doce admiração pelos seios de Melanie Griffith, e pelo qual recebeu sua oitava indicação ao Oscar; Twilight [Fugindo do Passado] (98, Benton); Message in a Bottle [Uma Carta de Amor] (99, Luis Mandoki); Where the Money Is [Cadê a Grana?] (00, Marek Kanievska); Road to Perdition [Estrada para Perdição] (02, Sam Mendes) - uma nona indicação; como empresário teatral em Our Town (03, James Naughton).
Quando morreu, foi como se estranhos houvessem perdido um amigo confiável - o estrelato nunca foi questionado. Na verdade, não deixou bons filmes o suficiente. Mas ele era inquieto e nunca nos contou o porquê.
Texto: Thomson, David. The New Biographical History of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 1911-15.

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