Filme do Dia: Uma Aventura na Martinica (1944), Howard Hawks
Uma
Aventura na Martinica (To Have and Have Not, EUA, 1944). Direção Howard Hawks. Rot. Adaptado Jules Furthman & William Faulkner, a partir do romance
de Ernest Hemingway. Fotografia Sidney Hickox. Música Franz Waxman. Montagem
Christian Nyby. Dir. de arte Charles Novy. Cenografia Casey Roberts. Figurinos
Milo Anderson. Maquiagem e Cabelos Perc Westmore & Edith Westmore. Com
Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Walter Brennan, Dolores Moran, Hoagy Carmichael, Sheldon Leonard, Marcel Dalio, Walter Sandy, Walter Szurovy.
No verão de 1940, o viajado Harry “Steve” Morgan
(Bogart), com o auxílio do bêbado amigo Eddie (Brennan), na colônia francesa de
Martinica, vão duas semanas tentar com que um pescador endinheirado, Johnson
(Sande) fisgue um peixe-espada. Mesmo sem sucesso na empreitada, Johnson fica
devendo mais de 800 dólares a Steve. Ele promete pagá-lo no dia seguinte,
quando o banco abrir. Porém, uma recém-chegada do Rio de Janeiro, Marie “Slim”
(Bacall), furta-lhe a carteira, e nela o observador Steve descobre mais de mil
dólares. Quando vai recuperar seu dinheiro uma confusão e tiros ocorre no bar
onde se encontram, resultando na morte de Jonhson. Tendo recusado mais de uma
vez os apelos do Francês (Dalio) de levar em seu bote, clandestinamente, até a
Ilha do Diabo, um casal de membros da Resistência Francesa, Bursac (Moran e
Surovy), agora ele pretende fazê-lo, por um bom motivo, dinheiro. Quem vai
escondido no bote é seu fiel Eddie, enquanto Slim, agora mantendo uma relação
com Steve, conseguiu um emprego como cantora no bar do hotel, acompanhando o
inspirado pianista Cricket (Carmichael). A operação é mal sucedida, e De Bursac
ferido a bala. Quando retornam ao hotel, Steve se surpreende que Slim não
partira como havia prometido, esperando por ele, que passa a cuidar do
ferimento de De Bursac, mesmo contra a hostilidade inicial de sua esposa,
retirando a bala de seu corpo, enquanto ela desmaia. Steve é agora pressionado
fortemente pela polícia local, que reconheceu seu bote no dia dos disparos de
ambos os lados. Steve desconversa, e a polícia tenta tirar proveito das
bebedeiras de Eddie, posteriormente o prendendo como forma de desestabilizar
emocionalmente Steve. O feitiço vira contra o feiticeiro, no entanto, com Steve
dominando o chefe de polícia, matando um de seus homens e fazendo com que não
apenas Eddie seja solto, mas ele tenha tempo de fugir com Slim e...claro,
Eddie.
Há alguém mais femme fatale que Lauren Bacal lem sua primeira aparição no primeiro filme de sua carreira? E já formando par
(inclusive fora das telas) com Bogart? Houve um piano acompanhado de uma
beldade que se tornaria muito mais famoso que este, assim como a canção. Mas,
de forma mais trivial e engenhosa-brincalhona, e também lidando com franceses
de Vichy e os simpatizantes de de Gaulle, como reclamar dos duetos de Bacall
com ninguém menos que Hoagy Carmichael? E o “Steve” de Bogart é uma encarnação
da Hollywood sobretudo em tempos de paz, embora aqui até de guerra igualmente –
apenas se interessa pelo dinheiro, e não discute tomar partido ideológico por
nada. Não há contradição maior do que se ouvir um discurso engajado-clichê de
De Bursac, sobre sempre existir alguém disposto a combater os alemães e
observar o contraplano de Bogart plácido, quase cínico, a ouvi-lo. E certamente
muito distante, neste aspecto, do livro de Hemingway. E quando se junta a
Bacall, começando a viver ambos uma das relações mais famosas, embora não tão
longas de Hollywood, por vezes a cumplicidade dos dois perfura o universo
ficcional, como quando ele ri de uma forma demasiado espontânea da imitação que
ela faz de Hellene de Bursac. É um riso demasiado não encenado e súbito. E que
Hawks preferiu não refazer – como futuramente Godard não se importaria com as
olhadas para câmera dos transeuntes em Acossado. Carmichael executa um
trecho generoso de sua Hong Kong Blues. E apesar da pose, da rouquidão
sensual da voz que lhe seria marca registrada, além do famoso “look”
atravessado para o seu amor, a personagem de Bacall está longe de se encontrar
mais engajada na ação. Ela somente é vista praticamente no bar-hotel. E a cena
mais hilária do filme é quando, comovido, o “francês” se aproxima agradecido e
Steve, fiel a sua persona pouco partidária, mais profundamente pessoal,
anti-intelectual e intuitiva (uma vez mais como Hollywood) afirma “nada de
beijos”. E é com um balançado de cadeiras nada comum e a música de Carmichael e
sua banda, assim como os tiques habituais reservados aos personagens vividos
por Walter Brennan que esta quase paródia de filme de aventura-noir, no qual as
relações entre os personagens dizem mais que propriamente as cenas de ação, se
encerra. E ninguém melhor para trazer o elemento inusitado do humor para o
universo noir que alguém que passeou por quase todos os gêneros
clássicos, no mínimo, com desenvoltura: Howard Hawks. |Warner Bros. 100 minutos.![]()

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