Filme do Dia: Na Teia do Destino (1949), Max Ophüls
Na Teia do
Destino (The Reckless Moment, EUA, 1949). Direção Max Ophüls. Rot.
Adaptado Henry Garson, Robert Soderberg, Mel Dinelli & Robert E. Kent, a
partir do conto The Blank Wall, de Elisabeth Sanxay Holding. Fotografia
Burnett Guffrey. Música Hans J. Salter. Montagem Gene Havlick. Dir. de arte
Cary Odell. Cenografia Frank Tuttle. Figurinos Jean Louis. Com James Mason,
Joan Bennett, Geraldine Brooks, Henry O’Neill, Shepperd Strudwick, David Bair,
Roy Roberts, Frances E. Williams.
Lucia
(Bennett) viaja da pequena e insular Balboa Island até Los Angeles, encontrando
o mau caráter amante da filha adolescente Bee (Brooks), Darby. Este se encontra
inclinado em aceitar algum dinheiro de Lucia pelo rompimento da relação. Bee,
ao saber de tudo, não acredita, até ouvir da própria boca de Darby. Ela o
agride e ele acidentalmente morre. Lucia descobre o cadáver na manhã seguinte e
o leva no bote da família, afundando-o com uma âncora. Agora terá que lidar, no
entanto, com uma dupla de criminosos que pretende chantageá-la, o insidioso
Martin Donnelly (Mason) e o mais direto Nagel (Roberts).
Ao
início se imagina que a surdez da mãe ao filho quando se desloca de carro para
Los Angeles trai algo que foge completamente do cenário da família tranquila e
tipicamente americana que parece deixar para trás. É uma hipótese equivocada
apenas em termos de viés. Ela esconde um amor clandestino da filha, tampouco
conhecido da família e a fará pouco depois se deparar com o resultado
brutalmente físico do que poderia ser abafado sem mais: um cadáver. E é notável
o modo como a Lucia de Bennett se desloca pelos cômodos da casa como se fossem
peças de um xadrez ao mesmo tempo a mesclar demandas cotidianas (da empregada),
comentários triviais dos inocentes (o filho e o pai dela), tensão a beira da
histeria (a filha, sabedora da repercussão
da morte do amante) e chantagem (o homem que acaba de chegar em sua
casa, com todas as cartas de amor trocadas entre a filha e o falecido). É
engenhoso o modo como a família e a comunidade, em reverso, podem se tornar
opressoras, em um momento tão delicado quanto o vivido por Lucia, e acusado por
ela própria – as perguntas sobre qualquer movimentação incomum, o prestador de
serviços a flagrá-la com outro homem em um carro, e não deixar por menos o
flagrante, os empregados do pequeno comércio; e até mesmo o elemento a causar a
tensão mais imediata do momento, o chantageador (“você fuma demais. Não é bom
para saúde”). E chega a ser risível o modo como Lucia chama a filha para
arrumar o punho de sua roupa antes de se deparar com uma figura perigosa em sua
própria casa. O auto sacrifício a postos, pronto a pagar pelo crime da filha,
do qual colaborou para livrá-la (uma toada nada dessemelhante, neste aspecto, a
Alma em Suplício). E o quanto a respeitabilidade se encontra por um fio,
não totalmente dependente dela, e parece ser este o ponto subliminar de toda a
tensão construída. E o quanto Ophüls se sai bem tão distante dos dramas
amorosos altamente estilizados pelos quais é mais lembrado, e se deixa emergir
no noir, repleto de diálogos ao ponto de não se conseguir acompanhá-los
ocasionalmente, ainda que distante de vários dos clichês deste. E, ao mesmo
tempo, como uma mulher tem que lidar diretamente com todo um acúmulo de tensões
geralmente reservado (ou ao menos focado) em um homem, estando este
completamente ausente de toda a narrativa. E que para sua sorte – e final feliz
do filme – terá um criminoso com culpa o suficiente para assumir além de seus
crimes. E é como se Ophüls (creditado como Opuls, à guisa de um provável menor
estranhamento com seu nome) deixasse evidente uma culpa comum a vincular Lucia
ao criminoso de voz mansa atormentado vivido por Mason, em seu terceiro filme
americano, só que um a expondo
abertamente, e a outra se refugiando na família e para esta disposta a realizar
também seus crimes, os quais provavelmente nunca virão à tona nem mesmo – e
sobretudo – para a própria família. A única a perceber todas as movimentações
esquivas mais comprometedoras e até participar de alguns dos momentos sendo a
fiel empregada Sybil (inexplicavelmente vivida por uma atriz sequer creditada).
E o deslocamento das lágrimas sentidas por Donnelly para o marido por Lucia são
uma constatação atroz da covardia e das mentiras que, tal como as da história
de uma nação, precisam ser jogadas para debaixo do tapete, para uma
continuidade do cotidiano sem maiores atropelos (ao menos para alguns). Último
filme de Ophüls nos Estados Unidos. O célebre produtor Walter Wanger o produziu
como veículo para sua esposa, e assassinaria um agente, suspeitando de um
envolvimento romântico dele com Bennett, dois anos após. Walter Wanger Prod.
para Columbia Pictures. 79 minutos.![]()

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