Filme do Dia: Propriedade (2022), Daniel Bandeira

 


Propriedade (Brasil, 2022). Direção e Rot. Original Daniel Bandeira. Fotografia Pedro Sotero. Música Caio Domingues & Nicolau Domingues. Montagem Mathes Farias. Dir. de arte Maira Mesquita. Figurinos Andréa Monteiro. Maquiagem Tayce Vale. Com Malu Galli, Tavinho Teixeira, Zuleika Ferreira, Carlos Amorim, Marcílio Moraes, Anderson Kleber, Sandro Guerra, Roberta Lúcia.

Recém-saída de uma experiência traumática envolvendo ser escudo humano para um assaltante que acabará se suicidando, a estilista Tereza (Galli) é levada pelo marido Roberto (Teixeira) para uma propriedade rural, onde a eminente expulsão dos que por lá moram, provocou um suicídio na véspera e está provocando uma situação de tensão que leva ao ferimento grave de Roberto e ao refúgio de Tereza no veículo de luxo do casal, recém-blindado, para a fúria de boa parte dos que se encontram rebelados. A situação, que já se encontrava tensa com a morte do representante de Roberto pelo filho mudo de um dos mais revoltados, agrava-se de vez com o assassinato de Roberto diante da esposa, ainda refugiada no carro.

Sinal dos tempos, e não necessariamente um bom augúrio, que das alegorias sobre a nossa violência colonial reproduzida nos dias de hoje, em reprises e recalques mal contidos (Cronicamente Inviável, Trabalhar Cansa, Estômago, O Som ao Redor e vários outros) se passa agora a violência explícita, mais que sua evocação, algo que Bacurau já apontava e esta produção de certa forma segue, com vários paralelos possíveis com este último. Poder-se-ia pensa-lo como uma atualização de uma revolta da senzala contra a casa grande com alguns bons trunfos. Um deles é que os revoltosos não são um bloco homogêneo, mas possuem profundas cisões internas sobre que rumo tomar após os episódios crescentemente radicais aos quais estão envolvidos. O outro, provavelmente o seminal, é que o thriller consegue criar uma atmosfera tensa praticamente do início ao final de forma bastante consistente com a tradição de gênero, conseguindo ser mais feliz em abdicar do tom mais pretensioso de seu duplo, digamos assim, Bacurau. Preferencialmente para ser assistido em tela grande e de modo ininterrupto. Há inversões, como a de Tereza sendo caçada como uma escrava, outras bastante questionáveis, em termos de representação racial, como a dos ruídos animalescos que saem do trabalhador mais violento quando persegue Tereza. Não há como se demonizar a última, tendo em vista que todas as atitudes violentas que efetua são reação a sua própria autopreservação. Numa das cenas mais emblemáticas, ela e uma mulher a quem já levara medicações tentam se comunicar, sem sucesso, através dos vidros blindados do carro. A provocação maior é não deixar pedra sobre pedra na cultura de “docilidade” ou cordialidade associada à obra de Gilberto Freyre, já que ocorrendo no mesmo ambiente na qual foi prioritariamente instituída, a cultura do engenho. E que, ao que tudo indica, ainda funciona com formas de trabalho assemelhadas, com os gêneros alimentícios sendo comprados pelos trabalhadores junto a um comerciante vinculado ao proprietário, todos morando na propriedade, portanto criando vínculos de dependência e subordinação similares aos observados em um documentário como Teodorico, O Imperador do Sertão. A partir de uma potencialização hipotética, a punir por uma violência física e minimamente articulada a se contrapor a vivenciada ordinariamente em suas vidas, partindo dos pobres, o filme parece igualmente ser uma expressão conservadora do temor deste momento no qual nenhuma mediação (religião, costumes, política, festividades) será possível entre mundos tão distantes, só restando a barbárie. E nenhuma forma de sucedâneo tampouco parece, nem mesmo alegoricamente, poder ser vislumbrada, daí os finais tão pouco definitivos quanto os de Bacurau, e sobretudo desta produção. Uma das forças do filme, talvez a que ao final produza mais empatia, é a de se observar como uma estilista saída  de um trauma não muito distante do universo de Bergman (tipo uma das protagonistas de Persona) passa para uma luta pela sobrevivência e reação, que pode ser ainda mais violenta (ao estilo do protagonista ameaçado de Sob o Domínio do Medo). É mais que óbvio que o filme lida, de forma feliz, com muito do que se gestou em termos de autosegurança pessoal por parte da elite, em resposta a uma sociedade cuja boa parte da violência foi provocada por mecanismos opostos, daqueles que não possuem estes artifícios de contenção e distanciamento, sociais e literais, e mesmo alguns mais básicos em relação à vida, mas não há respostas alegóricas, no máximo regionais – como a ideia de se tentar tirar a mulher do carro a partir de um “fumacê” utilizado comumente para espantar os mosquitos - para pensar de forma mais ampla o apresentado. Talvez fosse pedir demais, ficamos então com alguns vislumbres parciais, como os já referidos (a situação de caça, agora não mais ao “escravo” rebelde ou fugido, mas a seu dono) e entregues às convenções dos filmes de gênero. Será o suficiente para o vespeiro no qual conscientemente mexe? Não parece. Bandeira pode ter bebido, além da proximidade de Kléber Mendonça Filho, de quem foi habitualmente montador, no horror recente trazido por nomes como Jordam Peele (Corra!, Nós), embora, uma vez mais, a propriedade ameaçada, ao contrário de Peele, seja de uma família branca.  |Símio Filmes/Vilarejo Filmes para Vitrine Filmes.101 minutos. 

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